


Guies Lipovetsky


A Era do Vazio





Traduo de Miguel Serras Pereira
e Ana Lusa Faria


NDICE
Prlogo        7
Seduo non stop        1 7
A indiferena pura 33
Narciso ou a estratgia do vazio 47
Modernismo e ps-modernismo 75
A sociedade humorstica 127
Violncias selvagens, violncias modernas 161



A Era do Vazio
PRLOGO
Os artigos e estudos aqui apresentados colocam, todos eles, embora a nveis diferentes - e s por isso se justifica a sua publicao em conjun to - o mesmo problema 
geral: a desagregao da sociedade, dos costumes, do indivduo contemporneo da poca do consumo de massa, a emergncia de um modo de socializao e de individualizao 
indito, em ruptura com o institudo desde os sculos XVII e XVIII. E esta mutao histrica em curso que estes textos se esforam por evidenciar, considerando, 
com efeito, que o universo dos objectos, das imagens, da informao e dos valores hedonistas, permissivos e psicologistas que lhe esto ligados geraram, ao mesmo 
tempo que uma nova forma de controlo dos comportamentos, uma diversificao incomparvel dos modos de vida, uma flutuao sistemtica da esfera privada, das crenas 
e dos papis, ou, por outras palavras, uma nova fase na histria do individualismo ocidental. O nosso tempo s logrou evacuar a escatologia revolucionria levando 
a cabo uma revoluo permanente do quotidia no e do prprio indivduo: privatizao alargada, eroso das identidades sociais, desafeco ideolgica e poltica, desestabilizao 
acelerada das personalidades, eis-nos vivendo uma segunda revoluo individualista.
Uma ideia central governa as anlises que se seguem:  medida que as sociedades democrticas se desei a sua inteligibilidade revela-se  luz de uma lgica nova, 
a que chamamos aqui o processo de personalizao,
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sendo que este no pra de remodelar em profundidade o conjunto dos sectores da vida social. Sem dvida, nem todas as esferas se reestruturam no mesmo grau ou da 
mesma maneira de acordo com o processo em curso, e no ignoramos os limites das teorias que se esforam por unificar o todo so cial sob a gide de um princpio simples, 
quando  manifesto que as nossas sociedades pem em aco uma pluralidade de critrios especficos. Se, apesar de tudo, mntivemos a ideia de um esquema homogneo, 
isso liga-se ao facto de que se tratava menos de operar um levantamento instantneo do momento actual do que das linhas de transformao, da tendncia forte que 
modela,  escala da histria, as instituies, os modos de vida, as aspiraes e finalmente as personalidades. O processo de personalizao procede de uma perspectiva 
comparativa e histrica, designa a linha directriz, o sentido do que  novo, o tipo de organizao e de controlo social que nos arranca  ordem disciplinar-revolucionria-convencio
nal que predominou at aos anos cinquenta. Ruptura com a fase inaugural das sociedades modernas, demo crticas-disciplinares, universalistas-rigoristas, ideolgicas-coercivas, 
tal  o sentido do processo de personalizao, que seria evidentemente redutor assimilar a uma estratgia de reciclagem do capital, ainda que de rosto huma no. Quando 
um mesmo processo anexa num movimento sincrnico o conjun to de um sistema,  ilusrio pretender faz-lo assentar numa funo local instrumental, mesmo que ele possa 
contribuir eficazmente para a reprodu o ou para o aumento da mais-valia. A hiptese aqui adiantada  outra:
trata-se de uma mutao sociolgica global em curso, de uma criao histrica prxima daquilo a que Castoriadis chama uma "significao imaginria central", combinao 
sinrgica de organizaes e de significaes, de aces e de valores, que se esboa a partir dos anos vinte - apenas as esferas artsticas e psicanalticas a anteciparam 
em alguns decnios - e cujos efeitos no pararam de se amplificar a partir da Segunda Guerra Mundial.
Negativamente, o processo de personalizao remete para a fractura da socializao disciplinar; positivamente, corresponde  instalao de uma so ciedade flexvel 
assente na informao e na estimulao das necessidades, no sexo e no levar em conta os "factores humanos", no culto da naturalidade, da cordialidade e do humor. 
 assim que opera o processo de personalizao, novo modo de a sociedade se organizar e se orientar, novo modo de gerir os comportamentos, j no atravs da tirania 
dos pormenores, mas com o mnimo possvel de coaco e o mximo possvel de opes, com o mnimo de austeridade e o mximo de desejo, com o mnimo de constrangimento 
e o
mximo de compreenso. Processo de personalizao, com efeito, na medida em que as instituies doravante se fixam nas motivaes e nos desejos, incitam  participao, 
organizam os tempos livres e as distraces, manifestam uma mesma tendncia no sentido da humanizao, da diversificao, da psicologizao das modalidades de socializao: 
depois da domesticao autoritria e mecnica, o regime homeoptico e ciberntico; depois da administrao injuntiva, a programao opcional, a pedido. Novos procedimentos 
inseparveis de novas finalidades e legitimidades sociais: valores hedonistas, respeito pelas diferenas, culto da libertao pessoal, da descontraco, .do humor 
e da sinceridade, psicologismo, expresso livre - que quer isto dizer se no que uma nova significao da autonomia se instalou, deixando muito para trs o ideal 
que a poca democrtica autoritria se fixara? At uma da ta em ltima anlise recente, a lgica da vida poltica, produtiva, moral, escolar, asilar, consistia em 
mergulhar o indivduo numa rede de regras uniformes, em abstrair tanto quanto possvel as formas das preferncias e das expresses singulares, em afogar as particularidades 
idiossincrticas numa lei homognea e universal, fosse esta a "vontade geral", as convenes sociais, o imperativo moral, as regulamentaes fixas e estandardizadas, 
ou a submisso e a abnegao exigidas pelo partido revolucionrio: tudo se passou como se os valores individualistas s tivessem podido nascer sendo imediatamente 
enquadrados por sistemas de organizao e de sentido empenhados em esconjurar implacavelmente a sua indeterminao constitutiva. E este imaginrio rigorista da liberdade 
que desaparece, dando lugar a novos valores que visam permitir o livre desenvolvimento da personalidade ntima, legitimar a fruio, reconhecer os pedidos singulares, 
modular as instituies de acordo com as aspiraes dos indivduos.
O ideal moderno de subordinao do individual s regras racionais colec- tivas foi pulverizado; o processo de personalizao promoveu e incarnou ma ciamente um 
valor fundamental, o da realizao pessoal, do respeito pela singularidade subjectiva, da personalidade incomparvel, sejam quais forem, sob outros aspectos, as 
novas formas de controlo e de homogeneizao 
simultaneamente vigentes. Sem dvida, o direito de o indivduo ser absoluta mente ele prprio, de fruir ao mximo a vida,  inseparvel de uma socieda de que erigiu 
o indivduo livre em valor principal e no passa de uma ltima manifestao da ideologia individualista; mas foi a transformao dos estilos de vida associada  
revoluo do consumo que permitiu este desenvolvimento dos direitos e desejos do indivduo, esta mutao na ordem dos valores indi-
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vidualistas. Salto em frente da lgica individualista; o direito  liberdade, em teoria ilimitado, mas antes circunscrito  economia,  poltica, ao saber, conquista 
agora os costumes e o quotidiano. Viver livre e sem coaco, es colher sem restries o seu modo de existncia: no h outro facto social e cultural mais significativo 
quanto ao nosso tempo; no h aspirao nem de sejo mais legtimos aos olhos dos nossos contemporneos.
O processo 1e personalizao: estratgia global, mutao geral no fazer e no querer das nossas sociedades. Quando muito, seria conveniente distinguir nele duas faces. 
A primeira, "limpa" ou operacional, designa o conjunto dos dispositivos fluidos e desestandardizados, as frmulas de solicitao progra mada elaboradas pelos aparelhos 
de poder e de gesto que levam regular- mente os detractores de direita e, sobretudo, de esquerda a denunciar, no sem uma caricatura algo grotesca, o condicionamento 
generalizado, o infer no climatizado e "totalitrio" da affluent society. A segunda face, "selvagem" ou "paralela", como lhe poderamos chamar, decorre da vontade 
de autono mia e de particularizao dos grupos e dos indivduos: neo-feminismo, liber tao dos costumes e das sexualidades, reivindicaes das minorias regionais 
e lingusticas, tecnologias psi, desejo de expresso e de realizao do eu, movimentos "alternativos": enfim, temos por toda a parte a busca de uma identidade prpria 
e j no da universalidade como motivo das aces so ciais e individuais. Dois plos que tm, sem dvida, as suas especificidades, mas que trabalham ambos no sentido 
da sada de uma sociedade disciplinar e que o fazem em funo da afirmao, mas tambm da explorao do princpio das singularidades individuais.
O processo de personalizao emergiu no interior do universo disciplinar, de modo que o fim da poca moderna se caracterizou pelo casamento de duas lgicas antinmicas. 
Foi a anexao cada vez mais patente das esferas da vida social pelo processo de personalizao e o recuo concomitante do processo disciplinar que nos levou a falar 
de sociedade ps-moderna, ou seja de uma sociedade que generaliza uma das tendncias, inicialmente minorit ria, da modernidade. Sociedade ps-moderna, maneira de 
dizer a inflexo histrica dos objectivos e modalidades da socializao, colocados hoje sob a gide de dispositivos abertos e plurais; maneira de dizer que o individualis 
mo hedonista e personalizado se tornou legtimo e j no depara com oposi o; maneira de dizer que a era da revoluo, do escndalo, da esperana futurista, inseparvel 
do modernismo, terminou. A sociedade ps-moderna  a sociedade em que reina a indiferena de massa, em que domina o senti-
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mento de saciedade e de estagnao, em que a autonomia privada  bvia, em que o novo  acolhido do mesmo modo que o antigo, em que a inovao se banalizou, em que 
o futuro deixou de ser assimilado a um progresso me lutvel. A sociedade moderna era conquistadora, crente no futuro, na cincia e na tcnica; instituiu-se em ruptura 
com as hierarquias de sangue e a soberania sacralizada, com as tradies e os particularismos em nome do universal, da razo, da revoluo. Esse tempo desfaz-se 
diante dos nossos olhos;  em parte contra tais princpios futuristas que as nossas sociedades se estabelecem, nessa medida ps-modernas vidas de identidade, de 
dife rena, de conservao, de descontraco, de realizao pessoal imediata; a confiana e a f no futuro dissolvem-se, nos amanhs radiosos da revoluo e do progresso 
j ningum acredita, doravante o que se quer  viver j, aqui e agora, ser-se jovem em vez de forjar o homem novo. Sociedade Ps moderna significa, neste sentido, 
retraco do tempo social e individual pre cisamente quando se impe cada vez mais a necessidade de prever e organi zar o tempo colectivo, exausto do impulso modernista 
dirigido para o futu ro, desencanto e monotonia do que  novo, esgotamento de uma sociedade que conseguiu neutralizar na apatia aquilo que a fundamenta: a mudana. 
Os grandes eixos modernos, a revoluo, as disciplinas, O laicismo, a van- guarda, foram desafectados  fora de personalizao hedonista o optimis mo tecnolgico 
e cientfico desmoronou-se, enquanto as inmeras descober tas eram acompanhadas pelo envelhecimento dos blocos, pela degradao do meio ambiente, pelo apagamento 
progressivo dos indivduos j nenhuma ideologia poltica  capaz de inflamar as multides, a sociedade ps- moderna j no tem idolos nem tabus, j no possui qualquer 
imagem glo riosa de si prpria ou projecto histrico mobilizador; doravante o vazio que nos governa, um vazio sem trgico nem apocalipse.
Que erro foi anunciar precipitadamente o fim da sociedade de consumo quando  claro que o processo de personalizao no pra de lhe alargar as fronteiras. A recesso 
preseflte a crise energtica, a conscincia ecolgica no so o toque a finados da sociedade de consumo: estamos destinados a consumir, ainda que de outro modo, 
cada vez mais objectos e informaes, desportos e viagens, formao e relaes, msica e cuidados mdicos. E isso a sociedade ps-moderna no o para alm do consumo, 
mas a sua apoteose, a sua extenso  esfera privada,  imagem e ao devir do ego chamado a conhecer o destino da obsolescncia acelerada, da mobilidade, da desestabilizao. 
Consumo da sua prpria existncia atravs dos media desmultiplica-
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dos, dos tempos livres, das tcnicas relacionais, o processo de personalizao gera o vazio em technicolor, a flutuao existencial na e pela abundncia dos modelos, 
mesmo que condimentados de convivialidade, de ecologismo, de psicologismo. Mais precisamente, estamos na segunda fase da sociedade de consumo, cool e j no hot, 
consumo que digeriu a crtica da opulncia. Acabada, com efeito, a idolatria do american way of I dos carros triun fantes de cromados, das grandes estrelas e dos 
grandes sonhos de Holly wood; acabados a revolta beatnik, o escndalo das vanguardas; tudo isto deu lugar, segundo se diz, a uma cultura ps-moderna identificvel 
por diversas caractersticas: busca da qualidade de vida, paixo da personalidade, sensibilidade extrema, desafeco dos grandes sistemas de sentido, culto da participao 
e da expresso, moda rtro, reabilitao do local, do regional, de certas crenas e prticas tradicionais. Eclipse da bulimia quantitativa an terior? Por certo que 
sim, na condio de no perdermos de vista que estes fenmenos so igualmente manifestaes do processo de personalizao, ou tras tantas estratgias que trabalham 
no sentido de destruir os efeitos do modernismo monoltico, do gigantismo, do centralismo, das ideologias du ras, da vanguarda. No temos que opor a era do consumo 
"passivo" s cor rentes chamadas ps-modernas, criativas, ecologistas, revivalistas; no conjunto, estas completam o desmoronar da era moderna rgida em direco 
a uma maior flexibilidade, diversidade, escolhas privadas, com vista  repro duo alargada do princpio das singularidades individuais. A descontinui dade ps-moderna 
no comea com este ou aquele efeito particular, cultural ou artstico, mas com a preponderncia histrica do processo de personalizao, acompanhada pela reestruturao 
do todo social sob a sua lei prpria.
A cultura ps-moderna representa o plo "surperestrutural" de uma socieda que sai de um tipo de organizao uniforme, dirigista, e que, para o fazer, mistura, os 
ltimos valores modernos, reabilita o passado e a tradio, revaloriza o local e a vida simples, dissolve a preeminncia da centralidade, dissemina os critrios 
da verdade e da arte, legitima a afirmao da identi dade pessoal de acordo com os valores de uma sociedade personalizada onde o que importa  que o indivduo seja 
ele prprio, e onde tudo e todos tm, portanto, direito de cidade e a serem socialmente reconhecidos, sendo que nada deve doravante impor-se imperativa e duradouramente, 
e todas as opes, todos os nveis, podem coabitar sem contraco nem relegao. A cul tura ps-moderna  descentrada e heterclita, materialista e psi, pomo e discreta, 
inovadora e rtro, consumista e ecologista, sofisticada e espont
nea, espectacular e criativa; e o futuro no ter, sem dvida, que decidir em favor de uma destas tendncias, mas, pelo contrrio, desenvolver as lgicas duais, 
a co-presena flexvel das antinomias. A funo de uma exploso se melhante no  duvidosa: paralelamente aos outros dispositivos personaliza dos, a cultura ps-moderna 
 um vector de alargamento do individualismo; diversificando as possibilidades de escolha, liquefazendo os marcos de refe rncia, minando os sentidos nicos e os 
valores superiores da modernidade, modela uma cultura personalizada ou por medida, permitindo ao tomo social emancipar-se das balizas disciplinares revolucionrias.
No entanto, no  verdade que estejamos entregues  errncia do sentido, a uma deslegitimao total; na poca ps-moderna perdura um valor principal, intangvel, 
indiscutido atravs das suas mltiplas manifestaes: o indivduo e o seu direito cada vez mais proclamado de se realizar  parte, de ser livre,  medida que as 
tcnicas de controlo social passam a aplicar dispo sitivos mais sofisticados e "humanos". Se, portanto, o processo de personalizao introduz de facto uma clescontinuidade 
na trama histrica, continua, contudo, a prosseguir por outras vias a obra que, atravessando os sculos,  a da modernidade democrtica Ruptura aqui, continuidade 
ali, a noo de sociedade ps-moderna no diz coisa diferente: uma fase chega ao fim, uma nova fase aparece, ligada por fios mais complexos do que  primeira vista 
pode parecer, s nossas origens polticas e ideolgicas.
Se  necessrio recorrer ao esquema do processo de personalizao, isso no se deve unicamente s novas tecnologias suaves de controlo, mas tam bm aos efeitos deste 
processo sobre o prprio indivduo. Com o processo de personalizao, o individualismo sofre um aggiornamento que designamos aqui, na esteira dos socilogos americanos, 
como narcsico: o narcisismo, consequncia e manifestao miniaturizada do processo de personalizao, smbolo da passagem do individualismo "limitado" ao individualismo 
"total", smbolo da segunda revoluo individualista. Que outra imagem pode signi ficar to bem a emergncia desta forma de individualidade com a sua sensibilidade 
psicolgica, desestabilizada e tolerante, centrada sobre a realizao emocional de si prprio, vida de juventude, de desportos, de ritmo, menos empenhada em triunfar 
na vida do que ein realizar-se de modo contnuo na esfera ntima? Que outra imagem  capaz de sugerir com a mesma fora o formidvel surto individualista induzido 
pelo processo de personalizao? Que outra imagem permite ilustrar melhor a nossa situao presente em que o fenmeno social decisivo j no  a pertena e o antagonismo 
de classe,







CAPtTULO 1
Seduo non stop
Como designar esta vaga de fundo caracterstica do nosso tempo, que, por todo o lado, substitui a coero pela comunicao, o interdito pela fruio, o annimo pelo 
feito por medida, a reificao pela responsabilizao, e que, por todo o lado, tende a instituir um clima de proximidade, de ritmo e de solicitude liberta do registo 
da Lei? Msica, informao vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, gentil organizador, SOS, amizade. Mesmo a polcia tende a humanizar a sua imagem de marca, 
abre as portas das es quadras, explica-se perante a populao, enquanto o exrcito se entrega a tarefas civis. "Os camionistas so simpticos", porque o no seria 
a tropa? A sociedade ps-industrial foi definida como sendo uma sociedade de servios, mas, mais directamente ainda,  o auto-servio que pulveriza por inteiro o 
antigo quadriculado disciplinar, fazendo-o, no atravs das foras da Revo luo, mas das ondas radiosas da seduo. Longe de se circunscrever s re laes interpessoais, 
a seduo tornou-se o processo geral que tende a regu lar o consumo, as organizaes, ,.a informao, a educao, os costumes. To da a vida das sociedades contemporneas 
 doravante governada por uma nova estratgia que destrona o primado das relaes de produo em provei to de uma apoteose das relaes de seduo.
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Seduo a lista
Com a categoria de espectculo, os situacionistas anunciavam de algum modo esta generalizao da seduo, embora com uma reserva,  verdade, na medida em que o espectculo 
designava a "ocupao da parte principal do tempo vivido no exterior da produo moderna" (G. Debord). Libertan do-se do ghetto da superestrutura e da ideologia, 
a seduo tornava-se relao social dominante, princpio de organizao global das sociedades da abundncia. Todavia, esta promoo da seduo, assimilada  poca 
do consumo, depressa revelava os seus limites, consistindo a aco do espect culo em transformar o real em representao falsa, em alargar a esfera da alienao 
e do desapossamento. "Nova fora de engano", "ideologia materia lizada", "impostura da satisfao", o espectculo, a despeito ou por obra da sua radicalidade, no 
se desembaraava das categorias prprias da era revo lucionria (a alienao e o seu outro, o homem total, "senhor sem escravo"), ento precisamente em vias de desaparecer 
em surdina sob o efeito do reino alargado da mercadoria. Seduzir, enganar por meio do jogo das aparncias
- o pensamento revolucionrio, mesmo quando atento ao novo, continuava a ter que localizar uma seduo negativa para levar a cabo a sua inverso:
tributria do tempo revolucionrio-disciplinar, a teoria do espectculo recon duzia a verso eterna da seduo, a astcia, a mistificao e a alienao das conscincias.
Sem dvida, temos que partir do mundo do consumo. Com a profuso luxuriante' dos seus produtos, imagens e servios, com o hedonismo que in duz, com o seu clima eufrico 
de tentao e proximidade, a sociedade de consumo revela at  evidncia a amplitude da estratgia da seduo. Esta no se reduz, no entanto, ao espectculo da acumulao; 
mais exactamente, identifica-se com a ultra-simplificao das opes que a abundncia torna possveis, com a latitude dos indivduos mergulhados num universo transpa 
rente, aberto, oferecendo um nmero cada vez maior de escolhas e combina es por medida, permitindo uma circulao e uma seleco livres. E esta mos apenas no comeo, 
esta lgica alargar-se- inelutavelmente  medida que as tecnologias e o mercado puserem  disposio do pblico uma diver sificao cada vez mais vasta de bens 
e de servios. Actualmente, a TV por cabo oferece em certos pontos dos Estados-Unidos a escolha entre oitenta canais especializados, em contar com os programas "a 
pedido"; calcula-se em cerca de cento e cinquenta o nmero de canais por cabo necessrios 
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satisfao das exigncias do pblico dentro de seis ou sete anos. J hoje, o self-service, a existncia  lista, designam o modelo geral da vida nas socie dades 
contemporneas que vem proliferar de modo vertiginoso as fontes de informao, o leque dos produtos expostos nos centros comerciais e hiper- mercados tentaculareS, 
nos armazns ou restaurantes especializados.  assim a sociedade ps-moderfla caracterizada por uma tendncia global no sentido de reduz as relaes autoritrias 
e dirigistas e simultaneamente de aumen tar a gama das opes privadas, privilegiar a diversidade, oferecer frmulas de "programas independentes", nos desportos, 
nas tecnologias psi, no turismo, na descontraco da moda, nas relaes humanas e sexuais. A seduo nada tem a ver com a representao falsa e com a alienao das 
conscincias;  ela que configura o nosso mundo e o remodela segundo um processo sistemtico de personalizao cuja obra consiste essencialmente em multiplicar e 
diversificar a oferta, em propor mais para que ns decidamos mais, em substituir a coaco uniforme pela livre escolha, a homogeneidade pela pluralidade, a austeridade 
pela realizao dos desejos. A seduo remete para o nosso universo de gamas opcionais, de seces de produtos exticos, de am biente psi, musical e informacional, 
no qual cada um pode  vontade compor a lista dos elementos da sua existncia. A independncia  um trao de carcter,  tambm uma maneira de viajar segundo um 
ritmo seu, de acordo com os seus prprios desejos; construa a "sua" viagem. Os itinerrios pro postos nos nossos Globe-Trotters so apenas sugestes que podem ser 
combinadas, mas tambm modificadas tendo em conta a sua vontade". Este anncio diz a verdade da sociedade ps-moderfla sociedade aberta, plural, levando em conta 
os desejos dos indivduos e aumentando a sua liberdade combinatria. A vida sem imperativo categrico, a vida kit modulada em funo das motivaes individuais, 
a vida flexvel da poca das combinaes, das opes, das frmulas independentes tornadas possveis por uma oferta infinita -  assim que opera a seduo. Seduo 
no sentido em que o processo de personalizao reduz os quadros rgidos e coercivos, funciona suavemente jogando a cartada da pessoa individual, do seu bem-estar, 
da sua liberdade, do seu interesse prprio.
O processo de personalizao comea a reordenar at a ordem da produ o, muito timidamente ainda, e devemos deix-lo dito aqui. E sem dvida o mundo do trabalho 
que oferece a resistncia mais tenaz  lgica da sedu o, a despeito das revolues tecnolgicas em curso. A tendncia para a personalizao, no entanto, tambm 
aqui se manifesta. Em A Multido Soli
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tria, Riesman j a observava, mostrando como a cordialidade imposta, a personalizao das relaes de trabalho e dos servios se substituiam pouco a pouco ao enquadramento 
funcional e mecnico da disciplina. Mais ainda, assistimos  multiplicao dos tcnicos da comunicao e dos psicoterapeu tas de empresa. Abatem-se as paredes que 
separam os escritrios, o trabalho  feito em espaos abertos; a concentrao e a participao so solicitadas por todos o lados. Fazem-se aqui e ali tentativas, 
muitas vezes apenas a ttulo experimental, de humanizao e de reorganizao do trabalho manual: alargamento das tarefas, job enriczment, grupos autnomos de trabalho. 
A futura tecnologia electrnica, o nmero crescente de empregos de in formao permitem imaginar alguns cenrios futuros: desconcentrao das empresas, desenvolvimento 
do trabalho a domiclio, "casa electrnica". J hoje assistimos  flexibilizao do tempo de trabalho: horrios mveis ou  escolha, trabalho intermitente. Para 
alm das caractersticas especficas des tes dispositivos, desenha-se uma mesma tendncia, que define o processo de personalizao: reduzir a rigidez das organizaes, 
substituir os modelos uniformes e pesados por dispositivos flexveis, privilegiar a comunicao em relao  coero.
O processo conquista novos sectores e conhecer uma extenso que nos  ainda difcil imaginar com as novas tecnologias com base no microprocessa dor e dos circuitos 
integrados. Eis o que actualmente se verifica j no ensi no: trabalho independente, sistemas opcionais, programas individuais de tra balho e de auto-apoio por micro-computador; 
dentro de um prazo mais ou menos curto, haver o dilogo com o teclado, a auto-avaliao, a manipula o pessoal da informao. Os media esto em vias de experimentar 
uma reorganizao que aponta no mesmo sentido; para alm das redes por cabo, as rdios livres, os sistemas "interactivos": a exploso do vdeo, o gravador, as video-cassertes, 
personalizando o acesso  informao, s imagens. Os conjuntos de vdeo e os milhares de frmulas que proporcionam alargam e privatizam em grande escala as possibilidades 
ldicas e interactivas (prev-se que um lar americano em cada quatro esteja dentro de pouco tempo equipa do com conjuntos de vdeo). A micro-informtica e a galxia 
vdeo designam a nova vaga da seduo, o novo vector de acelerao da individualizao dos seres, aps a idade herica do automvel, do cinema, do electrodomstico. 
"My computer likes me': no nos enganemos, a seduo videomtica no se refere apenas  magia das performances das novas tecnologias; enraza-se profundamente no 
aumento da autonomia individual esperada, na possibili-
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dade para cada indivduo de ser um livre agente do seu tempo, menos pre gado s normas das organizaes pesadas. A seduo em curso  uma seduo privtica.
Todas as esferas so actualmente anexadas, cada vez mais depressa, por um processo de personalizao multiforme. Na ordem psicoteraputica, sur giram novas tcnicas 
(anlise transaccional, grito primal, bioenergia) que exacerbam a personalizao psicanaltica considerada demasiado "intelectua lista"; prioridade dada aos tratamentos 
rpidos, s terapias "humanistas" de grupo,  libertao directa do sentimento, das emoes, das energias corpo rais: a seduo investe todos os plos, do software 
 descarga "primitiva". A medicina sofre uma evoluo paralela: acupunctura, visualizao do corpo interno, tratamento natural por meio de ervas, biofeedback, homeopatia, 
as terapias "suaves" conquistam terreno, advogando a subjectivizao da doena, a gesto "holstica" da sade pelo prprio indivduo, a explorao mental do corpo 
em ruptura com o dirigismo hospitalar; o doente j no deve conti nuar a sofrer passivamente o seu estado,  responsvel pela sua sade, pelos seus sistemas de defesa, 
graas s potencialidades da autonomia psquica. Simultaneamente, o desporto assiste  proliferao das prticas livres de cro nmetro, de confronto, de competio, 
e que privilegiam o treino livremente escolhido, a sensao de planar, a audio do corpo (jogging, windsurf, ginstica suave, etc.); o desporto  reciclado atravs 
da psicologizao do corpo, da total tomada de conscincia de si, do livre curso aberto  paixo dos ritmos individuais.
Os costumes inclinam-se tambm no sentido da lgica da personalizao. O gosto do tempo privilegia a diferena, a fantasia, a descontraco; a es tandardizao e 
a rigidez j no tm boa reputao. O culto da espontanei dade e a cultura psi estimulam o indivduo a ser "mais" ele prprio, a "sen tir", a analisar-se, a libertar-se 
dos papis e "complexos". A cultura ps- moderna  a do feeiing e da emancipao individual alargada a todos os grupos de idade e sexo. A educao, de autoritria 
que era, tornou-se alta mente permissiva, atenta aos desejos das crianas e dos adolescentes, en quanto que, por todos os lados, a vaga hedonista desculpabiliza 
o tempo li vre, encoraja cada um a realizar-se sem constrangimentos e a aumentar os seus cios. A seduo: uma lgica que abre caminho, que nada poupa e que, deste 
modo, realiza uma socializao flexvel, tolerante, empenhada na personalizao-psicologizao do indivduo.
A seduo repercute-se na linguagem. J no h surdos, cegos, coxos; es-
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tamos no tempo dos que ouvem mal, dos invisuais, dos deficientes; os velhos tornaram-se pessoas da terceira ou da quarta idade; as criadas, empregadas domsticas; 
os proletrios, parceiros sociais; as mes solteiras, mes celibatrias. Os cbulas so crianas com problemas ou casos sociais, o aborto  uma interrupo voluntria 
da gravidez. At os analisados so analisandos. O processo de personalizao asseptiza o vocabulrio como o corao das cidades, os centros comerciais e a morte. 
Tudo o que exibe uma conotao de inferioridade, de deformidade, de passividade, de agressividade, deve desa parecer em proveito de uma linguagem difana, neutra 
e objectiva - tal  o ltimo estdio das sociedades individualistas. Paralelamente s organizaes flexveis e abertas organiza-se uma linguagem eufemstica e lenitiva, 
um lifting semntico conforme ao processo de personalizao centrado no desen volvimento, no respeito e na tolerncia relativamente s diferenas individuais. "Sou 
um ser humano. No dobrar, estragar ou deformar". A seduo liquida numa mesma vaga as regras disciplinares e as ltimas reminiscncias do mundo do sangue e da crueldade. 
Tudo deve comunicar sem resistncia, sem relegao, num hiper-espao fluido e acsmico, na esteira das telas e cartazes de Folon.
Se o processo de personalizao  inseparvel de uma esterilizao acon dicionada do espao pblico e da linguagem, de uma seduo irreal  ma neira das vozes adocicadas 
das hospedeiras dos aeroportos,  igualmente in separvel de uma animao rtmica da vida privada. Vivemos uma formid vel exploso musical: msica ininterrupta, 
hit-parade, a seduo ps-moder na  hi-fi. Doravante, a aparelhagem sonora  um bem de primeira necessi dade; faz-se desporto, deambula-se, trabalha-se, sempre 
no meio de msica; anda-se de automvel em estreo, a msica e o ritmo tornaram-se, no espao de algumas dcadas, um ambiente quase permanente, um engodo de massa. 
Para o homem disciplinar-autoritrio, a msica circunscrevia-se a lugares e momentos especficos, concerto, dancing, music-haii, baile, rdio; o indivduo ps-moderno, 
pelo contrrio, est ligado  msica de manh  noite; tudo se passa como se tivesse necessidade de estar sempre noutro lugar, de ser transportado e envolvido por 
uma atmosfera ambiente sincopada; tudo se passa como se precisasse de uma desrealizao estimulante, eufrica ou inebriante do mundo. Revoluo musical ligada, sem 
dvida, s inovaes tecuolgicas, ao imprio da ordem mercantil, do show-business, mas que nem por isso manifesta menos o processo de personalizao, uma das faces 
da transformao ps-moderna do individuo. Da mesma maneira que as ins-
A Era do Vazio
tituies se tornam flexveis e mveis, o indivduo torna-se cintico, aspira ao ritmo, a uma participao de todo o corpo e de todos os sentidos, participa o 
hoje possvel atravs da estereofonia, do waikman, dos sons csmicos ou parox'Isticos das msicas da idade electrnica.  personalizao por medida da sociedade 
corresponde uma personalizao do indivduo, que se traduz no desejo de sentir "mais", de planar, de vibrar em directo, de experimentar sensaes imediatas, de ser 
posto integralmente em movimento numa espcie de trip sensorial e pulsional. As realizaes tcnicas da estereofonia, os sons elctricos, a cultura do ritmo inaugurada 
pelo jazz e prolongada pelo rock, permitiram  msica tornar-se esse inedium privilegiado do nosso tempo, porque em consonncia estreita com o novo perfil do indivduo 
personaliza do, narcsico, sedento de imerso instantnea, sedento de "descarregar" no apenas ao ritmo dos ltimos xitos, mas das mais diversas espcies de msi 
ca, das variedades mais sofisticadas, actualmente postas  sua constante dis posio.
A seduo ps-moderna no  um ersatz de comunicao ausente nem um cenrio destinado a ocultar a abjeco das relaes mercantis. Seria v- la de novo como um consumo 
de objectos e de signos artificiais, reinjectar o logro onde exjste, antes do mais, uma operao sistemtica de personaliza o, ou, por outras palavras, uma atomizao 
do social ou uma extenso em abismo da lgica individualista. Fazer da seduo uma "representao ilus ria do no-vivido" (Debord)  reconduzir o imaginrio das 
pseudo des, a oposio moral entre o real e a aparncias um real objectivo ao abrigo da seduo, quando esta se define, sobretudo, como processo de transforma o 
do real e do indivduo. Longe de ser um agente de mistificao e de pas sividade, a seduo  destruio cool do social atravs de um processo de isolamento, que 
j no surge administrado pela fora bruta ou pelo quadri culado regulamentar, mas atravs cio hedonismo, da informao e da res ponsabilizao. Com o reino dos 
media, dos objectos e do sexo, cada indiv duo se observa, se testa, se vira mais para si prprio  espreita da sua pr pria verdade e do seu bem-estar, tornando-se 
responsvel pela sua vida, de vendo gerir o melhor possvel o seu capital est&ico, afectivo, fisico, libidinal, etc. Aqui, socializao e essocializao identificam-se; 
no centro do deserto social ergue-se o indivduo soberano, informado, livre, prudente administra dor da sua vida: ao volante, cada um aperta o seu prprio cinto 
de seguran a. Fase ps-moderna da socializao, o processo de personalizao  um novo tipo de controlo social desembaraado dos processos pesados de massi
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ficao-reificao-represso. A integrao realiza-se por meio da persuaso, invocando a sade, a segurana e a racionalidade: anncios e sensibilizaes mdicas, 
mas tambm conselhos das associaes de consumidores. Dentro em breve, o vdeotex passar a apresentar "rvores de deciso", sistemas de pergunta-resposta permitindo 
ao consumidor dar a conhecer ao computador os seus prprios critrios a fim de efectuar uma escolha racional e, ao mes mo tempo, porm, persoializada. A seduo 
deixou de ser libertina.
Sem dvida, nem tudo isto data de agora. Foi j h sculos que as socie dades modernas inventaram a ideologia do indivduo livre, autnomo e se melhante aos outros. 
Paralelamente, ou com inevitveis desfasamentos hist ricos, edificou-se uma economia livre baseada no empresrio independente e no mercado, ao mesmo tempo que se 
instalaram regimes polticos democr ticos. Neste quadro,. no que se refere  vida quotidiana, ao modo de vida,  sexualidade, o individualismo viu-se, at uma data 
recente, contido na sua expanso por estruturas ideolgicas rgidas, instituies, costumes ainda tra dicionais ou disciplinares-autoritrios. E esta ltima fronteira 
que se desfaz ante os nossos olhos a uma velocidade prodigiosa. O processo de personali zao impulsionado pela acelerao das tcnicas, pela gesto, pelo consumo 
de massa, pelos media, pelos desenvolvimentos da ideologia individualista, pelo psicologismo, leva ao seu ponto culminante o reino do indivduo, faz explodir as 
ltimas barreiras. A sociedade ps-moderna ou, por outras pa lavras, a sociedade que generaliza o processo de personalizao em ruptura com a organizao moderna 
disciplinar-coerciva, realiza de algum modo, no interior do quotidiano e atravs de novas estratgias, o ideal moderno da au tonomia individual, ainda que esta se 
revele, at  evidncia, de um teor indito.
Os discretos encantos da poltica
O mundo poltico no se mantm  margem da seduo. A comear pela personalizao imposta da imagem dos dirigentes ocidentais: simplicidade ostensiva, o homem poltico 
surge de jeans ou puli-over, reconhece humilde mente os seus limites e fraquezas, faz entrar em cena a famlia, o seu bole tim de sade, a sua juventude. Em Frana, 
Giscard, na esteira de Kennedy ou de P. -E. Trudeau, foi o smbolo autntico desta humanizao psicologizao do poder: um presidente  "escala humana", que declara 
no
A Era do Vazio
querer sacrificar a sua vida privada, toma o pequeno com os homens dos servios de limpeza, janta fora com esta ou aquela famlia francesa. No nos iludamos: o desenvolvimento 
dos novos media, da televiso em particu lar, por capital que seja nesta questo, no pode explicar tio fundamental esta promoo da personalidades esta necessidade 
de confeccionar semelhan te imagem de marca. A poltica personalizada corresponde  emergncia desses novos valores que so a cordialidade, as confidncias ntimas, 
a proxi midade, a autenticidade, a personalidades valores individualistas de mo cos por excelncia, difundidos em larga escala pelo consumo de massa. A se duo: 
filha do individualismo hedonista e psi, muito mais do que do ma quiavelismo poltico. Perverso das democracias, jntoxicao, manipulao do eleitorado por um espectculo 
de iluses? Sim e no, porque se  exacto que existe realmente um marketing poltico programado e cnico,  igual mente correcto dizer que as vedetas polticas no 
fazem seno adaptar-se ao habitus ps-moderno do homo democraticus, com uma sociedade j personalizada desejosa de contacto humano, refractria ao anonimato, s 
lies pedaggicas abstractas,  linguagem estereotipada, aos papis distantes e con vencionais. Quanto ao impacto real do design da personalizao, poderemos perguntar-nos 
se no ser este consideravelmellte sobrevalorizado pelos publicistas e pelos polticos 1, eles prprios amplamente seduzidos pelos meca nismos de seduo do star 
systetn: na medida em que actualmente todas as cabeas de cartaz se submetem mais ou menos  mesma lgica, o seu efeito anula-se por difuso e saturao meditica; 
a seduo surge como uma atmosfera soft, imperativa e sem surpresas, que distrai epidermicamente um pblico que est muito longe de ser to ingnuo e passivo como 
imaginam os actuais detractores do "espectculo".
Mais significativa ainda no que se refere  seduo  a tendncia que as democracias hoje revelam para jogarem a cartada da descentralizao. De pois da unificao 
nacional e da supremacia das administraes centrais, o recente poder dos conselhos regionais e de eleio local, as polticas culturais regionais. A poca  a do 
desprendimento do Estado, das iniciativas locais e regionais, do reconhecimento dos particularismos e identidades territoriais; a nova distribuio do jogo da seduo 
democrtica humaniza a nao, ventila os poderes, aproxima as instncias de deciso dos cidados, redistribui uma dignidade s periferias. O Estado nacional-jacobino 
esboa uma reconverso
1 R.G. wartzenbCtg, L'tat spectacle FlammariOfl, 1971.
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centrfuga destinada a reduzir a rigidez das burocracias, reavalia o "pas", promove de certo modo uma democracia do contacto, da proximidade, atra vs de uma reterritorializao-p
ersonalizao regionalista. Simultaneamente, organiza-se uma poltica do patrimnio que se inscreve na mesma linha que a da descentralizao ou da ecologia: deixar 
de devastar, de desenraizar ou de inferiorizar, para proteger e valorizar as riquezas regionais, memoriais ou naturais. A nova poltica museogrfica tem como correspondente 
a poltica de regionalismo administrativo e cultural, aplicando-se a desenvolver do mesmo modo foras e entidades excentradas, montando um mesmo disposi tivo de 
dilogo entre presente e passado, entre populao e torro natal. No se trata de um efeito de nostalgia de uma sociedade devastada pela conquis ta do futuro, e 
ainda menos de um show media-poltico; mais obscuramente, mas mais profundamente, trata-se de uma personalizao do presente atra vs da salvaguarda do passado, 
de uma humanizao dos objectos e monu mentos antigos anloga  das instituies pblicas e das relaes interindivi duais. De modo nenhum imposto do exterior, de 
modo nenhum conjuntural, este interesse museogrfico encontra-se em consonncia com a sensibilidade ps-moderna em busca de identidade e de comunicao, nada apaixonada 
pelo futuro histrico, acabrunhada com a ideia de destruies irreversveis. Aniquilar os vestgios  como devastar a natureza; uma mesma repulsa se apodera dos 
nossos espritos hoje curiosamente inclinados a dotarem de al ma, a psicologizarem toda a realidade, homens, pedras, plantas, meio am biente. O efeito patrimnio 
 indissocivel da suavizao dos costumes, do crescente sentimento de respeito e de tolerncia, de uma psicologizao sem limites.
A autogesto cujo projecto consiste em suprimir as relaes burocrticas de poder, em fazer de cada indivduo um sujeito poltico autnomo, repre senta um outro 
aspecto da seduo. Abolio da separao dirigente- executante, descentralizao e disseminao do poder,   liquidao da mecnica do poder clssico e da sua 
ordem linear que se aplica a autogesto, sistema ciberntico de distribuio e de circulao da informao. A auto- gesto  a mobilizao e o tratamento optimizado 
de todas as fontes de informao, a instituio de um banco de dados universal, relativamento ao qual cada um  ao mesmo tempo e a todo o momento emissor e receptor 
-  a informatizao poltica da sociedade. Doravante, torna-se necessrio vencer a entropia constitutiva das organizaes burocrticas, reduzir os blo queamentos 
da informao, os segredos e desafeces. A seduo no fun
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ciona graas ao mistrio, mas graas  informao, ao feed-back  ilumina o sem resduos do social,  maneira de um strip-teaSe integral e generali zado. Nestas 
condies, no  surpreendente que numerosas correntes ecol gicas adoptem no seu programa a autogesto. Rejeitando a predominncia da espcie humana e a unilateralidade 
da relao entre o homem e a natureza, que conduzem  poluio e  expanso cega, a ecologia substitui  mec nica pesada do crescimento a regulao ciberntica, 
a omunicao, ofeed back, deixando a natureza de ser um tesouro a pilhar, uma fora a explorar, para se converter num interlocutor a ouvir e a respeitar. Solidariedade 
das espcies vivas, proteco e sade do meio ambiente, toda a ecologia repousa num processo de personalizao da natureza, no tomar em onsiderao essa unidade 
insubstituvel, no finita, ainda que planetria que  a natureza. Correlativamente,  no sentido da responsabilizao do homem que a ecologia trabalha, alargando 
o campo dos deveres, do social ao plane trio: se a ecologia se esfora efectivamente por travar e deter o processo ili mitado da expanso econmica, contribui, 
em contrapartida, para uma ex panso do sujeito. Recusando o modelo produtivista a ecologia aspira a uma mutao tecnolgica,  utilizao de tcnicas suaves, no 
poluentes e, para os mais radicais, a uma reconverso total dos mtodos e unidades de trabalho: reimplantao e dissemiflao das unidades industriais e da po pulao, 
pequenas oficinas autogeridas, integradas em comunidades  escala humana, de dimenses reduzidas. A cosmogoflia ecolgica no conseguiu es capar aos encantos do 
humanismo. Reduo das relaes hierrquicas e da temperatura histrica, persoflalizao crescimento do sujeito, a seduo des dobra a sua panplia cobrindo at 
os espaos verdes da natureza.
O prprio PCF no quer ficar para trs e apanha o comboio em anda mento abandonando a ditadura do proletariado' ltimo dispositivo sangrento da poca revolucionria 
e da teleologia da histria. A seduo abole a Revo luo e o emprego da fora, destri as grandes finalidades histricas, mas tambm emancipa o Partido do autoritarismo 
estaliniaflo e da sua sujeio ao grande Centro; a partir daqui, o PCF pode comear a admoestar timida- mente Moscovo e a "tolerar" as crticas dos seus intelectuais 
sem praticar purgas nem excluses. A luta final no ter lugar: grande operadora de snteseS, de unidade, a seduo, na esteira de Eros, actua por ligao, coe so 
e aproximao. O engate por meio de estatsticas, o compromisso hist rico, a Unio do povo de Frana substituem a guerra de classes. Quer flirtar comigo? S a Revoluo 
fascinas porque se coloca do lado de Thanatos, da
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Guies Lipovetskv
descontinuidade, do desligamento. A seduo, essa, rompeu todos os laos que a uniam ainda, no dispositivo donjuanesco,  morte,  subverso. Sem dvida, o PCF continua 
a ser na sua ideologia e na sua organizao o parti do menos inclinado a ceder s piscadelas de olho da seduo, o partido mais rtro, o mais preso ao moralismo, 
ao centralismo, ao burocratismo, e  mes mo essa rigidez congnita que, em parte, est na origem dos retumbantes fracassos eleitorais que sabemos, Mas, por outro 
lado, o PCF apresenta-se como um partido dinmico e responsvel, identificandose cada vez mais com um organismo de gesto sem misso histrica, tendo adoptado, por 
sua vez, aps prolongadas hesitaes, os vectores-chave da seduo management, inquritos atravs de sondagens, reciclagens regulares, etc., incluindo a ar quitectura 
da sua sede, prdio de vidro sem segredo, montra iluminada pe las luzes das metamorfoses "in do aparelho. Formao de compromisso en tre a seduo e a era passada 
da revoluo, o PC joga duas cartadas ao mes mo tempo, condenando-se obstinadamente ao papel de sedutor envergonha do e infeliz, O mesmo perfil se encontra no marxismo 
deles, para falarmos aqui  maneira de Lenine. Por exemplo, a voga do althusserianismo: rigor e austeridade do conceito, anti-humanismo terico, o marxismo faz sua 
uma imagem de marca dura, sem concesses, nos atpodas da seduo. Mas em penhando-se na via da articulao dos conceitos, o marxismo entra simulta neamente na sua 
fase de desarmamento: o seu objectivo j no  a formao revolucionria de uma conscincia de classe unificada e disciplinada, mas a formao de uma conscincia 
epistemolgica. A seduo triste do marxismo envergou o fato completo dos homens de "cincia".
Sexduo
Em torno da inflao ertica actual e da pornografia, uma espcie de de nncia unnime reconcilia as feministas, os moralistas, os estetas, escandali zados pelo 
aviltamento do ser humano reduzido  categoria de objecto e pelo sexo-mquina que faz desaparecer as relaes de seduo num deboche re petitivo e sem mistrio. 
Mas se o essencial no estivesse a - se a pornogra fia no fosse afinal seno mais uma figura da seduo? Que faz a pornogra fia, com efeito, seno suspender a 
ordem arcaica da Lei e do Interdito, abo lir a ordem coerciva da Censura e do recalcamento em benefcio de um ver- tudo, fazer-tudo, dizer-tudo, que define exactamente 
o trabalho da seduo?
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 ainda o ponto de vista moral que reduz a ponografia  reificao e  or dem industrial ou serial do sexo: aqui tudo  permitido,  preciso ir cada vez mais longe, 
procurar dispositivos inditos, novas combinaes numa livre disposio do corpo, numa livre empresa do sexo que faz do pomo, contra riamente ao que dizem os seus 
detractores, um agente de desestandartizao e de subjectivizao do sexo e pelo sexo,  semelhana dos movimentos de li bertao sexual. Diversificao libidinal, 
constelao de "pequenos anncios" singulares: depois da economia, da educao, da poltica, a seduo anexa o sexo e o corpo de acordo com o mesmo imperativo de 
personalizao do in divduo. Na hora do self-service libidinal, o corpo e o sexo tornam-se instru mentos de subjectivizao-responsabilizao;  preciso acumular 
as experin cias, explorar o capital libidinal pessoal, inovar em matria de combinaes. Tudo o que se parea com a imobilidade, com a estabilidade tem que desa 
parecer em proveito da experimentao e da iniciativa. Assim se produz um sujeito j no atravs da disciplina, mas da personalizao do corpo sob a gide do sexo. 
O seu corpo  voc, o corpo deve ser cuidado, amado, exibi do; j nada tem a ver com a mquina. A seduo alarga o ser-sujeito atri buindo ao corpo outrora oculto 
uma dignidade e uma integridade novas: nu dismo, seios nus, so os sintomas espectaculares desta mutao atravs da qual o corpo se torna pessoa a respeitar, a acarinhar 
ao calor do sol, O jerk  um outro sintoma desta emancipao: se, com o rock ou o twist, o corpo estava ainda submetido a certas regras, com o jerk caem todas as 
imposies das figuras codificadas, o corpo j s tem que se exprimir, tornando-se, na esteira do Inconsciente, linguagem singular. Nas pistas dos night-clubs, gra 
vitam sujeitos autnomos, seres activos, j ningum convida ningum, as ra parigas j no fazem "renda" e os "tipos" j no monopolizam a iniciativa. Ficam apenas 
mnadas silenciosas cujas trajectrias aleatrias se cruzam nu ma dinmica de grupo aaimada pelo feitio do som.
Que se passa quando o sexo se torna poltico, quando as relaes sexuais se traduzem em relaes de foras, em relaes de poder? Denunciando a mulher-mercadoria, 
chamando  mobilizao de massa em torno de um "programa comum", constituindo-se em movimento especfico que exclui os homens, o neo-feminismo no introduzir uma 
linha dura, maniquesta, e por isso irredutvel ao processo de seduo? No , de resto, assim que os movimentos feministas se apresentam? No entanto, algo de mais 
fundamen tal se encontra em jogo: assim, atravs do combate pelo aborto livre e gra tuito,  o direito  autonomia e  responsabilidade em matria de procriao
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Guies Lipovetsky A Era do Vazio
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que se visa; trata-se de retirar a mulher do seu estatuto de passividade e de resignao relativamente ao carcter aleatrio da procriao. Dispor de si, escolher, 
deixar para trs a mquina reprodutora e o destino biolgico e so cial - o neo-feminismo  tambm uma das figuras do processo de personali zao. Com as recentes 
campanhas contra a violao, surgiu uma publicida de indita em torno de um fenmeno outrora mantido em segredo e na ver gonha, como se nada devesse continuar oculto, 
obedecendo ao imperativo de transparncia e de ilui sistemtica do presente que governa as nossas sociedades. Por meio desta reduo das sombras e das obscuri o 
movi mento de libertao das mulheres, seja qual for o seu radicalismo, faz parte integrante do strip -tease generalizado dos tempos modernos. Informao, co municao, 
tais so os caminhos da seduo. Empenhado, por outro lado, em no dissociar o nvel poltico do psicanaltico, o neo-feminismo vecula uma vontade explcita de 
psicologizao, como mostram os pequenos grupos chamados de self-heip ou de tomada de conscincia, em que as mulheres se escutam, se analisam, falam procurando descobrir 
os seus desejos e os seus corpos.  o "vivido" que doravante vem em primeiro lugar: preveno com o terico, com o conceptual, que so o poder, a mquina imperial 
masculina.
"Comisses de experincias pessoais": a emancipao, a busca de uma iden tidade prpria passa pela expresso e pelo confronto das experincias exis tenciais.
Igualmente caracterstica  a questo do "discurso feminino" em deman da de uma diferena, de uma afirmao independente do referencial mascu lino. Nas suas verses 
mais radicais, trata-se de abandonar a economia do logos, da coerncia discursiva, afirmando o feminino numa auto-de terminao, numa "auto-afeco" (Luce Irigaray) 
desembaraada de todo o centrismo, de todo o falocentrismo enquanto ltima posio panptica do poder. Mais importante do que a reinscrio de um territrio marcado 
 a flutuao deste lugar em si prprio, a impossibilidade de o circunscrever e de o identificar: nunca idntico a si prprio, nunca idntico a nada, "espcie de 
universo em expanso ao qual no  possvel fixar quaisquer limites, mas que no  por to pouco iit, o feminino  plural, todo fluncia, contiguidade e proximidade, 
ignora o "prprio" e, portanto, a posio de su jeito. Nem sequer se trata j de elaborar um outro conceito de feminilidade, que no deixaria de retomar a mquina 
terico-flica e de reintroduzir a
economia do Mesmo e do Um. Para se definir, o hiperfeminismo reivindica o estilo, a sintaxe Outra, "tctil" e fluida, sem sujeito nem objecto. Como no reconhecer 
nesta economia dos fluidos, nesta multiplicidade condutvel, o prprio trabalho da seduo que, por toda a parte, abole o Mesmo, o Centro, a linearidade e procede 
 diluio das formas rgidas e dos "sli dos"? Longe de representar uma involuo, a suspenso da vontade terica no  mais do que um ltimo estdio da racionalidade 
psicolgica; longe de se identificar ao recalcado da histria, o feminino assim definido  um pro duto e uma manifestao da seduo ps-moderna, libertando e desestan 
dartizando, no mesmo movimento, a identidade pessoal e o sexo: "A mulher tem sexos um pouco por toda a parte" Nada mais errado, ento, do que partir em guerra contra 
esta mecnica dos fluidos acusada de restabelecer a imagem arcaica e falocrtica da mulher  o contrrio que  verdade: sex duo generalizada, o neo-feminismo apenas 
exacerba o processo de perso nalizao, organiza uma figura indita do feminino, polimorfa e sexuada, emancipada dos papis e identidades estritas de grupo, em consonncia 
com a instituio da sociedade aberta. Tanto ao nvel terico como militante, o neo-feminismo trabalha para a reciclagem do ser-feminino, valorizando-o sob todas 
as perspectivas: psicolgica, sexual, poltica, lingustica. Trata-se, antes do mais, de responsabilizar e psicologizar a mulher, liquidando uma ltima "parte maldita", 
ou, por outras palavras, de promover a mulher a uma categoria de individualidade plena, adaptada a sistemas democrticos hedonistas incompatveis com seres presos 
a cdigos de socializao arcaicos, feitos de silncio, de submisso casta. de hi misteriosas.
Entendamo-nos bem, esta inflao de anlises e de comunicaes, esta proliferao de grupos de discusso no poro fim ao isolamento da sedu o. Com o feminismo 
passa-se o mesmo que com o psicanalismo: quanto mais se interpreta, mas as energias refluem no sentido do Eu, o inspeccio nam e examinam por todos os lados; quanto 
mais se analisa, mais a interio rizao e a subjectivizao do indivduo ganham em profundidade; quanto mais Inconsciente e quanto mais interpretao, mais se intensifica 
a auto- seduo. Mquina nascisica incomparvel, a interpretao analtica  um agente de personalizao por meio do desejo e, no mesmo acto, um agente de dessocializao, 
de atomizao sistemtica e interminvel, do mesmo mo
Luce Irigaray Cc sexe qui n en es! pus un, d. de Minuit, T977, p. 30.
L. Irigaray, op. cO., p. 28.
2 c, Alzon, Femme mythifi fe,nme mystijie, P1JF, 1978, pp. 25-42.
Guies Lipovetsk
do que os arranjos da seduo. Sob a gide do Inconsciente e do Recalca mento, o indivduo  remetido para si prprio e para o seu reduto libidina em busca da sua 
imagem desmistificada, privado at, nos ltimos avatari lacanianos, da autoridade e da verdade do analista. Silncio, morte do an lista, somos todos analisandos, 
simultaneamente interpretados e intrpret numa circularidade sem portas nem janelas. Don Juan est realmente mo to; uma nova figura, muito mais inquietante, se ergue 
agora, Narciso, subji gado por si prprio na sua cpsula de vidro.
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A desero de massa
CAPITULO II
A indiferena pura
Para nos limitarmos aos sculos XIX e XX, teramos que evocar, citar ao mesmo tempo, o desenraizamento sistemtico das populaes rurais e depois urbanas, os langores 
romnticos, o spleen dandy, Oradour, os genocdios e os etnocdios, Hiroshima com os seus 10 km devastados, os seus 75 000 mortos e os seus 62 000 edifcios destruIdos, 
os milhes de toneladas de bombas lanadas no Vietname e a guerra ecolgica com herbicidas, a escala da do stock mundial de armas nucleares, Phnom Penh varrida pelos 
Khmers vermelhos, as figuras do nihilismo europeu, as personagens mortas-vivas de Beckett, a angstia, a desolao interior de Antonioni, Messidor de A. Tan ner, 
o acidente de Harrisburg, e certamente que a lista se prolongaria para alm de toda a medida se quisssemos inventariar todos os nomes do deser to. Alguma vez se 
ter organizado, edificado, acumula'do tanto e, ao mesmo tempo, alguma vez se ter sentido tanto a paixo do nada, da tbua rasa, do extermnio total? Neste tempo, 
em que as formas do aniquilamento assu mem dimenses planetrias, o deserto, fim e meio da civilizao, designa es sa figura trgica que a modernidade substitui 
 reflexo metafsica sobre o
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nada. O deserto cresce, lemos nele a ameaa absoluta, a potncia do negati vo, o smbolo do trabalho mortfero dos tempos modernos at ao seu termo apocalptico.
Estas formas de aniquilamento, destinadas a reproduzirem-se por um tempo ainda indeterminado, no devem, no entanto, ocultar a presena de um outro deserto, este 
de tipo indito, escapando s categorias nihilistas ou apocalpticas e tanto mais estranho quanto mais ocupa em silncio a existn cia quotidiana, a vossa, a minha, 
no corao das metrpoles contempor neas. Um deserto paradoxal, sem catstrofe, sem trgico nem vertigem, que deixou de se identificar com o nada e com a morte: 
no  verdade que o de serto obrigue  contemplao de crepsculos mrbidos. Consideremos, com efeito, esta imensa vaga de desinvestimento na qual todas as instituies, 
to dos os grandes valores e finalidades que organizaram as pocas anteriores se esvaziam a pouco e pouco da sua substncia - que  isso seno uma deser tificao 
de massa, transformando o corpo social em corpo exangue, em or ganismo desafectado? Intil'querer reduzir a questo s dimenses dos "jo vens": um problema de civilizao 
no se resolve com uma gerao. Quem  poupado ainda por tal mar alta? Aqui, como noutros lugares, o deserto cresce: o saber, o poder, o trabalho, o exrcito, a 
famlia, a Igreja, os parti dos, etc. j globalmente deixaram de funcionar como princpios absolutos e intocveis; em graus diferentes, j ningum lhes d crdito, 
j ningum neles investe seja o que for. Quem acredita ainda no trabalho quando se conhe cem as taxas de absentismo e de turn over( quando o frenesim das frias, 
dos fins de semana, dos tempos livres no pra de aumentar, quando a re forma se torna uma aspirao de massa, ou at um ideal; quem acredita ainda na famlia quando 
as taxas de divrcio no deixam de subir, quando os velhos so corridos para os lares, quando os pais querem continuar "jo vens" e reclamam a assistncia dos psi, 
quando os casais se tornam "livres", qando o aborto, a contracepo, a esterilizao so legalizados; quem acre dita ainda no exrcito quando todos os meios servem 
para obter a passagem  reserva, quando escapar ao servio militar j no  uma vergonha; quem acredita ainda nas virtudes do esforo, da poupana, da conscincia 
profis sional, da autoridade, das sanes? Depois da Igreja, que j no consegue recrutar padres, o sindicalismo experimenta uma queda de influncia anlo ga: em 
Frana, em trinta anos, passmos de 50 por cento de trabalhadores
A Era do Vazio
sindicalizados para 25 por cento. Por toda a parte, a onda de desafeco cres ce, desembaraando as instituies da sua dimenso anterior e simultanea mente do seu 
poder de mobilizao emocional. E, no entanto, o sistema fun ciona, as instituies reproduzem-se e desenvolvem-se, mas em roda livre, no vazio, sem adeso nem sentido, 
cada vez mais controladas pelos "especialis tas", os ltimos sacerdotes, como diria Nietzsche, os nicos que querem ain da injectar sentido e valor onde j nada 
reina para alm de um deserto ap tico. Deste modo, se o sistema em que vivemos se assemelha a essas cpsulas de astronauta, de que fala Roszak,  menos pela racionalidade 
e pela previ sibilidade que o governam do que pelo vazio emocional, pela inconsistncia indiferente em que se efectuam as operaes sociais. E o loft, antes de ser 
a moda de habitao dos entrepostos, poderia bem ser a lei geral que rege a nossa quotidianidade, a saber: a vida nos espaos desafectados.
Apatia new-look
Nada disto deve ser lido no registo das eternas lamentaes sobre a deca dncia ocidental, morte das ideologias e "morte de Deus", O nihilismo euro peu, tal como 
o analisou Nietzsche, enquanto depreciao mrbida de todos os valores superiores e deserto de sentido, j no corresponde a esta desmo bilizao de massa, que no 
 acompanhada por um sentimento de absurdo nem de desespero. Todo feito de indiferena, o deserto ps-moderno encon tra-se to longe do nihilismo "passivo" e do 
seu deleite comprazido na inani dade universal como do nihilismo "activo" e da sua auto-destruio. Deus morreu, as grandes finalidades extinguem-se, mas toda a 
gente se est a li xar para isso, eis a jubilosa nova, eis o limite do diagnstico de Nietzsche a respeito da queda europeia. O vazio do sentido, a derrocada dos 
ideais no levaram, como se poderia esperar, a mais angstia, a mais absurdo, a mais pessimismo. Esta maneira de ver ainda religiosa e trgica  desmentida pelo 
surto da apatia de massa, da qual as categorias de plenitude e decadncia, de afirmao e negao, de sade e doena so incapazes de dar conta. Mesmo o nihilismo 
"incompleto", com os seus sucedneos de ideais laicos, passou, e a nossa bulimia de sensaes, de sexo, de prazer, nada esconde, nada compensa e, sobretudo, no 
esconde nem compensa o abismo de senti do aberto pela morte de Deus. A indiferena e no a infelicidade metafsica. O ideal asctico j no  a figura dominante 
do capitalismo moderno; o con sumo, os tempos livres, a permissividade, j nada tm a ver com as grandes
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1 Ver J. Rousselet, LAliergie au travail. d. du Seuil, coil. "Points-actuels pp. 41-42.
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operaes da medicao sacerdotal: hipnotizao-estivao da vida, crispa o das sensibilidades por meio de actividades maquinais e de estritas obe dincias, intensificao 
das emoes estimuladas pelas noes de pecado e de culpa'. Que resta de tudo isso no momento actual em que o capitalismo funciona  fora de lbido, de criatividade, 
de personalizao? A desenvol tura ps-moderna liquida o cansao, o enquadramento ou o transbordar ni hilista; a descontraco abole a fixao asctica. Desconectar 
o desejo das composies colectivas, fazer circular as energias, temperar os entusiasmos e as indignaes referentes ao social, o sistema convida ao desanuviamento, 
ao desprendimento emocional.
Algumas grandes obras contemporneas, citemos A Mulher Canhota de
P. Handke, Palazzo mentale de G. Lavaudant, India song de M. Duras, Edison de B. Wilson, o hiperrealismo americano, so j, em maior ou me nor medida, reveladores 
deste esprito do tempo, deixando muito para trs a angstia e a nostalgia do sentido, caractersticas do existencialismo ou do teatro do absurdo. O deserto j no 
se traduz pela revolta, o grito ou o desa fio de comunicao; nada para alm de uma indiferena pelo sentido, uma ausncia inelutvel, uma esttica fria da exterioridade 
e da distncia, mas nunca da distanciao. Os quadros hiperrealistas no veiculam qualquer mensagem, no querem dizer nada, mas o seu vazio est nos antpodas da 
carncia de sentido trgica que encontramos em obras anteriores. No h nada a dizer, no importa, tudo pode, por conseguinte, ser pintado com o mesmo apuro, a mesma 
objectividade fria, carroarias brilhantes, reflexos de montras, retratos gigantes, pregas de vesturio, cavalos e vacas, motores ni quelados, cidades panormicas, 
sem inquietao nem denncia. Pela sua in diferena pelo motivo, pelo sentido, pelo fantasma singular, o hiperrealismo torna-se jogo puro que se oferece ao simples 
prazer do trompe-l'oeil e do es pectculo. Resta apenas o trabalho pictrico, o jogo da representao esva Nietzsche, A Genealogia da Moral, terceira dissertao.
2 Em contrapartida, certos fragmentos pstumos de Nietzsche descrevem com grande luci dez os sinais caractersticos do "esprito moderno": a "tolerncia" (por "incapacidade 
para o sim e para o no"); a extenso da simpatia (um tero de indiferena, um tero de curiosidade, um tero de excitabilidade mrbida); a "objectividade" (falta 
de personalidade, falta de vontade, in capacidade para o "amor"); a "liberdade" contra a regra (romantismo); a "verdade" contra a fal sificao e a mentira (naturalismo); 
a "cientificidade" (o "documento humano": em alemo, o folhetim e a adio - substituindo a composio)... " (Primavera - Outono de 1887), in Fr. Nietzsche, Le Nihiisme 
Europ tr. fr. A. Kremer-Marietti, UGE, coil. 10/18, p. 242.
ziada do seu contedo clssico, sendo o real posto fora do circuito pelo em prego de modelos eles prprios representativos, essencialmente fotogrficos. Desinvestimeflto 
do real e circularidade hiperrealista, no topo da sua realiza o, a representao, instituda historicamente como espao humanista, me tamorfoseia-se num dispositivo 
gelado, maqunico, desembaraado da escala humana pelo tamanho aumentado e pela acentuao das formas e das cores:
nem transgredida nem "superada", a ordem da representao , de algum modo, desafectada na prpria perfeio do seu cumprimento.
O que  verdade para a pintura -o igualmente para a vida quotidiana. A oposio do sentido e do no-sentido deixou de ser dilacerante e perde a sua radicalidade 
perante a frivolidade ou a futilidade da moda, dos tempos livres, da publicidade. Na era do espectacular, as antinomias duras, as do verdadeiro e do falso, do belo 
e do feio, do real e da iluso, do sentido e do no-sentido, esbatem-se; os antagonismos tornam-se "flutuantes"; comea-se a compreender, por muito que isso desagrade 
aos nossos metafsicos e anti- metafsicos, que doravante  possvel viver sem finalidade nem sentido, nu ma espcie de sequncia-f/ash, e isso  de facto novo. 
"Qualquer sentido  prefervel  completa ausncia de sentido", dizia Nietzsche; mesmo isto dei xou hoje de ser verdade, a prpria necessidade de sentido foi varrida 
de cena e a existncia indiferente ao sentido pode desdobrar-se sem pattico nem abismo, sem aspirao a novas tbuas de valores; tanto melhor, surgem no vas questes, 
livres dos devaneios nostlgicos e  de desejar que pelo menos a apatia new-look tenha a virtude de desencorajar as loucuras mortferas dos grandes sacerdotes do 
deserto.
A indiferena cresce. Em lado algum o fenmeno  to visvel como no ensino, onde, em poucos anos, com a velocidade de um relmpago, o prest gio e a autoridade 
dos docentes desapareceram quase por completo. Hoje, o discurso do Mestre encontra-se banalizado, dessacralizado, em p de igual dade com o dos media, e o ensino 
 uma mquina neutralizada pela apatia escolar, feita de ateno dispersa e de cepticismo desenvolto ante o saber. Grande desapontamento dos Mestres. E esta desafeco 
do saber que  sig nificativa, muito mais do que o tdio, de resto varivel, dos alunos dos li ceus. Assim, o liceu  menos parecido com uma caserna do que com um 
de serto (ressalvando-se o facto de a caserna ser ela prpria um deserto), onde os jovens vegetam sem grande motivao ou interesse. Portanto, torna-se ne cessrio 
inovar a todo o custo: sempre mais liberalismo, participao, inves tigao pedaggica, e o escndalo est nisso mesmo, porque, quanto mais a
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escola se pe a ouvir os alunos, mais estes desabitam sem rudo nem convul ses esse lugar vazio. Deste modo, as greves do ps-68 desapareceram, a contestao extinguiu-se, 
o liceu  um corpo mumificado e os docentes um corpo fatigado, incapaz de lhe devolver a vida.
 esta mesma apatia que encontramos tambm na rea poltica, onde no  raro ver nos EUA percentagens de absteno de 40 a 45 por cento, mesmo nas eleies presidenciais. 
No se trata, para falar com propriedade, de "despolitizao"; os partidos, as eleies, continuam a "interessar" os ci dados, mas do mesmo modo (e em menor medida, 
alis) que as apostas nas corridas, a meteorologia do fim-de-semana ou os resultados desportivos. A poltica entrou na era do espectacular, liquidando a conscincia 
rigorista e ideolgica em benefcio de uma curiosidade dispersa, captada por nada e por tudo. Da a importncia capital de que se revestem os media de massa aos 
olhos dos polticos; no tendo outro impacto para alm do que a infor mao veicula, a poltica  obrigada a adoptar o estilo da animao, dos de bates personalizados, 
das perguntas-resposta, etc., nico estilo capaz de mo bilizar pontualmente a ateno do eleitorado. A declarao de um ministro no vale mais que o folhetim; passa-se 
sem hierarquia da poltica s "varie dades", sendo a audincia determinada pela qualidade do divertimento. A nossa sociedade no conhece o privilgio, as codificaes 
definitivas, o centro, nada para alm de estimulaes e de opes equivalentes em cadeia. Daqui resulta a indiferena ps-moderna, indiferena por excesso, no por 
defeito, por hiper-solicitao, no por privao. O que  que se mostra ain da capaz de espantar ou escadalizar? A apatia corresponde  pltora de in formaes, 
 sua velocidade de rotao; logo que  registado, o acontecimen to  esquecido, varrido de cena por outros ainda mais espectaculares. Cada vez mais informaes, 
cada vez mais depressa, os acontecimentos so objecto da mesma desafeco que os lugares e as habitaes: nos EUA, desde a Se gunda Guerra Mundial, um indivduo 
em cada cinco muda anualmente de local de residncia, ou seja, 40 milhes de americanos; nem a terra natal, o "home resistiu  vaga de indiferena.
Sem dvida, desde h alguns anos, surgiram novos comportamentos que do testemunho de uma sensibilidade indita: viver e trabalhar na regio torna-se uma reivindicao 
popular; mesmo nos EUA, uma proporo cada vez maior da populao manifesta relutncia em mudar de cidade por razes profissionais; a partir dos anos 70, os problemas 
do ambiente e da natureza sensibilizam uma camada muito mais vasta do que a dos simples militantes;
os media, pelo seu lado, no deixam de pr em destaque a actual redesco berta dos "valores". Seria isso o ps-modernismo, o reinvestimento do regio nal, da natureza, 
do espiritual, do passado. Depois do desenraizamento mo derno, o regionalismo e a ecologia, e mais ainda o "regresso dos valores" que mudam todos os seis meses, 
oscilando entre a religio e a famlia, a tradio e o romantismo, na mesma indiferena geral feita de curiosidade e de tole rncia. Nem todos estes fenmenos ps-modernos 
so da mesma escala ou do mesmo teor; dito isto, todos eles traduzem, cada um a seu nvel, uma transformao significativa relativamente a uma primeira fase de modernis 
mo hot. Estamos numa fase de equilbrio, de qualitativo, de desenvolvimen to da pessoa, de preservao dos patrimnios naturais e culturais. Mas no nos enganemos: 
o regionalismo, a ecologia, o "retorno do sagrado", todos es ses movimentos, longe de se encontrarem em ruptura com ela, limitam-se a rematar a lgica da indiferena. 
Primeiro porque os grandes valores do mo dernismo se encontram esgotados; doravante o progresso, o crescimento, o cosmopolitismo, a velocidade, a mobilidade, e de 
igual maneira a Revolu o, esvaziaram-se do seu contedo. A modernidade, o futuro, j no entu siasmam ningum. Ser em proveito de novos valores? Melhor seria 
dizer que em proveito de uma personalizao e de uma libertao do espao priva do, que arrasta tudo na sua rbita, incluindo os valores transcendentes. O momento 
ps-moderno  muito mais do que uma moda, revela o processo da indiferena pura na medida em que todos os gostos, todos os comporta mentos, podem coabitar sem se 
excluirem, tudo pode ser escolhido conforme o gosto, tanto o mais operatrio como o mais esotrico, tanto o novo como o antigo, a vida simples e ecolgica e a vida 
hiper-sofisticada, num tempo des vitalizado sem referncias estveis, sem coordenadas principais. Para a maioria, as questes pblicas, incluindo a ecologia, tornam-se 
uma atmosfe ra, mobilizam por algum tempo e desaparecem to depressa como aparece ram. O ressurgimento da famlia deixa-nos pelo menos perplexos quando h cada vez 
mais casais que desejam no ter filhos, child-free, e quando uma criana em cada quatro nos centros urbanos americanos  criada apenas por um dos pais. O retorno 
do sagrado  ele prprio arrastado pela celeridade e pela precaridade das existncias individuais entregues apenas a si prprias. A indiferena pura designa a apoteose 
do temporrio e do sincretismo indivi dualista. Pode-se assim ser simultaneamente cosmopolita e regionalista, ra cionalista no trabalho e discpulo intermitente 
de certo guru oriental, viver numa poca permissiva e respeitar, escolhendo-as  lista, as prescries reli-
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giosas. O indivduo ps-moderno  um indivduo desestabilizado e de certo modo "ubiquista", O ps-modernismo no passa de um grau mais da escala da da personalizao 
do indivduo consagrado ao self-service narcsico e a combinaes caleidoscpicas indiferentes.
Nestas condies, torna-se claro que a actual indiferena s muito par cialmente corresponde quilo a que os marxistas chamam alienao, ainda que alargada. A alienao, 
como se sabe,  inseparvel das categorias de ob jecto, da mercadoria, de alteridade e, portanto, do processo de reificao, enquanto que a apatia se estende tanto 
mais quanto mais certo  que se re fere a sujeitos informados e educados. A desero e no a reificao: quanto mais o sistema d responsabilidades e informa, maior 
 o desinvestimento;  este paradoxo que impede a assimilao entre alienao e indiferena, embo ra esta ltima se manifeste atravs do tdio e da monotonia. Para 
alm do "desapossamento" e da misria quotidiana, a indiferena designa uma nova conscincia, no uma inconscincia, uma disponibilidade, no uma "exterio ridade", 
uma disperso, no uma "depreciao". Indiferena no significa passividade, resignao ou mistificao; precisamos de romper definitiva mente com esta cadeia de 
identificaes marxistas, O absentismo, as greves selvagens, o turn over revelam que o desinvestimento do trabalho caminha a par de novas formas de combatividade 
e de resistncia. O homem cool no  nem o decadente pessimista de Nietzsche nem o trabalhador oprimido de Marx; assemelha-se mais ao telespectador que experimenta 
"para ver", um a um, todos os programas da noite, ao consumidor que enche o seu carrinho de supermercado, ao veraneante que hesita entre uma estadia nas praias es 
panholas e o campismo na Crsega. A alienao analisada por Marx, resul tante da mecanizao do trabalho, deu lugar a uma apatia induzida pelo campo vertiginoso 
dos possveis e o self-service generalizado; comea ento a indiferena pura, desembaraada da misria e da "perda de realidade" dos incio da industrializao.
Ind operacional
O processo de desero no resulta de modo algum de um dfice ou ca rncia de sentido. Efeito imputvel ao processo de personalizao, a errncia aptica deve ser 
referida  atomizao programada que rege o funcionamen to das nossas sociedades: dos media  produo, dos transportes ao consu
mo, j nenhuma "instituio" escapa a esta estratgia da separao, hoje cientificamente experimentada e, alm disso, destinada a conhecer um de senvolvimento considervel 
graas aos progressos da telemtica. Num siste ma organizado segundo o princpio do isolamento "suave", os ideais e valores pblicos no podem deixar de declinar, 
enquanto permanece apenas a de manda do ego e do seu interesse prprio, o xtase da libertao "pessoal", a obsesso do corpo e do sexo: hiper-investimento do privado 
e, por conse guinte, desmobilizao do espao pblico. Com a sociabilidade de tipo au toclave comea a desmotivao generalizada, a retraco autrcica ilustrada 
pela paixo de consumir, mas igualmente pela voga da psicanlise e das tc nicas relacionais: quando o social  desafectado, o desejo, a fruio, a comu nicao 
tornam-se os nicos "valores" e os "psi" os grandes sacerdotes do de serto. A era "psi" comea com a desero de massa e a lbido  um fluxo do deserto.
Longe de representar uma crise maior do sistema anunciando a mais ou menos longo prazo a sua falncia, a desero social  to s o seu resultado extremo, a sua 
lgica fundamental, como se, depois de ter feito j s coisas, o capitalismo tivesse que tornar igualmente os homens indiferentes. No h aqui malogro ou resistncia 
perante o sistema, a apatia no  uma ausncia de socializao, mas uma nova socializao flexvel e "econmica", uma descrispao necessria ao funcionamento do 
capitalismo moderno enquanto sistema experimental acelerado e sistemtico. Baseando-se na organizao incessante de combinaes inditas, o capitalismo descobre 
na indiferena uma condio ideal para a sua experimentao, que pode agora realizar-se com um mnimo de resistncia. Todos os dispositivos se tornam possveis num 
tempo mnimo, a inconstncia e a inovao capitalistas j no deparam com as adeses e fidelidades tradicionais, as combinaes fazem-se e desfa zem-se cada vez 
mais depressa, o sistema do "porque no?" torna-se puro a favor da indiferena, doravante sistemtica e operacional. A apatia torna as sim possvel a acelerao 
das experimentaes, de todas as experimentaes e no apenas da explorao. A indiferena ao servio do lucro? E esquecer que esta atinge todos os sectores e que, 
sendo assim, qualquer recentramen to deixa escapar o essencial, ou seja a generalizao da indiferena. Sem ser instrumento de qualquer instncia particular, a indiferena 
 metapoltica, meta-econmica, permitindo ao capitalismo entrar na sua fase de funciona mento operacional.
Neste caso, como compreender a aco dos partidos, dos sindicatos, da
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informao que, ao que parece, no param de combater a apatia, sensibili zando, mobilizando, informando a todos os ventos? Porque  que um siste ma cujo funcionamento 
exige a indiferena se esfora continuamente por conseguir participao, educao, interesse? Contradio do sistema? Muito mais do que isso, simulacro de contradio 
na medida em que so precisa mente as mesmas organizaes que produzem a apatia de massa, fazendo-o directamente, em virtude da sua prpria forma;  intil imaginarmos 
planos maquiavlicos, o trabalho neste sentido  directo e sem mediao. Quanto mais os polticos se explicam e exibem na televiso, mais toda a gente se es t marimbando, 
quanto mais comunicados os sindicatos distribuem, menos lidos so, quanto mais os professores se esforam por fazer com que os alu nos leiam, mais estes deixam de 
lado os livros. Indiferena por saturao, informao e isolamento. Agentes directos da indiferena, compreende-se porque  que o sistema reproduz numa escala alargada 
os aparelhos de sen tido e de responsabilizao cuja tarefa consiste em produzir um empenha mento vazio: pensem o que quiserem da televiso, mas tenham-na ligada; 
votem em ns; paguem as quotas; cumpram a palavra de ordem de greve; partidos e sindicatos no exigem mais do que esta "responsabilidade" indife rente. Empenhamento 
terico que nem por isso  menos necessrio  repro duo dos poderes burocrticos modernos. A indiferena no se identifica com a ausncia de motivao; identifica-se 
com a pouca motivao, com a "anemia emocional" (Riesman), com a desestabilizao dos comportamentos e juzos hoje "flutuantes" na esteira das flutuaes da opinio 
pblica. O ho mem indiferente no se apega a nada, no tem uma certeza absoluta, est preparado para tudo e as suas opinies so susceptveis de modificaes r 
pidas: para conseguirem um tal grau de socializao, os burocratas do saber e do poder tm que mobilizar tesouros de imaginao e toneladas de infor maes.
Resta que, ultrapassado um limiar "crtico", os poderes no ficam inacti vos relativamente a certas formas de desafeco, como o absentismo ou as greves selvagens, 
a queda da natalidade, a droga, etc. Querer isto dizer que a indiferena, ao contrrio do que at aqui dissemos,  um dispositivo em antagonismo com o sistema? 
Sim e no, porque se estas deseres introdu zem realmente a prazo um disfuncionamento intolervel, este no resulta de um excesso de indiferena, mas antes de um 
defeito de indiferena. Margi nais, desertores, jovens grevistas enfurecidos so ainda "romnticos" ou sel vagens, o seu deserto quente corresponde  imagem do seu 
desespero e da
sua fria de viver de outro modo. Alimentada de utopias e paixes, a indife rena  aqui "impura", embora saia da mesma fria cama de profuso e de atomizao. Sero, 
portanto, necessrios mais enquadramento, mais anima o e mais educao para arrefecer estes nmadas: o deserto encontra-se diante de ns, e devemos inscrev-lo 
entre as grandes conquistas do futuro, ao lado do espao e da energia.
Tambm no h dvida de que, com a sua mobilizao de massa e a sua "tomada de palavra", Maio 68 foi a mais significativa das resistncias ma croscpicas ao deserto 
das metrpoles. A informao substituiam-se os gru pos nas ruas e os graffiti; ao aumento do nvel de vida, a utopia de uma vi da diferente; as barricadas, as "ocupaes" 
selvagens, as discusses intermi nveis reintroduziam o entusiasmo no espao urbano. Mas, simultaneamen te, como no assinalar em Maio 68 a desero e a indiferena 
que traba lham o mundo contemporneo: "revoluo sem finalidade", sem programa, sem vtima nem traidor, sem enquadramento poltico, Maio 68, a despeito da sua utopia 
viva, continuava a ser um movimento laxista e descrispado, a primeira revoluo indiferente, prova de que no h motivo para se desespe rar do deserto.
Conduzindo ao sobre-investimento do existencial (na multido de 1968, surgem os movimentos radicais de libertao das mulheres e dos homosse xuais), bem como  diluio 
dos estatutos e oposies rgidas, o processo de personalizao desfaz a forma das pessoas e identidades sexuais, monta combinaes inesperadas, produz novas plantas 
desconhecidas e estranhas; quem pode prever o que querer dizer, dentro de algumas dcadas, mulher, criana, homem, ou segundo que figuras pitorescas se distribuiro 
estes ter mos? O desinvestimento dos papis e identidades institudas, das disjunes e excluses "clssicas", faz do nosso tempo uma paisagem aleatria, rica em 
singularidades complexas. Que significar o "poltico"? O poltico e o exis tencial deixaram j de pertencer a esferas separadas, as fronteiras confun dem-se, as 
prioridades oscilam, surgem paradas inditas com pontos de refe rncia menos "duros": a uniformidade, a monotonia, no ameaam o deser to, no temos que chorar sobre 
ele.
o "f1ip
Que acontece quando a vaga de desero, deixando de se circunscrever ao social, invade a esfera privada at ento deixada de parte? Que se passa
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quando a lgica do desinvestimento j nada poupa? Seria o suicdio o termi nal do deserto? Mas todas as estatsticas revelam que, contrariamente a uma opinio muito 
difundida, a taxa global de suicdios no pra de diminuir, por comparao com o que acontecia nos finais do sculo passado: em Fran a, a taxa de suicdio global 
passa de 260 (por milho de habitantes) em 1913 para 160, em 1977, e, mais significativamente ainda, a taxa de suicdio na regio parisiense atinge 500 por milho 
de habitantes no ltimo decnio do sculo XIX, enquanto cai para 105 em 19681. O suicdio torna-se de cer to modo "incompatvel" com a era da indiferena: pela sua 
soluo radical ou trgica, o seu investimento extremo da vida e da morte, o seu desafio, o suicdio j no condiz com o laxsmo ps-moderno No horizonte do deserto 
perfila-se menos a autodestruio, o desespero definitivo, do que uma pato logia de massa, cada vez mais banalizada, a depresso, o "enjoo", oflip, ex presses do 
processo de desinvestimento e de indiferena pela ausncia de teatralidade espectacular, por um lado, e pela oscilao permanente e indife rente que se instaura 
de maneira endmica entre excitabilidade e depressivi dade, por outro lado. Todavia, o apaziguamento que se pode ler na regres so do suicdio no permite sustentar 
a tese optimista de E. Todd, que re conhece nesta inflexo o signo global de uma ansiedade menor, de um "equilbrio" superior do homem contemporneo. E esquecer 
que a angstia pode tambm distribuir-se segundo outros dispositivos igualmente "inst veis". A tese do "progresso" psicolgico  insustentvel ante a extenso e 
a generalizao dos estados depressivos, outrora reservados prioritariamente s classes burguesas J ningum se pode gabar de lhes escapar: a desero social implicou 
uma democratizao sem precedentes do mal de vivre, flage lo actualmente difuso e endmico. Do mesmo modo, o homem coo! no  mais "slido" do que o homem formado 
pelo puritanismo e em termos dis ciplinares. Seria antes o contrrio. Num sistema desafectado, basta um acontecimento mdico, um nada, para que a indiferena se 
generalize e con quiste a prpria existncia. Atravessando sozinho o deserto, carregando-se a si prprio sem qualquer apoio transcendente, o homem de hoje caracteriza- 
se pela vulnerabilidade. A generalizao da depressividade deve ser atribuda
1 Nmeros citados por E. Todd, in Le Fou et te proltaire, Laffont, p. 183 e p. 205.
2 Esta questo  matizada e discutida com maior detena no captulo VI.
E. Todd, ibid., p. 71-87.
no s vicissitudes psicolgicas de cada um ou s "dificuldades" da vida ac tual, mas sim  desero da res publica, que varreu o terreno at  emergn cia do indivduo 
puro, Narciso em busca de si prprio, obcecado apenas por sim mesmo e, por isso, susceptvel de fraquejar ou de cair a todo o momen to, frente a uma adversidade 
que encara a descoberto, sem fora exterior. O homem descontrado  um homem desarmado. Os problemas pessoais as sumem assim uma dimenso desmesurada e quando mais 
nos debruamos sobre eles, com ou sem auxilio psi, menos os resolvemos. Acontece com o existencial o mesmo que com o ensino ou a poltica: quanto mais tratado e 
ouvido , mais insupervel se torna. Quem no est hoje sujeito  dramati zao e ao stress? Envelhecer, engordar, desfear-se, dormir, educar os f i lhos, partir 
para frias, tudo  um problema, as actividades elementares tor naram-se impossveis.
"No propriamente uma ideia, mas uma espcie de iluminao... Sim, foi isso, Bruno, vai-te embora. Deixa-me ficar sozinha". A Mulher Canhota, o romance de P. Handke, 
conta a histria de uma mulher jovem que sem razo, sem finalidade, pede ao marido que a deixe sozinha, com o filho de oito anos. Exigncia inintelgvel de solido 
que  preciso, antes do mais, no reduzir a uma vontade de independncia ou de libertao feminista. Sentindo-se todas as personagenS igualmente ss, o romance no 
pode redu zir-se a um drama pessoal; de resto, que grelha psicolgica ou psicanaltica seria susceptvel de explicitar o que justamente nos  apresentado como es 
quivo ao sentido? Metafsica da separao das conscincias e do solipsismo? Talvez, mas o mais interessante situa-se noutro lugar; A Mulher Canhota descreve a solido 
deste fim do sculo XX, mais do que a essncia intempo ral da derrelio. A solido indiferente das personagens de P. Handke j na da tem a ver com a solido dos 
heris da idade clssica nem mesmo com o spleen de Baudelaire. O tempo em que a solido designava as almas poticas e de excepo passou; aqui, todas as personagenS 
a conhecem com a mesma inrcia. Nenhuma revolta, nenhuma vertigem a acompanham; a solido tor nou-se um facto, uma banalidade do mesmo registo que os gestos quotidia 
nos. As conscincias j no se definem pela dilacerao recproca; o reco nhecimento, o sentimento de incomunicabilidade, o conflito deram lugar  apatia e a prpria 
intersubjectividade se encontra desinvestida. Aps a de sero social dos valores e instituies,  a relao com o Outro que, seguin do a mesma lgica, sucumbe 
ao processo de desafeco. O Eu j no habita um inferno povoado de outros ego rivais ou desprezados; o relaciona apaga-
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-se sem gritos, sem razo, num deserto de autonomia e de neutralidade asfi xiantes. A liberdade, na esteira da guerra, propagou o deserto, a estranheza absoluta 
perante outrm. "Deixa-me ficar sozinha", desejo e dor de ser-se s. Estamos assim no extremo do deserto; j atomizado e separado cada um de ns se torna agente 
activo do deserto, estende-o e aprofunda-o, incapaz que  de "viver" o Outro. No satisfeito com produzir o isolamento, o sistema en gendra o seu desejo, desejo 
impossvel que, logo que realizado, se revela in tolervel: o indivduo pede para ficar s, cada vez mais s e simultaneamen te no se suporta a si prprio, a ss 
consigo. Aqui o deserto j no tem co meo nem fim.
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CAPITULO III
Narciso ou a estratgia do vazio
Uma gerao gosta de se reconhecer e de descobrir a sua identidade nu ma grande figura mitolgica ou lendria, que reinterpreta em funo dos problemas do momento: 
Edipo como emblema universal, Prometeu, Fausto ou Ssifo como espelhos da condio moderna. Hoje,  Narciso que, aos olhos de um importante nmero de investigadores, 
sobretudo americanos, simboliza o tempo presente: "O narcisismo tornou-se um dos temas centrais da cultura americana" Enquanto o livro de R. Sennett As Tiranias 
da In timidade (T.I.) acaba de ser traduzido em francs, The Culture of Narcis
Chr. Lasch, The Culture ofNarcissism, Nova lorque, Warner Books, 1979, p. 61. Sobre a temtica narcsica, para alm dos trabalhos de R. Sennett, Chr. Lasch cita 
os de: Jim Hou gan, Decadence: Radical nostalgia, narcissism and decline in the seventies, Nova lorque, Mor row, 1975; Peter Martin, "The new narcissism", Harper 
's, Outubro de 1975; Edwin Schur, The Awarness Trap: self-absorption intead of social change, Nova lorque, Quadrangle, N.Y. Timet, 1976, bem como um nmero importante 
de trabalhos de inspirao psi (cf. notas pp. 404-407); nomeadamente P. L. Giovachinni, Psychoanalysis of Character Disorders, Nova lorque, Jason Aronson, 1975; 
H. Kohut, The Analysis of the self, Nova Lorque, International Universities Press, 1971; O. F. Kernberg, Borderline conditions and pathological narcissism, New York, 
Ja. son Aronson, 1975
Existe traduo francesa do livro de Chr. Lasch: Le Complexe de Narcisse, Baffont, 1980.
As pginas indicadas aqui so as da edio americana.
2 Richard Sennett, Les Tyrannies de l'intimiu trad. fr. de Antoine Rerman e Rebecca
Folkman, Paris. Ed. du Seuil, 1979.
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sjsm (C.N.) torna-se um verdadeiro best-seller nos Estados Unidos. Para alm da moda e da sua espuma ou de certas caricaturas que se fazem, aqui e ali, deste neo-narcisismo, 
o seu aparecimento na cena intelectual tem o interesse essencial de nos obrigar a ter em conta, em toda a sua radicalida de, a mutao antropolgica que se realiza 
diante dos nossos olhos e que to dos ns sentimos, cada um  sua maneira, ainda que confusamente. Instau ra-se um novo estdio do individualismo: o narcisismo designa 
a emergncia
de um perfil indito do indivduo nas suas relaes consigo prprio e com o seu corpo, com outrm, com o mundo e com o tempo, no momento em que
o "capitalismo" autoritrio d a vez a um capitalismo hedonista e permissi vo. A idade de ouro do individualismo, concorrencial ao nvel econmico, sentimental ao 
nvel domstico revolucionrio ao nvel poltico e artstico, chega ao fim.; afirma-se um indidualismo puro, desembaraado dos ltimos valores sociais e morais que 
coexistiam ainda com o reinado glorioso do ho mo aeconomicus, da famlia, da revoluo e da arte; emancipada de qual quer enquadramento transcendente, a prpria 
esfera privada muda de senti do, entregue como est apenas aos desejos em transformao dos indivduos.
Se a modernidade se identifica com o esprito de empresa, com a esperana futurista,  claro que o narcisismo inaugura, pela sua indiferena histrica a ps-modernidade, 
a ltima fase do homo aequalis.
Narciso por medida
Aps a agitao poltica e cultural dos anos sessenta, que podia parecer ainda um investimento de massa da coisa pblica,  uma desafeco genera lizada que ostensivamente 
se afirma no social, tendo por corolrio o refluir dos interesses no sentido de preocupaes puramente pessoais e isto indepen dentemente da crise econmica. A despolitizao 
e a dessindicalizao ga nham propores nunca antes atingidas, a esperana revolucionria e a con testao estudantil desapareceram, a contra-cultura esgota-se, 
raras so as causas ainda capazes de galvanizarem a longo prazo as energias. A res pu blica encontra-se desvitalizada, as grandes questes "filosficas", econmi 
cas, polticas ou militares suscitam mais ou menos a mesma curiosidade de senvolta do que um qualquer fait divers; todos os "cumes" se abatem pouco
a pouco, arrastados pela vasta operao de neutralizao e banalizao so ciais. S a esfera privada parece sair vitoriosa desta vaga de apatia; zelar pe la prpria 
sade, preservar a sua situao material, perder os "complexos", esperar que cheguem as frias: viver sem ideal e sem fim transcendente tor nou-se possvel. Os filmes 
de Woody AlIen e o sucesso que obtm so o smbolo autntico deste hiper-investimento do espao privado; como o pr prio Woody Alien o diz: "political solutions 
don 't work" - citado por Chr. Lasch, p. 30 -; sob muitos aspectos, esta frmula traduz o novo esprito do tempo, este neo-narcisismo que nasce da desero do poltico. 
Fim do homo politicus e advento do homo psychologicus,  espreita do seu ser e do seu bem estar.
Viver no presente, apenas no presente e no j em funo do passado e do futuro,  esta "perda do sentido da continuidade histrica" (C.N., p. 30), esta eroso do 
sentimento de pertena a uma "sucesso de geraes enraiza das no passado e prolongando-se no futuro" que, segundo Chr. Lasch, ca racteriza e engendra a sociedade 
narcsica. Hoje vivemos para ns prprios, sem nos preocuparmos com as nossas tradies nem com a nossa posterida de: o sentido histrico sofre a mesma desero 
que os valores e as institui es sociais. A derrota no Vietname, o caso Watergate, o terrorismo interna cional, mas tambm a crise econmica, a rarefaco das matrias-primas, 
a angstia nuclear, os desastres ecolgicos (C.N., pp. 17 e 28) provocaram uma crise de confiana relativamente aos dirigentes polticos, um clima de pessimismo 
e de catstrofe iminente que explicam o desenvolvimento das es tratgias narcsicas de "sobrevivncia", que prometem a sade fsica e psico lgica. Quando o futuro 
se mostra ameaador e incerto, resta a retraco sobre o presente, que no pra de ser protegido, arranjado e reciclado numa juventude sem fim. Ao mesmo tempo que 
pe o futuro entre parntesis, o sistema procede  "desvalorizao do passado", impaciente por cortar as amarras das tradies e territorialidades arcaicas e por 
instituir uma socie dade sem base de ancoragem nem opacidade; juntamente com esta indife rena pelo tempo histrico, instaura-se o "narcIsismo colectivo", sintoma 
so cial da crise generalizada das sociedades burguesas, incapazes de enfrenta rem o futuro sem desespero.
A coberto d ffiodernidade, no estaremos a deixar escapar o essencial por entre os dedos? Querendo, de acordo com uma sacrossanta tradio marxista, fazer assentar 
o narcisismo na "bancarrota" (c.N., p. 18) do siste ma e interpret-losob o signo da "desmoralizao", no se estar a sobreva
Edward Shorter, Naissance de Ia familie moderne, d. du Seuil, trad. fr. 1977.
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lorizar, por um lado, a "tomada de conscincia" e, por outro, a situao conjuntural? De facto, o narcisismo contemporneo afirma-se numa sur preendente ausncia 
de nihilismo trgico;  numa apatia frvola que maci amente se instala, a despeito das realidades catastrficas largamente exibi das e comentadas pelos media. Quem, 
 excepo dos ecologistas, tem a conscincia permanente de viver uma idade apocalptica? A "tanatocracia" desenvolve-se, as catstrofes ecolgicas multiplicam-se 
sem engendrarem com isso um sentimento trgico de "fim do mundo". As pessoas habituam-se sem dilaceraes ao "pior" que se consome nos media; instalamo-nos na crise 
que, segundo parece, em nada muda os desejos de bem estar e tempos li vres. A ameaa econmica e ecolgica no conseguiu penetrar em profundi dade a conscincia 
indiferente dos nossos dias; temos que nos decidir a diz lo: o narcisismo no  de modo nenhum a ltima retraco de um Eu desen cantado pela "decadncia" ocidental 
e precipitando-se de corpo e alma no gozo egosta. Nem nova verso do "divertimento", nem alienao - a infor mao nunca foi to desenvolvida -, o narcisismo abole 
o trgico e surge como uma forma indita de apatia feita de sensibilizao epidrmica ao mundo e simultaneamente de profunda indiferena em relao a ele: para doxo 
que explica parcialmente a pltora de informaes que nos assaltam e a rapidez com que os acontecimentos mass-mediatizados se expulsam uns aos outros, impedindo 
toda e qualquer emoo duradoura.
Nunca explicaremos, por outro lado, o narcisismo a partir de uma acu mulao de acontecimentos e dramas conjunturais: se o narcisismo for real mente, como Chr. Lasch 
nos convida a pensar, uma conscincia radicalmen te indita, uma estrutura constitutiva da personalidade ps-moderna, tere mos que o apreender como a resultante 
de um processo global que rege o funcionamento social. Novo perfil coerente do indivduo, o narcisismo no pode resultar de uma constelao avulsa de acontecimentos 
pontuais, ainda que reforada por uma mgica "tomada de conscincia". Com efeito,  da desero generalizada dos valores e finalidades sociais, implicada pelo pro 
cesso de personalizao, que o narcisismo surge. Desafeco dos grandes sis temas de sentido e hiper-investimento do Eu caminham a par: nos sistemas de "rosto humano" 
funcionando  fora de prazer, bem-estar, desestandardi zao, tudo concorre para a promoo de um individualismo puro, ou, por outras palavras, psi, desembaraado 
dos enquadramentos de massa e orien tado para a valorizao generalizada do sujeito.  a revoluo das necessida des e a sua tica hedonista que, atomizando suavemente 
os indivduos, esva
ziando pouco a pouco as finalidades sociais da sua significao profunda, permitiu ao discurso psi enxertar-se no social, tornar-se um novo ethos de massa: foi o 
"materialismo" exacerbado das sociedades de abundncia que, paradoxalmente, tornou possvel a ecloso de uma cultura centrada na ex panso subjectiva, no por reaco 
ou "suplemento de alma", mas por isola mento  lista. A vaga do "potencial humano" psquico e corporal no passa do ltimo momento de uma sociedade que se arranca 
 ordem disciplinar e leva ao seu termo a privatizao sistemtica j operada pela idade do consu mo. Longe de derivar de uma "tomada de conscincia" desencantada, 
o nar cisismo  efeito do crescimento de uma lgica social individualista hedonista impulsionada pelo universo dos objectos e signos, e de uma lgica teraputi ca 
e psicolgica elaborada a partir do sculo XIX com base na abordagem psicopatolgica.
O zombie e o psi
Simultaneamente  revoluo informtica, as sociedades ps-modernas conhecem uma "revoluo interior", um imenso "movimento de conscincia" ( movement C.N., pp. 
43-48), um fascnio sem precedentes pelo auto-conhecimento e pela auto-realizao, como prova a proliferao dos or ganismos psi, tcnicas de expresso e de comunicao, 
meditaes e ginsti cas orientais. A sensibilidade poltica dos anos sessenta deu lugar a uma "sensibilidade teraputica"; mesmo os mais duros (sobretudo esses) 
entre os ex-lderes contestatrios sucumbem aos encantos da self-examination: en quanto Rennie Davis abandona o combate radical para seguir o guru Maha raj ii, Jerry 
Rubin conta que, entre 1971 e 1975, praticou com delcia a tera pia gestaltista, a bioenergia, o rolfing, as massagens, o jogging, tai chi, Esa len, o hipnotismo, 
a dana moderna, a meditao, Silva Mmd Control, Ari ca, a acupunctura, a terapia reichiana (citado por Chr. Lasch, p. 43-44)... No momento em que o crescimento 
econmico se esgota, o desenvolvimento psquico reveza-o; no momento em que a informao se substitui  produ  o consumo de conscincia torna-se uma nova bulimia: 
ioga, psicanlise, expresso corporal, zen, terapia primal, dinmica de grupo, meditao transcendental;  inflao econmica responde a inflao psi e o formidvel 
surto narcsico que esta engendra. Canalizando as paixes no sentido do Eu, promovido assim  categoria de umbigo do mundo, a terapia psi, ainda que
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colorida de corporeidade e de filosofia oriental, gera uma figura indita de Narciso, indentificando-se doravante este com o homo psychologicus. Narci so obcecado 
por si prprio no sonha, no se encontra atingido de narcose, trabalha assiduamente na libertao do Eu, no seu grande destino de auto nomia e de independncia: 
renunciar ao amor, "to love myself enough so that 1 do not need another to make me happy, tal  o novo programa revo lucionrio de J. Rubin (citado por Chr. Lasch, 
p. 44).
Neste dispositivo psi, o inconsciente e o recalcamento ocupam uma posi o estratgica. Pelo desconhecimento radical que instituem sobre a verdade do sujeito, so 
operadores decisivos do neo-narcisismo: afirmar o logro do desejo e a barra do recalcamento  uma provocao que desencadeia uma tendncia irresistvel para a reconquista 
da verdade do Eu: "Onde era Isso, devo eu chegar." O narcisismo  uma resposta ao desafio do inconsciente:
instado a redescobrir-se, o Eu precipita-se num trabalho de libertao inter minvel, de observao, de interpretao. Reconheamo-lo: o inconsciente, antes de ser 
imaginrio ou simblico, teatro ou mquina,  um agente pro vocador cujo efeito principal  um processo de personalizao sem fim: cada indivduo deve "dizer tudo", 
libertar-se dos sistemas de defesa annimos que se opem  continuidade histrica do sujeito, personalizar o seu desejo por meio das associaes "livres", e hoje 
tambm do no-verbal, o grito e o senti mento primais. Por outro lado, tudo o que seria susceptvel de funcionar co mo subproduto (o sexo, o sonho, o lapso, etc.) 
ser reciclado na ordem da subjectividade libidinal e do sentido. Alargando deste modo o espao da pes soa, incluindo todas as escrias no campo do sujeito, o inconsciente 
abre ca minho a um narcisismo sem limites. Narcisismo total que revela de outro modo os ltimos avatares psi, em que a palavra de ordem j no  a inter pretao, 
mas o silmo do analista: libertado da palavra do Mestre e do re ferencial de verdade, o analisando  entregue apenas a si prprio numa cir cularidade regida exclusivamente 
pela auto-seduo do desejo. Quando o sjgnifjcado cede a vez aos jogos do significante e o prprio discurso  emo o directa, quando caem os referentes exteriores, 
o narcisismo j no tem obstculos e pode cumprir-se em toda a sua radicalidade.
Deste modo, a auto-conscincia substituiu a conscincia de classe, a conscincia narcsica  conscincia poltica, substituio qu no devemos em caso algum explicar 
reabrindo o eterno debate sobre as manobras de di verso da luta de classes. O essencial est noutro lado. Antes de tudo o res to, instrumento de socializao, o 
narcisismo, pela sua auto-absoro, per
mite radicalizar a desafeco da esfera pblica e promover, por isso mesmo, uma adaptao funcional ao isolamento social, continuando a reproduzir a estratgia correspondente. 
Tornando o Eu o alvo de todos os investimentos, o narcisismo empenha-se em ajustar a personalidade  atomizao acolchoa da engendrada pelos sistemas personalizados. 
Para que o deserto social seja vivel, o Eu deve tornar-se a preocupao central: no importa que a relao seja destruida, contanto que o indivduo seja levado 
a absorver-se em si prprio. Assim, o narcisismo realiza uma estranha "humanizao" aprofun dando a fragmentao social: soluo econmica para a "disperso" generali 
zada, o narcisismo, numa circularidade perfeita, adapta o Eu ao mundo de onde este nasce. O adestramento social j no se efectua atravs da coero disciplinar 
nem mesmo da sublimao; efectua-se por meio da auto-seduo. O narcisismo, nova tecnologia de controlo flexivel e autogerido, socializa dessocializando, pe os 
indivduos de acordo com um social pulverizado, glo rificando o reino da plena realizao do Ego puro.
Mas o narcisismo talvez tenha a sua funo mais elevada no deslastra mento dos contedos rgidos do Eu a que a procura inflacionria de verdade conduz inelutavelmente. 
Quanto mais o Eu  jnvestido, feito objecto de aten o e de interpretao, mais a incerteza e a interrogao crescem. O Eu tor na-se um espelho vazio  fora de 
"informaes", uma questo sem resposta  fora de associaes e de anlises, uma estrutura aberta e indeterminada que exige, em contrapartida, cada vez mais terapia 
e anamnese. Freud no se enganava quando, num texto clebre, se comparava a Coprnico e a Dar win, por ter infligido um dos trs grandes "desmentidos" que se opem 
 megalomania humana. Narciso j no est imobilizado diante da sua ima gem fixa, j nem sequer h imagem, nada para alm de uma busca intermi nvel de Si, um processo 
de desestabilizao ou flutuao psi na esteira da flutuao monetria ou da opinio pblica: Narciso entrou em rbita. O neo-narcisismo no se contentou com neutralizar 
o universo social, esvazian do as instituies dos seus investimentos emocionais; tambm o Eu, desta feita, se v corroido, esvaziado da sua identidade, o que paradoxalmente 
su cede em virtude do seu hiper-investimento. Como o espao pblico se esvazia emocionalmente por excesso de informaes, de solicitaes e de animaes:
o Eu tornou-se um "conjunto frouxo". Por toda a parte, eis que o real pesa do desaparece, e  a dessubstancializao, ltima figura da desterritorializa o, que 
condena a ps-modernidade.
No sentido da mesma dissoluo do Eu actua a nova tica permissiva e
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hedonista: o esforo deixou de estar na moda, o que significa coero ou dis ciplina austera  desvalorizado em proveito do culto do desejo e da sua reali zao 
imediata, tudo se passa como se se tratasse de levar ao extremo o diagnstico de Nietzsche sobre a tendncia moderna para favorecer a "fra queza da vontade", ou 
seja a anarquia dos impulsos e das tendncias e, cor relativamente, a perda de um centro de gravidade que hierarquize o todo:
"A pluralidade e a desagregao dos impulsos, a falta de sistematizao en tre eles, leva a uma 'vontade fraca'; a coordenao dos impulsos sob o pre domnio de 
um deles leva a uma 'vontade forte'" Associaes livres, espon taneidade criadora, no-directividade, a nossa cultura da expresso, mas tambm a nossa ideologia 
do bem-estar estimulam a disperso em detrimen to da concentrao, o temporrio em vez do voluntrio, e trabalham a favor da fragmentao do Eu, do aniquilamento 
dos sistemas psquicos organiza dos e sintticos. A falta de ateno dos alunos, de que todos os professores hoje se queixam, no  seno uma das formas desta nova 
conscincia cool e desenvolta, ponto por ponto anloga  conscincia telespectadora, captada por tudo e por nada, ao mesmo tempo excitada e indiferente, sobressaltada 
pelas informaes, conscincia opcional, disseminada, nos antpodas da conscincia voluntria, "intro-determinada". O fim da vontade coincide com a era da indiferena 
pura, com o desaparecimento dos grandes fins e gran des iniciativas que merecem o sacrifcio da vida: "tudo imediatamente" e j no per aspera ad astra "Expludam!", 
lemos por vezes num graijiti: no h que temer, o sistema encarrega-se disso, o Eu j foi pulverizado em tendn cia parciais de acordo com o mesmo processo de desagregao 
que fez explo dir a socialidade num copglomerado de molculas personalizadas. E o social tono  a rplica exacta do Eu indiferente, cuja vontade esmorece, novo 
zombie atravessado de mensagens. Intil sentirmo-nos desesperados: o "en fraquecimento da vontade" no  catastrfico, no prepara uma humanidade submissa e alienada, 
em nada anuncia a ascenso do totalitarismo: a apatia desenvolta representa, bem pelo contrrio, uma barreira contra os sobressaI tos de religiosidade histrica 
e os grandes desgnios paranicos. Obsecado apenas por si prprio, procurando a sua realizao pessoal e o seu equil brio, Narciso constitui um obstculo ante os 
discursos de mobilizao de
1 Nietzsche, Le Nihilisrne europen. fragmentos pstumos reunidos e traduzidos por A. Kremer-Marietti, UGE, coil. "10/18", p. 207.
2 "De obstculo em obstculo at s estrelas", citado por D. Riesman, La Foule so1i Arthaud, 1964, p. 164.
massas; hoje, os apelos  aventura, ao risco poltico, no encontram eco; se a revoluo se desprestigiou, no temos que incriminar qualquer "traio" burocrtica: 
a revoluo extinguiu-se sob os spots sedutores da personaliza o do mundo. Deste modo, a era da "vontade" desaparece: mas no preci samos de recorrer, imitando 
Nietzsche, a qualquer "decadncia". Trata-se da lgica de um sistema experimental baseado na rapidez da criao de combi naes que exige a eliminao da "vontade", 
porque esta se revela como um obstculo ao seu funcionamento operacional. Um centro "voluntrio" com as suas certezas ntimas, a sua fora intrnseca, representa 
ainda um ncleo de resistncia  acelerao das experimentaes: mais vale a apatia narcsica, um Eu lbil, o nico capaz de avanar em movimentos sincronizados 
com uma experimentao sistemtica e acelerada.
Liquidando a rigidez "intro-determinada" incompatvel com os sistemas "flutuantes", o narcisismo trabalha igualmente a favor da dissoluo da "ex tro-determinao", 
que, aos olhos de Riesman, era a personalidade rica em futuro, mas que rapidamente se revelou no passar de uma ltima personali dade de massa, correspondendo ao 
estdio inaugural dos sistemas de consu mo e fazendo a transio entre o indivduo disciplinar-voluntrio (introdeter minado) e o indivduo narcsico. No momento 
em que a lgica da personali zao reorganiza a integralidade dos sectores da vida social, a extro determinao, com a sua necessidade de aprovao do Outro, o seu 
compor tamento orientado pelo Outro, d lugar ao narcisismo, a uma auto-absoro que reduz a dependncia do Eu ante os outros. R. Sennett tem em parte ra zo: "As 
sociedades ocidentais esto a passar de um tipo de sociedade mais ou menos dirigida pelos outros a uma sociedade dirigida do interior" (T.I., p. 14). No tempo dos 
sistemas  lista, a personalidade j no deve ser de ti po gregrio ou mimtico, mas aprofundar a sua diferena, a sua singularida de: o narcisismo representa este 
desprendimento da preenso do Outro, esta ruptura com a ordem da estandardizao dos primeiros tempos da "socieda de de consumo". Liquefaco da identidade rgida 
do Eu e suspenso do pri mado do olhar do Outro, em todos os casos,  realmente como agente do processo de personalizao que o narcisismo funciona.
Comete-se um grave erro quando se quer dar conta da "sensibilidade te raputica" a partir de uma qualquer runa da personalidade causada pela organizao burocrtica 
da vida: "O culto da intimidade no tem a sua ori gem na afirmao da personalidade, mas na sua queda" (C.N., p. 69). A paixo narcsica no procede da alienao 
de uma unidade perdida, no
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compensa uma falta de personalidade, gera um novo tipo de personalidade, uma nova conscincia, toda feita de indeterminao e flutuao. Tornar o Eu um espao "flutuante", 
sem fixao nem pontos de referncia, uma dis ponibilidade pura, adaptada  acelerao das combinaes,  fluidez dos nossos sistemas, tal  a funo do narcisismo, 
instrumento flexvel dessa re ciclagem psi permanente, necessria  experimentao ps-moderna. E, si multaneamente, expurgando do Eu as resistncias e os estereotipos, 
o narci sismo torna possvel a assimilao dos modelos de comportamentb apurados por todos os ortopedistas da sade fsica e mental: instituindo um "esprito" vergado 
 formao permanente, o narcisismo coopera na grande obra de gesto cientfica dos corpos e das almas.
A eroso dos pontos de referncia do Eu  a rplica exacta da dissoluo que hoje conhecem as identidades e os papis sociais, outrora estritamente definidos, integrados 
como estavam em oposies reguladas: assim os estatu tos da mulher, do homem, da criana, do louco, do civilizado, etc., entra ram num perodo de indefinio, de 
incerteza, enquanto no pra de se de senvolver a interrogao sobre a natureza das "categorias" sociais. Mas ao passo que a eroso das formas da alteridade deve 
ser pelo menos em parte atribuda ao processo democrtico, ou seja ao trabalho da igualdade, cuja tendncia consiste, como mostrou admiravelmente M. Gauchet, em 
reduzir tudo o que figura a alteridade social ou a diferena de substncia entre os seres pela instituio de uma similitude independente dos dados visveis', aquilo 
a que chammos a dessubstancializao do Eu procede em primeiro lugar do processo de personalizao. Se o movimento democrtico dissolve os pontos de referncia 
tradicionais do outro, o esvazia de toda a disseme lhana substancial afirmando uma identidade entre os indivduos, sejam quais forem, sob outros aspectos, as suas 
diferenas aparentes, o processo de personalizao narcsico, pelo seu lado, faz vacilar os pontos de referncia do Eu, esvazia-o de todo o contedo definitivo, 
O reinado da igualdade transformou por inteiro a apreenso da alteridade, do mesmo modo que o reinado hedonista e psicolgico transforma por inteiro a apreenso 
da nossa prpria identidade. Mais ainda: a exploso psi sobrevm no momemto preci so em que todas as figuras da alteridade (perverso, louco, delinquente, mu lher, 
etc.) se vem contestadas e oscilam no sentido daquilo a que Tocquevil le chama a "igualdade das condies". No ser justamente quando a alteri
dade social d maciamente lugar  identidade, a diferena  igualdade, que o problema da identidade prpria, ntima desta vez, pode surgir? No ser porque o processo 
democrtico se encontra doravante generalizado, sem li mite ou fronteira determinvel, que pode levantar-se a vaga de fundo psico lgica? Quando a relao do indivduo 
consigo prprio suplanta a relao com o outro, o fenmeno democrtico deixa de ser problemtico; deste pon to de vista, a afirmao do narcisismo significaria a 
desero do reino da igualdade, sem que esta, no entanto, deixe de prosseguir a sua obra. Tendo resolvido a questo do outro (quem no  hoje reconhecido, objecto 
de solici tude e de interrogao(?), a igualdade varreu o terreno e permitiu a emer gncia da questo do Eu; doravante, a autenticidade leva a melhor sobre a reciprocidade, 
o conhecimento de si prprio sobre o reconhecimento. Mas, em simultneo com este desaparecimento da cena social da figura do Outro, reaparece uma nova diviso, a 
do consciente e do inconsciente, a clivagem psquica, como se a diviso devesse ser permanentemente reproduzida, ainda que numa modalidade psicolgica, a fim de 
a obra de socializao poder continuar. "Eu  um Outro" esboa o processo narcsico, o nascimento de uma nova alteridade, o fim da familiaridade do Si para conSigo, 
quando quem est diante de mim deixa de ser um absolutamente Outro: a identida de do Eu vacila quando a identidade entre os indivduos se afirma, quando todo e qualquer 
ser se torna um "semelhante". Deslocamento e reproduo da diviso, ao interiorizar-se o conflito assume sempre uma funo de inte grao social desta vez menos 
atravs da conquista da dignidade pela luta de classe do que da busca da autenticidade e da verdade do desejo.
O corpo reciclado
Quando se tenta assimilar,  maneira de R. Sennett, o narcisismo ao psi cologismo, depara-se rapidamente com a dificuldade maior do cortejo das so licitudes e dos 
cuidados que doravante rodeiam o corpo, promovido assim  categora de verdadeiro objecto de culto. Investimento narcsico do corpo di rectamente legvel atravs 
de mil prticas quotidianas: angstia da idade e das rugas (C. N., pp. 351-367); obsesses com a sade, com a "linha", com a higiene: rituais de controlo (check-up) 
e de manuteno (massagens, sau
1 Marcel Gauchet, "Tocquevil!e, I'Amrique et nous", Libre, n. 7, pp. 83-104.
M. Gauchet, ibid., p. 116.
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na, desportos, regimes); cultos solares e teraputicos (sobreconsumo de cui dados mdicos e de produtos farmacuticos), etc. Incontestavelmente, a re presentao 
social do corpo sofreu uma mutao cuja profundidade pde j ser posta em paralelo com o abalo democrtico da representa de outrm;  do advento deste novo imaginrio 
social do corpo que resulta o narcisismo. Do mesmo modo que a apreenso da alteridade de outrm desaparece em benefcio do reinado da identidade entre os seres, 
assim tambm o corpo perdeu o seu estatuto de alteridade, de res extensa, de materialidade muda, em proveito da sua identificao como o ser-sujeito, com a pessoa. 
O corpo j no designa uma abjeco ou uma mquina, designa a nossa identidade profunda da qual no h motivo para ter vergonha e que pode, portanto, ex ibir-se 
nua nas praias ou nos espectculos, na sua verdade natural. Enquan to pessoa, o corpo ganha dignidade; devemos respeit-lo, quer dizer zelar permanentemente pelo 
seu bom funcionamento, lutar contra a sua obsoles cncia, combater os signos da sua degradao atravs de uma constante re ciclagem cirrgica, desportiva, diettica, 
etc.: a decrepitude "fsica" tornou- se uma torpeza.
Chr. Lasch mostra-o bem: o modermo medo de envelhecer e de morrer  um elemento constitutivo do neo-narcisismo; o desinteresse pelas geraes futuras intensifica 
a angstia da morte, enquanto que a degradao das con dies de existncia das pessoas idosas e a necessidade permanente de valori zao, de se ser admirado pela 
beleza, pelo encanto, pela celebridade, tor nam a perspectiva do envelhecimento intolervel (C. N., pp. 354-357). De facto,  o processo de personalizao que, esvaziapdo 
sistematicamente toda a posio transcendente, engendra uma existncia puramente actual, uma subjectividade total sem finalidade nem sentido, entregue  vertigem 
da sua auto-seduo. O indivduo, encerrado no seu ghetto de mensagens, enfrenta doravante a sua condio mortal sem qualquer apoio "transcendente" (polti co, moral 
ou religioso). "O que verdadeiramente revolta contra a dor no  a dor em si, mas o sem-sentido da dor", dizia Nietzsche: pas e com a morte e com a idade o mesmo 
que com a dor;  o seu sem-sentido contemporneo que lhes exacerba o horror. Num sistema personalizado, s resta ao indiv duo durar e conservar-se, aumentar a fiabilidade 
do seu corpo, ganhar tem po e ganhar contra o tempo. A personalizao do corpo mobiliza o imperati vo da juventude, a luta contra a adversidade temporal, o combate 
tendo em vista a identidade a conservar sem hiato nem desgaste. Continuar jovem, no envelhecer:  o mesmo imperativo de funcionalidade pura, o mesmo im
A Era do Vazio
perativo de reciclagem, o mesmo im de dessubstancializao, espian do os estigmas do tempo a fim de dissolver as heterogeneidades da idade.
Como todas as grandes dicotomias, a do corpo e a do esprito esbateu-se; o processo de personalizao, e especialmente aqui, a expanso do psicolo gismo, apaga as 
oposjes e hierarquias rgidas, confunde os pontos de refe rncia e as identidades vincadas. O processo de psicologizao  um agente de desestabilizao, sob o 
seu registo todos os critrios vacilam e flutuam numa incerteza generalizada; assim, o corpo deixa de ser relegado para um estatuto de positividade material opondo-se 
a uma conscincia acsmica e torna-se um espao indecidvel, um "objecto-sujeito", um misto flutuante de sentido e de sensvel, como dizia Merleau-Ponty. Com a expresso 
corporal e a dana moderna (a de Nikolas, Cunningham, Carolyn Carison), com a eu tonia e o ioga, com a bioenergia, o ro(fing, a terapia gestaltista, onde come a 
ou acaba o corpo? As suas fronteiras recuam, tornam-se fluidas; o "movi mento de conscincia"  simultaneamente uma redescoberta do corpo e das suas potncias subjectivas. 
O corpo psicolgico substituiu-se ao corpo objec tivo e a tomada de conscincia do corpo por si prprio tornou-se uma finali dade caracterstica do narcisismo: fazer 
existir o corpo para si prprio, esti mular a sua auto-reflexividade, reconquistar a interioridade do corpo, tal  a obra do narcisismo. Se o corpo e a conscincia 
se trocam um pelo outro, se o corpo, na esteira do inconsciente, fala,  preciso am-lo e escut-lo,  pre ciso que ele se expresse, que comunique, e da emana a 
vontade de redes cobrir o corpo de dentro, a busca forada da idiossincrasia, ou seja o pr prio narcisismo, esse agente da psicologizao do corpo, esse instrumento 
de conquista da subjectividade do corpo atravs de todas as tcnicas contempo rneas de expresso, concentrao e relaxao.
Humanizao, subjectivizao, R. Sennett viu bem, estamos de facto nu ma "cultura da personalidade", contanto que precisemos que o prprio corpo se torna um sujeito 
e, como tal,  colocado na rbita da libertao, ou at da revoluo, sexual sem dvida, mas tambm esttica, diettica, sanitria, etc., sob a gide de "modelos 
directivos" No devemos omitir que em si multneo com uma funo de personalizao, o narcisismo realiza uma mis so de normalizao do corpo: o interesse febril 
que temos pelo corpo no 
' J. Baudrillard fala justificadamente de um "narcisismo dirigido"; cf. L change symboli que et la ,nort. Gailimard, 197, pp. 171-173.
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de modo nenhum espontneo e "livre", obedece a imperativos sociais, como a "linha", a "forma", o orgasmo, etc. O narcisismo joga e ganha em todos os tabuleiros, 
funcionando ao mesmo tempo como operador de 'desestandardi zao e como operador de estandardizao, sem que esta ltima se apresente jamais como tal, mas como sujeio 
s exigncias mnimas da personaliza o: a normalizao ps-moderna apresenta-se sempre como o nico meio de
o indivduo ser realmente ele prprio, jovem, esbelto, dinmico Passa-se com a exaltao do corpo o mesmo que com a inflao psi:  a deslastrar o corpo dos tabus 
e pesos arcaicos, tornando-o assim permevel s normas so ciais, que se aplica o narcisismo. Paralelamente  dessubstancializao do Eu, a dessubstancializao do 
corpo, ou seja a eliminao da corporeidade selvagem ou esttica por meio de um trabalho que j no se realiza como outrora segundo uma lgica asctica por defeito, 
mas pelo contrrio, segun do uma lgica pletrica que acumula informaes e normas, O narcisismo, pela ateno escrupulosa que concede ao corpo, pela sua preocupao 
per manente de funcionalidade ptima, faz cair as resistncias "tradicionais" e torna o corpo disponvel para todas as experimentaes, O corpo, na esteira da conscincia, 
torna-se um espao flutuante, um espao des-localizado, en tregue  "mobilidade social": limpar o terreno, obter o vazio por saturao, abater os ncleos refractrios 
 infiltrao das normas, assim procede o nar cisismo, e vemos bem que  ingnuo faz-lo nascer, nos termos de R. Sen nett, a partir da "eroso dos papis pblicos", 
quer dizer do desinvestimento de tudo o que  conveno, artifcio ou uso, considerado doravante como "algo seco, formal, seno factcio" (T.I., p. 12), e como obstculo 
 expres so da intimidade e da autenticidade do Eu. Seja qual for, de resto, a vali dade parcial desta tese, ela no resiste  prova da idolatria codificada do 
corpo, sobre a qual R. Sennett curiosamente no diz uma palavra: se o nar cisismo  realmente veiculado por uma vaga de desafeco, so os valores e as finalidades 
"superiores" que esto em causa e de modo nenhum os papis e cdigos sociais. Nada menos do que o grau zero do social, o narcisismo procede de um hiper-investimento 
de cdigos e funciona como tipo indito de controlo social sobre as almas e os corpos.
1 O processo de personalizao anexou a prpria norma do mesmo modo que anexou a produo, o consumo, a educao ou a informao.  norma dirigista ou autoritria 
substituiu- se a norma "indicativa", flexvel, os "conselhos prticos", as terapias "por medida", as campa nhas de informao e de sensibilizao atravs de filmes 
humorsticos e de anncios sorridentes.
Um teatro discreto
Com o que R. Sennett chama a "condenao moral da impessoalidade", que equivale  eroso dos papis sociais, comea o reinado da personalida de, a cultura psicomrfica 
e a obsesso moderna do Eu no seu desejo de re velar o seu ser verdadeiro ou autntico. O narcisismo no designa apenas a paixo do conhecimento de si, mas tambm 
a paixo da revelao ntima do Eu, como o testemunha a inflao actual das biografias e autobiografias ou a psicologizao da linguagem poltica. As convenes 
parecem-nos repressi vas, "as questes impessoais s despertam o nosso interesse quando as enca ramos - erradamente - sob um ponto de vista personalizado" (T.I., 
p. 15); tudo deve ser psicologizado, dito na primeira pessoa: o indivduo de ve implicar-se a si prprio, revelar as suas motivaes, desvendar a todo o momento 
a sua personalidade e as suas emoes, exprimir o seu sentimento ntimo,  falta do que incorrer no vcio imperdovel da frieza e do anoni mato. Numa sociedade 
"intimista", que tudo mede pela bitola da psicologia, a autenticidade e a sinceridade tornam-se, como j Riesman notava, virtudes cardiais, e os indivduos, absorvidos 
pelo seu eu ntimo, vem-se cada vez mais incapazes de "desempenhar" papis sociais: tornmo-nos "actores priva dos de arte" (T.I., p. 249). Com a sua obsesso de 
verdade psicolgica, o narcisismo enfraquece a capacidade de lidar com a vida social, torna im possvel toda a distncia entre o que se sente e o que se exprime: 
"A capaci dade de ser expressivo perde-se, porque o indivduo tenta identificar a sua aparncia com o seu ser profundo e porque liga o problema da expresso efectiva 
ao da autenticidade desta" (T.I., p. 205). E  aqui que reside a ar madilha, porque quanto mais os indivduos se libertam de cdigos e costu mes em busca de uma 
verdade pessoal, mais as suas relaes se tornam "fra tricidas" e associais. Com a exigncia crescente de mais imediato e de maior proximidade, assaltando-se o outro 
 fora de confidncias pessoais, j no se observa a distncia necessria ao respeito da vida privada dos outros: o intimismo  tirnico e "incivil". "A civilidade 
 a actividade que protege o eu dos outros, e lhe permite portanto fruir da companhia de outrem. O uso da mscara  a prpria essncia da civilidade... Quanto mais 
forem as msca ras mais reviyer mentalidade 'urbana', bem como o amor da urbanida de" (T.I., p. 202). A sociabilidade exige barreiras, regras impessoais que, s 
elas, podem proteger os indivduos uns dos outros; onde, pelo contrrio, rei na a obscenidade da intimidade, a comunidade viva desfaz-se em pedaos e
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as relaes humanas tornam-se "destrutivas". A dissoluo dos papis pbli cos e a compulso de autenticidade engendraram uma incivilidade que se manifesta, por 
um lado, na rejeio das relaes annimas com os "desco nhecidos" na cidade e a retraco para o aconchego do nosso ghetto ntimo, por outro lado, no estreitamento 
do sentimento de pertena a um grupo e pela acentuao correlativa dos fenmenos de excluso. Morta a con de classe, os indivduos confraternizam agora na base do 
bairro, da regio ou dos sentimentos comuns: "O prprio acto de partilhar remete cada vez mais para operaes de excluso ou, inversamente, de incluso... A fraterni 
dade j no passa da unio d um grupo selectivo que rejeita todos os que no fazem parte dele... A fragmentao e as divises internas so o produto da fraternidade 
moderna" (T.I., p. 203).
Digamo-lo sem rodeios: a ideia segundo a qual o narcisismo debilita a energia ldica e se revela incompatvel com a noo de "papel" no resiste ao exame. Sem dvida, 
as convenes rgidas que enquadravam as condutas fo ram desfeitas pelo processo de personalizao que tende por toda a parte a desregular e a flexibilizar os quadros 
estritos; neste sentido,  verdade que os indivduos recusam as coaces "vitorianas" e aspiram a mais autenticida de e liberdade nas suas relaes. Mas isso no 
significa que o indivduo se veja entregue a si prprio, desembaraado de toda a codificao social. O processo de personalizao no abole os cdigos, descongela-os, 
ao mesmo tempo que impe novas regras adaptadas ao imperativo de produzir precisa- mente uma pessoa pacificada. Dizer tudo, talvez, mas sem grito, diga o que quiser, 
mas nada de passagem ao acto; mais ainda,  esta libertao do dis curso, ainda que acompanhada de violncia verbal, que contribui para fazer regredir o uso da violncia 
fsica: sobreinvestimento do verbo ntimo e corre lativamente desafeco da violncia fsica: atravs deste deslocamento, o strip-tease psi revela-se um instrumento 
de controlo e de pacificao social. Mais do que uma realidade psicolgica actual, a autenticidade  um valor social e assim no h lugar para a exploso sem coero: 
o deboche da reve lao acerca de si prprio deve vergar-se a novas normas, a do gabinete do analista, a do gnero literrio ou a do "sorriso familiar" do homem 
poltico na televiso. De qualquer maneira, a autenticidade deve corresponder ao que esperamos dela, aos signos codificados da autenticidade: uma manifes tao demasiado 
exuberante, um discurso demasiado teatral j no tm efei to de sinceridade; esta deve adoptar o estilo cool, caloroso e comunicativo; para alm ou para aqum disto, 
temos o histrio, a neurose. E necessrio
que nos expressemos sem reserva (e mesmo isto, de resto, deve ser conside ravelmente matizado, como veremos), livremente, mas num quadro pr- estabelecido. H uma 
procura de autenticidade, mas de maneira nenhuma de espontaneidade: Narciso no  um actor atrofiado, as faculdades expres sivas e ldicas no so hoje nem mais 
nem menos desenvolvidas do que on tem. Veja-se a proliferao de todos os pequenos "arranjos" da vida quoti diana, as astcias e "truques" do mundo do trabalho: 
a arte da dissimula o, as mscaras nada perderam da sua eficcia. Veja-se como a sinceridade  "interdita" ante a morte: devemos esconder a verdade ao moribundo, 
no devemos manifestar a nossa dor quando morre um parente, mas fingir "indi ferena", como diz Aris "A discrio surge como a forma moderna da dignidade" O narcisismo 
define-se menos pela exploso livre das emoes do que pelo encerramento em si prprio, ou pela "discrio", signo e instru mento de self-controi. Sobretudo, nada 
de excessos, de transportes, de ten ses que nos ponham fora de ns;  a retraco sobre si prprio, a "reserva" ou a interiorizao que caracteriza o narcisismo, 
e no a exibio "romnti ca".
De resto, longe de exacerbar as excluses e de engendrar o sectarismo, o psicologismo tem efeitos opostos: o trabalho da personalizao consiste em desarmar os antagonismos 
rgidos, as excomunhes e as contradies. O la xismo leva a melhor sobre o moralismo ou o purismo, a indiferena sobre a intolerncia. Demasiado absorvido por si 
prprio, Narciso renuncia aos miii tantismos religiosos, desinveste as grandes ortodoxias, as suas adeses so efeito da moda, flutuantes, sem grande motivao. 
Aqui como noutros luga res, a personalizao conduz ao desinvestimento do conflito, ao desanuvia inento. Nos sistemas personalizados, os cismas, as heresias j no 
tm senti do: quando uma sociedade "valoriza o sentimento subjectivo dos actores e desvaloriza o carcter objectivo da aco" (TI., p. 21), pe em aco um processo 
de dessubstancializao das aces e doutrinas, cujo efeito mais imediato  uma descrispao ideolgica e poltica. Neutralizando os contez dos em benefcio da seduo 
psi, o intimismo generaliza a indiferena, ela bora uma estratgia de desarmamento nos antpodas do dogmatismo das ex cluses.
A tese de R. Sennett, a propsito das relaes intersubjectivas, deixa de
1 Ph. Aris, Essa is sur 1histoire de la mort en Occident, d. du Seuil, 1975, p. 187.
2 Ibid., p. 173.
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ser convincente: "Quanto mais ntimas so as pessoas, mais as suas relaes se tornam dolorosas, fratricidas e associais" (T.I., p. 274). As convenes ri tuais 
impediam, ento, os homens de se matarem uns aos outros e se feri rem? A cultura pblica ignoraria a tal ponto a crueldade e o dio? Teremos tido que esperar pela 
era intimista para que a luta das conscincias conhe cesse o seu pleno surto? Se  evidente que no podemos aderir a semelhante maniquesmo ingnuo (mscaras = civilidade; 
autenticidade = incivilidade), to visivelmente contrrio  apatia narcsica, no  menos verdade que sub siste um problema justamente no lugar em que se declara 
esta dramatizao do conflito: o que  que impele para uma tal representao catastrfica? O que  que a torna uma ideia dominante do nosso tempo?
Apocalipse now?
Encontramos a mesma verificao trgica em Chr. Lasch, reforada des ta feita por um discurso nitidamente apocalptico; quanto mais a sociedade d de si prpria 
uma imagem tolerante, mais, de facto, o conflito se intensi fica e generaliza: assim, passamos da guerra de classes  "guerra de todos contra todos" (C. N., p. 125). 
No universo econmico, antes do mais, reina uma rivalidade pura, esvaziada de qualquer significao moral ou histrica:
o culto do self-made man e do enriquecimento como signo de progresso indi vidual e social terminou, doravante o (xito" s tem um sentido psicolgico:
"A busca da riqueza tem apenas como objectivo suscitar a admirao ou a inveja" (C. N., p. 118). Nos nossos sistemas narcsicos, o indivduo adula os seus superiores 
para avanar na carreira, deseja mais ser invejado do que respeitado, e a nossa sociedade, indiferente ao futuro, apresenta-se como uma selva burocrtica onde reina 
a manipulao e a concorrncia de todos contra todos (C. N., pp. 114-117). A prpria vida privada deixa de ser um refgio e reproduz este estado de guerra generalizado: 
peritos da comunica o redigem tratados psicolgicos destinados a garantir aos indivduos uma posio dominante nos cocktails, enquanto novas estratgias, como 
a asserti veness therapy, visam desembaraar os sujeitos dos sentimentos de ansieda de, de culpabilidade  de inferioridade que os seus parceiros frequentemente 
utilizam para chegarem aos seus fins. As relaes humanas, pblicas e pri vadas, tornaram-se relaes de dominao, relaes conflituais assentes na seduo fria 
e na intimidao. Por fim, sob a influncia do neo-feminismo,
as relaes entre o homem e a mulher deterioram-se consideravelmente, des ligadas das regras pacificadoras da cortesia. A mulher, com as suas exign cias sexuais 
e as suas capacidades orgsticas vertiginosas - os trabalhos de Masters e Johnson, K. Millett, M. J. Sherfey mostram a mulher como "insa civel" -, torna-se para 
o homem uma companheira ameaadora, assusta dora e geradora de angstia: "O espectro da impotncia assombra a imagi nao contempornea" (C. N., p. 345), essa impotncia 
masculina que, se gundo os ltimos relatrios, aumentaria em razo do medo da mulher e da sexualidade libertada. Neste contexto, o homem nutre um dio desenfreado 
contra a mulher, como mostra o modo de tratamento desta nos filmes ac tuais, com a frequncia das cenas de violao (C. N., p. 324). Simultanea mente, o feminismo 
desenvolve na mulher o dio pelo homem, assimilando-o a um inimigo, fonte de opresso e de frustrao; com a mulher portadora de um nmero sempre crescente de exigncias 
relativas ao homem, que se acha incapaz de as satisfazer, o dio e a recriminao aumentam neste sexual warfare caracterstico do nosso tempo.
Chr. Lasch, rejeitando as teorias de Riesman e de Fromm, culpadas a seus olhos de terem exagerado a capacidade de socializao das pulses agressivas pela sociedade 
permissiva, limita-se a cair na representao domi nante, mass-meditica, do crescimento da violncia no mundo moderno: a guerra bate-nos  porta, vivemos em cima 
de um barril de plvora, basta ver o terrorismo internacional, os crimes, a insegurana nas cidades, a violncia racial nas ruas e nas escolas, os hold-up, etc. 
(C. N., p. 130). O estado de natureza de Hobbes encontra-se assim no termo da Histria: a burocracia, a proliferao das imagens, as ideologias teraputicas, o culto 
do consumo, as transformao da famlia, a educao permissiva engendraram uma estrutu ra da personalidade, o narcisismo, que  acompanhada por relaes huma nas 
cada vez mais brbaras e conflituais. S na os indivduos se tornam mais sociveis e cooperantes; por trs da fachada de hedonismo e de solicitude, cada indivduo 
explora cinicamente os sentimentos dos outros e procura o seu prprio interesse sem qualquer preocupao com as geraes futuras. Curiosa concepo a deste narcisismo, 
apresentado como estrutura psquica indita e que, de facto, se v repescado pelas redes do "amor pr prio" e do desejo de reconhecimento j identificados por Hobbes, 
Rousseau e Hegel como responsveis pelo estado de guerra. Se o narcisismo representa realmente um novo estdio do individualismo -  esta hiptese que  fru tuosa 
nos trabalhos americanos actuais, muito mais do que os seus conte
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dos demasiado tendentes a um catastrofismo simplista -,  necessrio esta belecermos que acompanha uma relao original com o Outro, do mesmo modo que dela decore 
uma relao indita com o corpo, o tempo, o afecto, etc.
Esta transformao da dimenso intersubjectiva  j amplamente mani festa, tanto no que se refere ao espao pblico como ao espao privado. O primado da sociabilidade 
pblica e a luta em torno dos signos manifestos do reconhecimento comeam a apagar-se em correlao com o desenvolvimento da personalidade psi. O narcisismo tempera 
a selva humana pelo desinvesti mento que opera das categorias e hierarquias sociais, pela reduo do desejo de ser admirado e invejado pelos semelhantes. Profunda 
revoluo silenciosa da relao interpessoal: o que actualmente importa  que o indivduo seja absolutamente ele prprio, que se realize em pleno e independentemente 
dos critrios do Outro; o sucesso visvel, a busca de uma cotao honorfica ten dem a perder o seu poder de fascnio, o espao da rivalidade inter-humana d lugar 
pouco a pouco a uma relao pblica neutra em que o Outro, esva ziado de toda a espessura, j no  hostil nem concorrencial, mas indiferen te, dessubstancializado, 
no rasto das personagens de Wim Wenders e P. Handke. Enquanto o interesse e a curiosidade pelos problemas pessoais do Outro, ainda que este seja um estranho para 
mim, no pram de crescer (sucesso do "correio sentimental", das confidncias radiodifundidas, das biografias), como  natural numa sociedade baseada no indivduo 
psicolgi co, o Outro como plo de referncia annimo v-se desafectado do mesmo modo que as instituies e os valores superiores. Sem dvida, a ambio so cial 
est longe de se ter esbatido identicamente para todos: assim, categorias inteiras (dirigentes e quadros de empresas, homens polticos, artistas, inteili gentsia) 
continuam a lutar rudemente pela conquista do prestgio, da glria ou do dinheiro; mas quem no v ao mesmo tempo que se trata, antes do mais, de grupos pertencentes, 
em graus diversos, quilo a que podemos cha mar de facto uma "elite" social, que se reserva de algum modo o privilgio de reintroduzir um ethos de rivalidade necessrio 
aos desenvolvimentos das nossas sociedades? Em contrapartida, para um nmero crescente de indiv duos, o espao pblico j no  o teatro em que se agitam as paixes 
"arri vistas"; fica somente a vontade que o indivduo nutre de se realizar  parte e de se integrar em crculos conviviais ou calorosos, que se transformam nos satlites 
psi de Narciso, nas suas conexes privilegiadas: a decadncia da in tersubjectividade pblica no conduz apenas  relao de si para consigo,
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caminha a par tambm do investimento emocional dos espaos privados que, por ser instvel, no  menos efectivo. E deste modo que, curto-circuitando o desejo de 
reconhecimento, temperando os desejos de asceno social, o narcisismo prossegue de maneira diferente, a partir do interior, o processo de igualizao das condies. 
O homo psychologicus aspira menos a iar-se acima dos outros do que a viver num meio ambiente distendido e comunica tivo, em atmosferas "sim sem elevao nem pretenses 
excessivas. O culto do relacional personaliza ou psicologiza as formas de sociabilidade, desfaz as ltimas barreiras annimas que separam os homens, e, agindo as 
sim,  um agente da revoluo democrtica que trabalha continuamente pa ra a dissoluo das distncias sociais.
Sendo assim,  bvio que a luta pelo reconhecimento no desaparece; mais precisamente, privatiza-se, manifestando-se com prioridade nos circui tos ntimos, nos problemas 
relacionais; o desejo de reconhecimento foi colo nizado pela lgica narcsica, transistoriza-se, tornando-se cada vez menos competitivo, cada vez mais esttico, 
ertico, afectivo. O conflito das cons cincias personaliza-se;  menos a classificao social que est em jogo do que o desejo de agradar, de seduzir e, durante 
o mximo de tempo possvel; o desejo tambm de ser ouvido, aceite, tranquilizado, amado. E por isso que a agressividade dos seres, a dominao e a servido se lem 
hoje menos nas relaes e conflitos sociais do que nas relaes sentimentais de pessoa a pes soa. Por um lado, a cena pblica e os comportamentos individuais no 
p- ram de se pacificar atravs da auto-absoro narcsica; por outro lado, o es pao privado psicologiza-se, perde as suas amarras convencionais e torna-se uma 
dependncia narcsica onde cada um no descobre mais do que aquilo que "deseja": o narcisismo no significa a forcluso de outrem, designa a transcrio progressiva 
das realidades individuais e sociais no cdigo da sub jectividade.
A despeito das suas declaraes de guerra estrondosas e do seu apelo  mobilizao geral, o neo-feminismo, pelo seu lado, no descobre a sua ver dade nesta intensificao, 
afinal superficial, da luta dos sexos. A relao de foras que parece hoje definir as relaes entrL os sexos  talvez o ltimo sobressalto da diviso tradicional 
dos sexos e simultaneamente o signo do seu apagamento. A exacerbao do conflito no  o essencial e circunscre ver-se- provavelmente s geraes "intermdias", 
que foram sacudidas e se viram desconcertadas pela revoluo feminista. Estimulando uma interroga o sistemtica sobre a "natureza" e o estatuto da mulher, procurando 
a
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identidade perdida desta ltima, recusando toda e qualquer posio pr- estabelecida, o feminismo desestabiliza as oposies reguladas e confunde os pontos de referncia 
estveis: comea verdadeiramente o fim da antiga divi so antropolgica e dos seus conflitos concomitantes. No a guerra dos se xos, mas ofim do mundo do sexo e 
das suas oposies codificadas. Quanto mais o feminismo questiona o ser do feminino, mais este se apaga e perde na incerteza; quanto mais a mulher faz cair muralhas 
inteiras do su estatu to tradicional, mais a prpria virilidade perde a sua identidade. s classes relativamente homogneas do sexo, substituem-se indivduos cada 
vez mais aleatrios, combinaes at agora improvveis de actividade e de passivida de, mirades de seres hbridos sem pertena forte de grupo.  a identidade pessoal 
que se torna problemtica, e  no sentido de que o indivduo seja ele prprio, para alm das oposies constitudas do mundo do sexo, fundamen talmente trabalhadas 
pelo neo-feminismo. Ainda que consiga, por muito tempo ainda, mobilizar o combate das mulheres atravs de um discurso mi litar e unitrio, todos poderemos ver j 
que a parada se situa alhures: um pouco por toda a parte, as mulheres renem-se entre elas, falam, escrevem, liquidando com esse trabalho de auto-consciencializao, 
a sua identidade de grupo, o seu pretenso narcisismo de outrora, essa eterna "vaidade corpo ral" que Freud lhes atribua ainda. A seduo feminina, misteriosa ou 
hist rica, d lugar a uma auto-seduo narcsica que homens e mulheres parti lham por igual, seduo fundamentalmente transsexual,  margem das dis tribuies e 
atribuies de sexo. A guerra entre os sexos no ter lugar: lon ge de ser uma mquina de guerra, o feminismo  muito mais uma mquina de desestandardizao do sexo, 
uma mquina que se aplica  reproduo alargada do narcisismo.
24 000 watts
 guerra de cada um contra todos acrescenta-se uma guerra interior con duzida e amplificada pelo desenvolvimento de um Supereu duro e punitivo, resultando das transformaes 
da famlia, comd a "ausncia" do pai e a de pendncia da me relativamente aos especialistas e conselheiros psicopedag gicos (C. N., cap. VII). O "desaparecimento" 
do pai, por motivo da frequn cia dos divrcios, leva a criana a imaginar a me como castradora do pai: 
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nestas condies que o filho alimenta o sonho de substituir o pai, de ser o falo, conquistando a celebridade ou ligando-se queles que representam o sucesso. A educao 
permissiva, a socializao crescente das funes paren tais, que tornam difcil a interiorizao da autoridade familiar, no des troem, contudo, o Supereu: transformam 
o seu contedo num sentido cada vez mais "ditatorial" e mais feroz (C., N., p. 305). O Supereu apresenta-se actualmente sob a forma de imperativos de celebridade, 
de sucesso, que, se no forem cumpridos, desencadeiam uma crtica implacvel contra o Eu. Assim se explica a fascinao exercida pelos indivduos clebres, estrelas 
e dolos, vivamente estimulada pelos media que "intensificam os sonhos narci sicos de celebridade e de glria, encorajam o homem da rua a identificar-se com as estrelas, 
a odiar o 'rebanho', tornando-lhe mais difcil de aceitar a banalidade da existncia quotidiana" (C. N., pp. 55-56): a Amrica tornou- se uma nao de fs. Do mesmo 
modo que a proliferao dos conselheiros mdico-psicolgicos destri a confiana dos pais na sua capacidade educati va e aumenta a sua ansiedade, assim as imagens 
da felicidade associadas s da celebridade tm como efeito engendrar novas dvidas e angstias. Acti vando o desenvolvimento de ambies desmedidas e tornando o 
seu cumpri mento impossvel, a sociedade narcsica favorece a auto-acusao e o despre zo do indivduo por si prprio. A sociedade hedonista s em superfcie en 
gendra a tolerncia e a indulgncia; na realidade, nunca a ansiedade, a in certeza, a frustrao conheceram maiores propores. O narcisismo nutre-se mais de dio 
do que de admirao pelo Eu (C. N., p. 72).
Culto da celebridade? Mas o que  muito mais significativo , pelo con trrio, a queda de venerao que sofrem as vedetas e os grandes deste mun do. O destino das 
"estrelas" de cinema corre paralelamente ao dos grandes dirigentes polticos e pensadores "filosficos". As figuras imponentes do sa ber e do poder extinguem-se, 
pulverizadas por um processo de personaliza o que no pode tolerar por mais tempo a manifestao ostentatria de tal desigualdade, de semelhante distncia. O mesmo 
momento assiste  dissolu o dos discursos sagrados marxistas e psicanalticos, o fim dos gigantes his tricos, o fim das estrelas pelas quais se cometiam suicdios 
e simultanea mente a multiplicao dos pequenos mestres de pensamento, o silncio do psicanalista, as estrelas de um Vero, as cavaqueiras intimistas dos homems 
polticos. Tudo o que designa um absoluto, uma altura demasiado imponen te desaparece, as celebridades perdem a sua aura, enquanto a sua capacida de de galvanizar 
as massas se embota. As vedetas no ocupam j por muito
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tempo o cartaz, porque as novas "revelaes" eclipsam as de ontem segundo a lgica da pejsonalizao, a qual  imcompatvel com a sedimentao, sempre susceptvel 
de reproduzir uma sacralidade impessoal. A obsolescn cia dos objectos responde a obsolescncia das estrelas e dos gurus; a perso nalizao implica a multiplicao 
e a acelerao na rotao ds "presenas na primeira pgina" a fim de que nenhuma figura possa erigir-se em dolo inumano, em "monstro sagrado". E atravs do excesso 
de imagens e da sua celeridade que se realiza a personalizao: a "humanizao" surge com a in fiao galopante da moda. Assim h cada vez mais "vedetas" e cada 
vez me nos investimento emocional que as vise; a lgica da personalizao gera uma indiferena pelos dolos feita de atraco passageira e de desafeco instan tnea. 
O tempo presta-se menos  devoo pelo Outro do que  realizao e
transformao de si prpio, como afirmam, cada um na sua linguagem e em graus diversos, os movimentos ecolgicos, o feminismo, a cultura psi, a edu cao coo! das 
crianas, a moda "prtica", o trabalho intermitente ou a tem po parcial.
Dessubstancializao das grandes figuras da Alteridade e do Imaginrio, concomitante de uma dessubstancializao do real atravs do mesmo proces so de acumulao 
e de acelerao. Por toda a parte o real deve perder a sua dimenso de alteridade ou de espessura selvagem: restaurao dos bairros antigos, proteco dos locais, 
animao das cidades, iluminao artificial, "planos paisagisticos", ar condicionado,  preciso salubrizar o real, expurg lo das suas ltimas resistncias, tornando-o 
um espao sem sombra, aberto e personalizado. Ao princpio de realidade substituiu-se o princpio de trans parncia que transforma o real num lugar de trnsito, 
num territrio onde a deslocao  imperativa: a personalizao  um pr em circulao. Que di zer desses subrbios interminveis dos quais s  possvel fugir? 
Climatiza do, sobressaltado por informaes, o real torna-se irrespirvel e condena ci clicamente  viagem: "mudar de ares", ir no importa onde, mas sair do lu 
gar onde se est, tudo isto traduz essa indiferena de que o real se encontra doravante afectado. Todo o nosso ambiente urbano e tecnolgico (parques de estacionamento 
subterrneos, galerias de lojas, auto-estradas, arranha- cus, desaparecimento das praas pblicas nas cidades, avies a jacto, auto mveis, etc.) se encontra organizado 
de modo a acelerar a circulao dos in divduos, a entravar a fixao e, portanto, a pulverizar a socialidade: "O es pao pblico tornou-se um produto derivado do 
movimento" (T. L, p. 23); as nossas paisagens "desenferrujadas pela velocidade", como bem diz Vinho,
A Era do Vazio
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perdem a sua consistncia ou ndice de realidade Circulao, informao, iluminao trabalham para uma mesma anemizao do real, o que por sua vez refora o investimento 
narcsico: uma vez tornado inabitvel o real, resta a retraco sobre si prprio, o refgio autrcico, bem ilustrado pela nova va ga dos decibis, auscultadores 
e concertos pop. Neutralizar o mundo pela fora do som, fechar-se em si prprio, descarregar e sentir o corpo aos rit mos dos amplificadores, eis que hoje os rudos 
e vozes da vida se transfor maram em parasitas:  preciso que o indivduo se identifique com a msica e esquea a exterioridade do real. Actualmente -nos dado observar 
o se guinte: adeptos dojogging e do ski praticando os seus desportos com auscul tadores estereo directamente aplicados nos tmpanos, carros equipados com colunas 
e amplificador de 100 W, discotecas de 4000 W, concertos pop onde a aparelhagem de som atinge os 24 000 W, toda uma civilizao que fabri ca, como recentemente se 
lia em ttulo em Le Monde, uma "gerao de sur dos", uma vez que h jovens que perderam j 50 por cento da sua capacida de auditiva. Surge uma nova indiferena ante 
o mundo, j nem sequer acompanhada pelo xtase narcsico da contemplao de si prprio; hoje Nar ciso descarrega, cercado de amplificadores, com um capacete de auscultado 
res, auto-suficiente na sua prtese de sons "graves".
O vazio
"Se eu ao menos pudesse sentir alguma coisa!": esta frmula traduz o "novo" desespero que fere um nmero cada maior de sujeitos. Sobre este ponto, o acordo dos psi 
parece unnime: desde h vinte e cinco ou trinta anos, so as desordens de tipo narcsico que constituem a maior parte das perturbaes psquicas tratadas pelos 
terapeutas, enquanto as neuroses "clssicas" do sculo XIX, histerias, fobias, obsesses, a partir das quais a psicanlise deitou corpo, j no representam a forma 
predominante dos sin tomas (T. 1., p. 259 e C. N., pp. 88-89). As perturbaes narcisicas apresen tam-se menos sob a forma de perturbaes com sintomas nitidos e 
bem defi nidos do que sob a forma de "perturbaes caracteriais", caracterizadas por um mal-estar difuso e invasor, um sentimento de vazio interior e de absurdo
P. Vinho, "Un confort subliminal", Traverses n. 14-IS, p. 159. Sobre a "imposio de
mobilidade", ver igualmente P. Vinho, Vitesse et politique, Gahile, 1977.
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Guies Lipovetsky
da vida, uma incapacidade de sentir as coisas e os seres. Os sintomas neur ticos que correspondiam ao capitalismo autoritrio e puritano deram lugar, sob impulso 
da sociedade permissiva, a desordens narcsicas, informes e in termitentes. Os pacientes j no sofrem de sintomas fixos, mas de perturba es vagas e difusas; a 
patologia mental obedece  lei do tempo cuja tendn cia  para a reduo da rigidez bem como para a diluio dos pontos de refe rncia estveis:  crispao neurtica 
substituiu-se a flutuao narcsica. Im possibilidade de sentir, vazio emotivo, a dessubstancializao toca aqui o seu termo, revelando a verdade do processo narcsico 
como estratgia do vazio.
Mais ainda: segundo Chr. Lasch seria a um desprendimento emocional que os indivduos cada vez mais aspirariam, em razo dos riscos de instabili dade que as relaes 
pessoais conhecem nos nossos dias. Ter relaes inte rindividuais sem ligao profunda, no se sentir vulnervel, desenvolver a sua independncia afectiva, viver 
sozinho tal seria o perfil de Narciso (C. N., p. 339). O medo de ser decepcionado, o medo das paixes incontro ladas, traduz ao nvel subjectivo o que Chr. Lasch 
chama the flight from feeling - " a fuga diante do sentimento " -, processo que se manifesta tanto na proteco ntima como na separao, que todas as ideologias 
"progressis tas" pretendem realizar, entre o sexo e o sentimento. Quando se prega o coo! sex e as relaes livres, quando se condenam o cime e a possessivida de, 
trata-se de facto de climatizar o sexo, de o expurgar de toda a tenso
emocional e de conseguir assim um estado de indiferena, de desprendimen to, no s a fim de o indivduo se proteger contra as decepes amorosas, mas tambm contra 
os seus prprios impulsos, que podem sempre ameaar o seu equilbrio interior (C. N., p. 341). A libertao sexual, o feminismo, a pornografia trabalham para um 
mesmo fim: erguer barreiras contra as emo es e manter afastadas as intensidades afectivas. Fim da cultura sentimen tal, fim do happy end, fim do melodrama e emergncia 
de uma cultura coo! onde cada um vive no seu bunker de indiferena, ao abrigo das suas paixes e das dos outros.
Certamente Chr. Lasch tem razo ao sublinhar o refluxo da moda "senti mental", uma vez que esta se mostra destronada pelo sexo, pela fruio, pe Entre 1970 e 1978, 
o nmero de Americanos entre os catorze e os trinta e quatro anos
que vivem ss,  margem de qualquer situao familiar, quase triplicou, passand de um mi lho e meio para 4 300 000. "Hoje, 20 por cento dos lares americanos reduzem-se 
a uma pessoa que vive s... perto de um quinto dos compradores so actualmente celibatrios" (Alvin Toffler, La Troisime Vague, Denoel, 1980, p. 265).
A Era do Vazio
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la autonomia, pela violncia espectacular. A sentimentalidade sofreu o mes mo destino que a morte; torna-se incmodo exibir os prprios afectos, decla rar ardentemente 
o fogo ntimo, chorar, manifestar com demasiada nfase os impulsos internos. Tal como a morte, a sentimentalidade tornou-se emba raosa;  preciso ser-se digno em 
matria de afecto, quer dizer: discreto. Mas longe de designar um processo annimo de desumanizao, o "senti mento interdito"  um efeito do processo de personalizao, 
que trabalha aqui na irradicao dos signos rituais e ostentatrios do sentimento. O senti mento deve chegar ao seu estdio personalizado, eliminando os sintagmas 
inteiriados, a teatralidade melodramtica, o kitsch convencional. O pudor sentimental  exigido por um princpio de economia e de sobriedade, consti tutivo do processo 
de personalizao. Deste modo,  menos a fuga perante o sentimento que caracteriza o nosso tempo do que a fuga perante os signos da sentimentalidade. No  verdade 
que os indivduos procurem um ds prendimento emocional e se protejam contra a irrupo do sentimento; a es se inferno povoado de mnadas insensveis e independentes, 
devemos opor os clubes de encontros, os "pequenos anncios", a "rede", todos esses milhes e milhes de esperanas de encontros, de ligaes, de amor, que precisamente 
se realizam com cada vez mais dificuldade. E aqui que o drama  mais pro fundo do que o pretenso desprendimento coo!: homens e mulheres conti nuam a aspirar tanto 
como antes (ou talvez nunca tenha havido at tanta "procura" afectiva como nesta poca de desero generalizada)  intensidade emcional de relaes privilegiadas, 
mas quanto mais forte  a expectativa mais raro parece tornar-se o milagre fusional, ou, em todo o caso, mais bre ve Quanto mais a cidade desenvolve as possibilidades 
de encontros, mais ss se sentem os indivduos; quanto mais livres e emancipadas das coaces antigas as relaes se tornam, mais rara se faz a possibilidade de 
conhecer uma relao intensa. Por toda a parte encontramos a solido, o vazio, a difi culdade de sentir, de ser transportado para fora de si; de onde uma fuga pa 
ra a frente de "experincias", que mais no faz do que traduzir esta busca de uma "experincia" emocional forte. Porque no posso amar e vibrar? De
O processo de desestandardizao precipita o curso das "aventuras", uma vez que as rela es repetitivas, com a sua inrcia ou o seu peso, ofendem a disponibilidade 
e a "personalidade" viva do sujeito. Frescura de viver,  preciso reciclar os afectos, deitar fora tudo o que envelhece:
nos sistemas desestabilizados, a nica "ligao perigosa"  uma ligao indefinidamente prolon gada. Da uma queda e uma alta de tenso cclica: do stress  euforia, 
a existncia torna-se sis mogrfica (cf. Manhattan de Woody Alien).
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solao de Narciso, demasiado bem programado na sua absoro em prprio para poder ser afectado pelo Outro, para sair de si - e, no entani insuficientemente programado, 
pois que deseja ainda um mundo relacior afectivo.



CAPITULO IV
Modernismo e ps-modernismo
Surgida ao longo da ltima dcada na cena artstica e intelectual e no escapando inteiramente a um efeito de moda, a noo sem dvida equvoca de ps-modernismo 
apresenta, no entanto, como principal ponto de interes se, o de convidar, por oposio s sempre estrondosas proclamaes da en sima novidade decisiva, a um regresso 
prudente s nossas origens, a uma perspectivao histrica do nosso tempo, a uma interpretao em profundi dade da era de que parcialmente estamos a sair, mas que, 
sob muitos aspec tos, continua a sua obra, por muito que isso desagrade aos arautos ingnuos do corte absoluto. Se uma nova poca da arte, do saber e da cultura 
se anuncia, impe-se a tarefa de determinar o que foi o ciclo anterior, a novi dade requer aqui a memria, a ordenao cronolgica, a genealogia.
Ps-moderno: no mnimo, dir-se- que, no se trata de uma noo clara, remetendo antes para nveis e esferas de anlise que  por vezes difcil fazer coincidir. 
Esgotamento de uma cultura hedonista e vanguardista ou emer gncia de uma nova potncia inovadora? Decadncia de uma poca sem tra dio ou revitalizao do presente 
atravs de uma reabilitao do passado? Continuidade de uma nova espcie na trama modernista ou descontinuida de? Peripcia na histria da arte ou destino global 
das sociedades democrti cas? Recusnio-nos aqui a circunscrever o ps-modernismo a um quadro re gional, esttico, episteniolgico ou cultural: se surge uma ps-modernidade.
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esta deve designar uma vaga profunda e geral  escala do todo social, pois
que  certo que vivemos num tempo em que s oposies rgidas se esbatem e as preponderncias se tornam frouxas, em que a inteligncia do momento exige que se sublinhem 
correlaes e homologias. Elevar o ps-modernismo  categoria de uma hiptese global, dando nome  passagem lenta e comple xa para um novo tipo de sociedade, de 
cultura e de indivduo, que nasce do interior e no prolongamento da era moderna; estabelecer o teor do moder nismo, as suas linhas genealgicas e as suas funes 
histricas principais; apreender a inverso de lgica que, pouco a pouco, se operou ao longo do sculo XX, em proveito de um predomnio cada vez mais acentuado dos 
sis temas flexveis e abertos, tal foi o objectivo, que aqui vismos, tomando por fio de Ariana as anlises de Daniel BelI, cuja mais recente obra traduzida para 
o francs oferece o mrito incomparvel de fornecer uma teoria geral do funcionamento do capitalismo justamente  luz do modernismo e do seu "ps". Este livro, ao 
contrrio do anterior 2, no teve em Frana um eco po sitivo: sem dvida que as suas posies neo-conservadoras e puritanas no so estranhas a este acolhimento 
reservado. Mas mais ainda, o livro ressen te-se da falta de construo, da rapidez da argumentao, do aspecto por vezes catico das anlises, factores que incontestavelmente 
prejudicam a maior parte das suas ideias estimulantes e sob muitos aspectos incontorn veis. Sejam quais forem os seus defeitos, esta obra traz ar fresco, interroga 
o papel da cultura relativamente  economia e  democracia, arranca a inter pretao da cultura aos compartimentos estanques da erudio microscpi ca, aplica-se 
 elaborao de uma teoria que articula a arte e o modo de vi da no que se refere s sociedades capitalistas avanadas; perante a fragmen tao extrema do saber 
sociolgico e ao retraimento constante das nossas perspectivas acerca do mundo actual, torna-se necessrio examinarmos de perto as teses de Daniel Beil, dando-lhes 
todo o desenvolvimento que mere cem, embora,  certo, para assinalar insistentemente tudo o que dele nos se para.
A cultura antinomiana
Desde h mais de um sculo, o capitalismo encontra-se dilacerado por uma crise cultural profunda, aberta, que podemos resumir numa palavra: o
Les Contradictions cuitureiles du capitalisme, traduo de M. Matignon, PUF, 1979. No texto, os nmeros entre parntesis remetem para as pginas desta edio da 
obra.
2 Vers la societ post -industriei/e, traduo de P. Andier, Laffont, 1976.
modernismo, ou seja essa nova lgica artstica baseada em rupturas e des continuidades, assentando na negao da tradio, no culto da novidade e da mudana. O cdigo 
do novo e da actualidade descobre a sua primeira formulao terica em Baudelaire, para quem o belo  inseparvel da mo dernidade, da moda, do contingente 1; mas 
, sobretudo, entre 1880 e 1930 que o modernismo ganha toda a sua amplitude com o abalar do espao da representao clssica, com a emergncia de uma escrita desprendida 
das imposies da significao codificada, e depois com as exploses dos grupos e artistas de vanguarda. A partir de ento, os artistas no pram de destruir as 
formas e sintaxes institudas, insurgem-se violentamente contra a ordem oficial e o academismo: dio  tradio e raiva de renovao total. Sem d vida, todas as 
grandes obras artsticas do passado inovaram sempre de uma maneira ou de outra, introduzindo aqui e ali a derrogao dos cnones em vigor, mas  apenas neste fim 
de sculo que a mudana se torna revoluo, ruptura clara na trama do tempo, descontinuidade entre um antes e um de pois, afirmao de uma ordem resolutamente outra. 
O modernismo no se contenta com produzir variaes estilsticas e temas inditos, quer romper a continuidade que nos liga ao passado, instituir obras absolutamente 
novas. Mas o mais notvel ainda  que a raiva modernista desqualifica, no mesmo impulso, as obras mais modernas: as obras de vanguarda, logo depois de produzidas, 
tornam-se retaguarda e afundam-se no dj-vu; o modernismo probe o estacionamento, impe a inveno perptua, a fuga para diante, e  essa a "contradio" que lhe 
 imanente: "A modernidade  uma espcie de auto-destruio criadora.., a arte moderna no  somente filha da idade critica, mas crtica de si prpria" Adorno dizia-o 
de outra maneira: o mo dernismo define-se menos por declaraes e manifestos positivos do que por um processo de negao sem limites e que, por isso, no se poupa 
a si prprio: a "tradio do novo" (H. Rosenberg), frmula paradoxal do moder nismo, destri e desvaloriza inelutavelmente aquilo que institui, o novo incli na-se 
de pronto na direco do antigo, nenhum contedo positivo  j afir mado, sendo a prpria forma da mudana o nico princpio que governa a arte. O indito tornou-se 
o imperativo categrico da liberdade artstica.
1 Sobre Baudelaire e a modernidade, ver H. R. Jauss, Pour une estht de ia r Gailimard, 1978, pp. 197-209.
2 O. Paz, Points de convergence. Gallimard, 1976, p. 16.
T. W. Adorno, Th esthtique. Klincksieck, 1974, p. 35.
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A esta contradio dinmica do modernismo criativo seguiu-se uma fase no menos contraditria, mas, para alm disso, fastidiosa e esvaziada de to da a originalidade, 
O dispositivo modernista que se incarnou de modo ex emplar nas vanguardas encontra-se hoje exausto, ou, mais exactamente, aos olhos de Daniel Bel!, tal  a sua condio 
desde h meio sculo. As vanguar das no pram de girar no vazio, incapazes de inovao artstica maior. A negao perdeu o seu valor criador, os artistas mais no 
fazem do que re produzir e plagiar as grandes descobertas do primeiro tero do sculo, entr mos naquilo a que D. Bel! chama o ps-modernismo, fase de declnio da 
criatividade artstica, a que j no resta mais do que uma explorao extre mista dos princpios modernistas. Da a contradio de uma cultura cujo fito  gerar 
sem interrupo o absolutamente outro e que, no termo do seu pro cesso, produz o idntico, o estereotipo, uma repetio tristonha. Neste pon to, D. BelI adopta o 
juzo de O. Paz, ainda que faa recuar o momento da crise: desde h anos, as negaes da arte moderna "so repeties rituais: a rebelio torna-se procedimento tcnico, 
a crtica retrica, a transgresso ce rimonial. A negao deixou de ser criadora. No digo que estejamos a viver o fim da arte: vivemos o fim da ideia de arte moderna" 
Esgotamento da vanguarda que no se explica nem a partir do "oficio perdido" nem a partir da "sociedade tcnica": a cultura do sem-sentido, do grito, do rudo, no 
corresponde ao processo tcnico, ainda que como seu duplo negativo; no  imagem do imprio da tcnica que " por si evacuadora de todo o sentido"
D. Bel! observa com justeza que nas nossas sociedades, as transformaes tecno-econmicas no determinam as transformaes culturais, e o ps- modernismo no  o 
reflexo da sociedade ps-industrial. O impasse da van guarda liga-se ao modernismo, a uma cultura radicalmente individualista e extremista, no fundo suicidria, 
que afirma a inovao como nico valor. O marasmo ps-moderno resulta apenas da hipertrofia de uma cultura finaliza da pela negao de toda a ordem estvel.
O modernismo no  s rebelio contra si prprio,  simultaneamente re volta contra todas as normas e valores da sociedade burguesa: a "revoluo cultural" comea 
aqui, neste fim do sculo XIX. Longe de reproduzirem os valores da classe economicamente dominante, os inovadores artsticos da se-
1 O. Paz, op. cit., p. 190.
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gunda metade do sculo XIX e do sculo XX far-se-o porta-vozes, nisso se inspirando no romantismo, de valores assentes na exaltao do eu, na auten ticidade e no 
prazer, valores directamente hostis aos costumes da burguesia, centrados estes no trabalho, na poupana, na moderao, no puritanismo. De Baudelaire a Rimbaud e 
a Jarry, de V. Woolf a Joyce, de Dada ao Sur realismo, os artistas inovadores radicalizam as suas crticas s convenes e instituies sociais, tornam-se adversrios 
encarniados do esprito burgus, desprezando o seu culto do dinheiro e do trabalho, o seu ascetismo, o seu racionalismo estreito. Viver com o mximo de intensidade, 
"desregramento de todos os sentidos", seguir os impulsos e a imaginao, abrir o campo das prprias experincias, "a cultura modernista  por excelncia uma cultura 
da personalidade. Tem por centro o 'eu'. O culto da singularidade comea com Rousseau" (p. 141) e prolonga-se com o romantismo e o seu culto da paixo. Mas a partir 
da segunda metade do sculo XIX, o processo adquire uma fei o agnica, as normas da vida burguesa tornam-se objecto de ataques cada vez mais virulentos por parte 
de uma bomia revoltada. Assim surge um in dividualismo ilimitado e hedonista, realizando o que a ordem mercantil contrariara: "Enquanto a sociedade burguesa introduzia 
um individualismo radical no domnio econmico e estava pronta a suprimir todas as relaes sociais tradicionais, temia as experincias do individualismo moderno 
no domnio da cultura" (p. 28). Se a burguesia revolucionou a produo e as trocas, em contrapartida, a ordem cultural em que se desenvolveu continuou a ser disciplinar, 
autoritria e, se nos ativermos aos EUA, mais precisamen te, puritana. E esta moral protestante-asctica que sofrer, no decurso dos primeiros anos do sculo XX, 
a ofensiva dos artistas inovadores.
Mas  com o aparecimento do consumo de massa nos EUA, nos anos vinte, que o hedonismo, at ento apangio de uma pequena minoria de ar tistas ou de intelectuais, 
se tornar o comportamento geral na vida corrente;  a que reside a grande revoluo cultural das sociedades modernas. Se en cararmos a cultura na perspectiva do 
modo de vida, ser o prprio capitalis mo e no o modernismo artstico o arteso principal da cultura hedonista. Com a difuso a grande escala de objectos considerados 
at ento como ob jectos de luxo, com a publicidade, a moda, o mass-media e sobretudo o crdito, cuja instituio mina directamente o princpio de poupana, a mo 
ral puritana cede lugar a valores hedonistas que encorajam a gastar, a gozar a vida, a obedecer aos impulsos: a partir dos anos cinquenta, a sociedade americana 
e mesmo a europeia passam a gravitar em boa medida em torno
2 J Eliul, L 'Empire du non -sena, PUF, 1980, p. 96.
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do culto do consumo, dos tempos livres e do prazer. "A tica protestante foi minada no pelo modernismo, mas pelo prprio capitalismo. O maior ins trumento de destruio 
da tica protestante foi a inveno do crdito. Ante riormente, para comprar era preciso comear por economizar. Mas com um carto de crdito, era possvel satisfazer 
imediatamente os desejos" (p. 31). O estilo de vida moderno resulta no s das transformaes de sensibilidade impulsionadas pelos artistas desde h mais de um sculo, 
mas, mais profun damente ainda, pelas transformaes do capitalismo desde h sessenta anos.
Instalou-se, portanto, sob o efeito conjugado do modernismo e do consu mo de massa, uma cultura centrada na realizao do eu, na espontaneidade e na fruio: o hedonismo 
torna-se o "princpio axial" da cultura moderna, e entra a partir da em oposio aberta com a lgica do econmico e do polti co - eis a hiptese geral que orienta 
as anlises de D. BelI. A sociedade moderna est clivada, j no possui um carcter homogneo e apresenta-se como a articulao complexa de trs ordens distintas, 
a tecno-econmica, a do regime poltico e a da cultura, obedecendo cada uma delas a um princ pio axial diferente, ou at contrrio. Estas esferas "no esto em 
conformi dade umas com as outras e tm diferentes ritmos de transformao. Obede cem a normas diferentes que justificam comportamentos diferentes e mesmo opostos. 
So as discordncias entre estas esferas que so responsveis pelas diversas contradies da sociedade" (pp. 20-21). A ordem "tecno-econmica" ou "estrutura social" 
(organizao da produo, tecnologia, estrutura socio profissional, repartio dos bens e servios)  regida pela racionalidade fun cional, quer dizer pela eficcia, 
pela meritocracia, pela utilidade, pela pro dutividade. Em compensao, o princpio fundamental que regula a esfera do poder e a justia social  a igualdade: a 
exigncia de igualdade no pra de se alargar (pp. 269-278); no se refere j apenas  igualdade de todos pe rante a lei, ao sufrgio universal,  igualdade das 
liberdades pblicas, mas  "igualdade dos meios" (reivindicao da igualdade de oportunidades, explo so dos novos direitos sociais relativos  instruo,  sade, 
 segurana eco nmica) e at  "igualdade dos resultados" (exames especiais para as mino rias a fim de remediar a disparidade dos resultados, exigncia de uma igual 
participao de todos nas decises respeitantes ao funcionamento dos hospi tais, universidades, jornais ou bairros:  a poca da "democracia de partici pao"). 
Daqui decorre uma "disjuno das ordens", uma tenso estrutural entre trs ordens assentes em lgicas antinmicas: o hedonismo, a eficcia, a igualdade. Nestas condies, 
temos que renunciar a considerar o capitalismo
moderno como um todo unificado, de acordo com as anlises sociolgicas dominantes: desde h um sculo, o divrcio entre as esferas cresce, nomea damente a disjuno 
entre a estrutura social e a "cultura antinomiana" da plena realizao da liberdade do eu torna-se cada vez mais profunda. En quanto o capitalismo se desenvolveu 
sob a gide da tica protestante, a or dem tecno-econmica e a cultura formavam um conjunto coerente, favorvel  acumulao do capital, ao progresso,  ordem social, 
mas  medida que o hedonismo se imps como valor ltimo e legitimao do capitalismo, este l timo perdeu o seu carcter de totalidade orgnica, o seu consenso. 
a sua vontade. A crise das sociedades modernas , antes do mais, cultural ou espi ritual.
Modernismo e valores democrticos
Para D. BeIl, a anlise do modernismo deve apoiar-se em dois princpios solidrios. Por um lado a arte moderna, definida como expresso do eu e re volta contra todos 
os estilos reinantes,  antinmica em relao s normas cardiais da sociedade, a eficcia e a igualdade. Por outro lado, por motivo desta discordncia,  vo querermos 
dar conta da natureza do modernismo em termos de reflexo social ou econmico: "As ideias e as formas resultam de uma espcie de dilogo com as ideias e as formas 
anteriores, admitidas ou rejeitadas" (p. 64). Hostil s teorias organicistas e marxistas, D. BeIl descreve o funcionamento heterogneo das sociedades democrticas, 
as lgi cas adversas que as dilaceram, a autonomia e incompatibilidade das estrutu ras. Aqui reside o interesse desta anlise que multiplica os parmetros e re cusa 
as frmulas simples da modernidade; aqui se depara igualmente com o ponto fraco de uma problemtica que acusa excessivamente as descontinui dades e os antagonismos. 
Se nos ativermos a estas disjunes, de resto me nos estruturais do que fenomenolgicas, perdemos de vista a continuidade histrica em que se inscreve a cultura 
modernista e nomeadamente os laos que prendem  igualdade. E preciso sermos cautelosos perante as oposies irreconciliveis que o socilogo nos apresenta; s um 
corte histrico mais amplo permite avaliar o teor exacto das rupturas e descontinuidades. A an lise da sociedade moderna em termos de "disjuno das ordens" s 
parcial-
1 Vers la societpost-industrielle, op. cit., pp. 411-416.
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mente  exacta;  falta de uma temporalidade mais longa, acabamos por es quecer que o modernismo artstico e a igualdade, longe de serem discordan tes, fazem parte 
integrante de uma mesma cultura democrtica e individua lista.
O modernismo no  uma ruptura primeira e incomparvel: na sua raiva de destruir a tradio e de inovar radicalmente, o modernismo prossegue na ordem cultural, aps 
o intervalo de um sculo, a obra prpria das socieda des modernas visando instituir-se de modo democrtico. O modernismo  apenas uma face do vasto processo secular 
que conduz ao advento das socie dades democrticas assentes na soberania do indivduo e do povo, sociedades libertas da submisso aos deuses, das hierarquias hereditrias 
e da fora da tradio. Prolongamento cultural do processo que se manifestou com brilho na ordem poltica e jurdica no fim do sculo XVIII, culminar do empreen 
dimento revolucionrio democrtico, constituindo uma sociedade sem funda mento divino, pura expresso da vontade dos homens reconhecidos como iguais. Doravante a 
sociedade est votada a inventar-se por inteiro segundo a razo humana, no segundo a herana do passado colectivo, j nada  in tocvel, a sociedade apropria-se 
do direito de se conduzir a si prpria sem exterioridade, sem modelo decretado absoluto. No  precisamente esta mes ma destituio da preeminncia do passado que 
se encontra em aco na ofensiva dos artistas inovadores? Do mesmo modo que a revoluo democr tica emancipa a sociedade das foras do invisvel e do seu correlativo, 
o uni verso hierrquico, assim o modernismo artstico liberta a arte e a literatura do culto da tradio, do respeito pelos Mestres, do cdigo da imitao. Ar rancar 
a sociedade da sua subordinao s potncias fundadoras externas e no humanas, desligar a arte dos cdigos da narrao-representao:  a mesma lgica que actua, 
instituindo uma ordem autnoma cujo fundamento  o indivduo livre. "O que a nova arte busca  a inverso da relao entre o objecto e o quadro, a subordinao manifesta 
do objecto ao quadro", escre via Malraux aps Maurice Denis: o objectivo do modernismo  a "composi o pura" (Kandinsky), o acesso a um universo de formas, de sons, 
de senti dos, livres e soberanos, no submetidos a regras exteriores, sejam religiosas, sociais, pticas ou estilsticas. De modo algum em contradio com a ordem 
da igualdade, o modernismo  a continuao por outros meios da revoluo democrtica e do seu trabalho de destruio das formaes heternomas. O modernismo institui 
uma arte desligada do passado, soberanamente mestra de si prpria;  uma figura da igualdade, a primeira manifestao da de-
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mocratizao da cultura, ainda que possa surgir sob a feio elitista de uma arte separada das massas.
Vemos nestas condies o limite da abordagem sociolgica que analisa a arte como "prtica classificante", sistema regido por uma lgica da diferen ciao estatutria 
e da distino: a partir do fim do sculo XIX,  o processo modernista que esclarece a verdadeira funo da arte, no a imposio sim blica e social do reconhecimento 
e da diferena atravs do consumo cultu ral dos grupos. A escala da histria, a arte moderna no pode ser reduzida a uma ordem que distribui costados de nobreza 
cultural,  antes o meio de promover uma cultura experimental e livre, com as fronteiras em perptua deslocao, uma criao aberta e ilimitada, uma ordem de signos 
em revolu o permanente, ou, por outras palavras, uma cultura estritamente indivi dualista, a inventar por completo, paralelamente a um sistema poltico as sente 
unicamente na soberania das vontades humanas. O modernismo, vec tor da individualizao e do pr em circulao contnuo da cultura, instru mento de explorao de 
novos materiais, de novas significaes e combina es.
Do mesmo modo que a arte moderna prolonga a revoluo democrtica, prolonga tambm, a despeito do seu carcter subversivo, uma cultura indivi dualista j presente 
aqui e alm em numerosos comportamentos da segunda metade do sculo XIX e comeos do sculo XX: citemos, sem ordem, a bus ca do bem-estar e dos gozos materiais j 
assinalada por Tocqueville, a mul tiplicao dos "casamentos de inclinao" decididos por amor, o gosto nas cente pelo desporto, a esbelteza e as danas novas, a 
emergncia de uma moda vestimentar acelerada, mas tambm o aumento do suicdio e a dimi nuio das violncias interindividuais. O modernismo artstico no introduz 
uma ruptura absoluta na cultura; completa, na febre revolucionria, a lgica do mundo individualista.
O modernismo  de essncia democrtica: desliga a arte da tradio e da imitao, e simultaneamente inicia um processo de legitimao de todos os temas. Manet rejeita 
o lirismo das poses, os arranjos teatrais e majestosos, a pintura deixa de ter tema privilegiado, j no tem que idealizar o mundo, um modelo pode ser fraco e indigno, 
os homens podem mostrar-se de jaque tas e casacos pretos, uma natureza morta est em p de igualdade com um retrato e mais tarde, um esboo com um quadro. Com os 
Impressionistas, o anterior brilho dos temas d lugar  familiaridade das paisagens de subr bio,  simplicidade das margens da TIe-de-France, dos cafs, ruas e 
gares; os
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cubistas integraro nos seus quadros algarismos, letras, pedaos de papel, de vidro ou de ferro. Com o ready-made, importa que o objecto escolhido se ja absolutamente 
"indiferente", dizia Duchamp; o urinol, a prateleira de gar rafas entram na lgica do museu, ainda que para destruir ironicamente os seus alicerces. Mais tarde, 
os pintores pop, os Novos Realistas tomaro co mo tema objectos, signos e desperdcios do consumo de massa. A arte mo derna assimila progressivamente todos os temas 
e materiais, e fazendo-o pas sa a definir-se por um processo de dessublimao das obras, corresponden te exacto da dessacralizao democrtica da instncia poltica, 
da reduo dos signos de ostentao do poder, da secularizao da lei: intervm nos dois casos o mesmo trabalho de destituio das alturas e majestades da obra, 
to dos os temas so postos no mesmo plano, todos os elementos podem entrar nas criaes plsticas e literrias. Em Joyce, em Proust, em Faulkner, j no h qualquer 
momento privilegiado, todos os factos se equivalem e merecem ser descritos; "gostaria de fazer com que tudo entrasse neste romance", dizia Joyce a propsito de Ulisses, 
a banalidade, o insignificante, o trivial, as as sociaes de ideias so narradas sem juzo hierrquico, sem discriminao, em p de igualdade com o facto importante. 
Renncia  organizao hierr quica dos factos, integrao de todos os temas de toda e qualquer espcie, a significao imaginria da igualdade moderna anexou a 
operao artstica.
Mesmo os ataques contra as Luzes das vanguardas so ainda ecos da cul tura democrtica. Com Dada,  a prpria arte que se sabota e exige a sua prpria destruio. 
Trata-se de abolir o fetichismo artstico, a separao hie rrquica da arte e da vida em nome do homem total, da contradio, do processo criador, da aco, do acaso. 
Sabe-se que os Surrealistas, Artaud e depois os happenings, as aces de anti-arte, procuraro tambm superar a oposio entre a arte e a vida. Mas, ateno, este 
alvo constante do moder nismo, e no do ps-modernismo, como quer D. BeIl no  a insurreio do desejo, a desforra das pulses contra o quadriculado da vida moderna; 
 a ultura da igualdade que arruna inelutavelmente a sacralidade da arte e re 1 O processo de dessublimao tal como aqui o entendemos no corresponde ao sentido
que lhe d H. Marcuse. EmLHomme unidimensionnel (Ed. de Minuit, 1968), a dessublimao designa a integrao dos contedos de oposio da cultura superior no quotidiano, 
a assimila o e a banalizao das obras por uma sociedade que difunde em grande escala as mais altas realizaes: a liquidao de uma cultura distanciada em contradio 
com o real  corolrio da sociedade do centro comercial e da televiso. Na realidade, a dessublimao iniciou-se um scu lo mais cedo.
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valoriza correlativamente o fortuito, os rudos, os gritos, o quotidiano. A mais longo ou a mais breve prazo, tudo ganha dignidade, a cultura da igual dade engendra 
uma promoo, uma reciclagem universal das significaes e objectos menores. Sem dvida, a revolta surrealista no  prosaica e conce be-se inteiramente sob o signo 
do maravilhoso, de uma vida outra, mas no podemos ignorar que o "surreal" no se identifica com o imaginrio puro nem com a evaso romntica das viagens exticas: 
 nas ruas de Paris ou na feira da ladra, nas aproximaes inslitas e coincidncias do quotidiano que devem ser buscados os signos mais perturbantes. A arte e a 
vida so aqui e agora. Mais tarde, J. Cage propor que se considere como msica qualquer rudo de um concerto, e Ben chega  ideia de "arte total": "Escultura de 
arte total: erga-se uma coisa qualquer - Msica de arte total: oua-se seja o que for - Pintura de arte total: olhe-se qualquer coisa". Fim da elevao sobree minente 
da arte, que se rene  vida e sai para a rua, "a poesia deve ser fei ta por todos, no por um", a aco  mais interessante do que o resultado, tudo  arte: o processo 
democrtico corri as hierarquias e cumes, a insur reio contra a cultura, seja qual for a sua radicalidade nihilista, s foi possvel pela cultura do homo aequalis.
Se os artistas modernos esto ao servio de uma sociedade democrtica, fazem-no no pelo trabalho silencioso caracterstico do Antigo Regime, mas tomando o caminho 
da ruptura radical, a via extremista, a das revolues polticas modernas. O modernismo, sejam quais forem as intenes dos ar tistas, deve ser compreendido como 
a extenso da dinmica revolucionria  ordem cultural. As analogias entre processo revolucionrio e processo mo dernista so manifestas: a mesma vontade de instituir 
um corte brutal e irre versvel entre o passado e o presente; a mesma desvalorizao da herana tradicional ( ser como um recm-nascido, no saber nada, absoluta 
mente nada da Europa... ser quase um primitivo", P. Klee); o mesmo so breinvestimento ou sacralizao laica da era nova em nome do povo, da igualdade, da nao num 
caso, em nome da prpria arte ou do "homem no vo", noutro; o mesmo processo de ir at ao fim, mesma exasperao visvel quer na ordem ideolgica e terrorista, quer 
na raiva de levar cada vez mais longe as inovaes artsticas; a mesma vontade de desafiar as fronteiras na cionais e de universalizar o mundo novo (a arte de vanguarda 
formula um estilo cosmopolita); a mesma constituio de grupos "avanados", os militan tes, os artistas de vanguarda; o mesmo mecanismo maniqueu engendrando a excluso 
dos mais prximos: se a Revoluo tem necessidade de traidores
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sados das sua prprias fileiras, a vanguarda, pelo seu lado, considera os seus predecessores, os seus contemporneos ou a arte no seu conjunto como impostura ou 
obstculo  verdadeira criao. Se, como dizia Tocqueville, a Revoluo Francesa procedeu  maneira das revolues religiosas, devera mos tambm dizer que os artistas 
modernos procederam  maneira dos revo lucionrios. O modernismo  a importao do modelo revolucionrio para a esfera artstica. E por isso que no podemos subscrever 
as anlises de Ador no que, fiel neste ponto  problemtica marxista, v no modernismo um processo "abstracto" anlogo  lgica do sistema do valor de troca generali 
zado no estdio do grande capitalismo'. O modernismo no  mais a repro duo da ordem da mercadoria do que a Revoluo Francesa foi uma "revo luo burguesa" a 
ordem econmica, quer a compreendamos em termos de interesses de classe quer de lgica mercantil, no  de molde a tornar inte ligvel a exasperao modernista, 
a revolta contra a "religio fantica do pas sado", o entusiasmo pela "magnjficncia radiosa do futuro" (Manifesto Futu rista), a vontade de renovao radical. O 
processo vanguardista  a prpria lgica da Revoluo, com o seu maniquesmo nos antpodas do sistema regu lado do valor, da acumulao, da equivalncia. D. BeIl 
sublinha-o com ra zo, a cultura moderna  antiburguesa. Mais do que isso,  revolucionria, quer dizer de essncia democrtica, e como tal inseparvel, na esteira 
das grandes revolues polticas, da significao imaginria central, caractersti ca das nossas sociedades, do indivduo livre e auto-suficiente. Como a ideo logia 
do indivduo tornou irremediavelmente ilegtima a soberania poltica cuja origem no fosse humana, do mesmo modo  a nova representao dos indivduos livres e iguais 
que est na base dos abalos revolucionrios da esfe ra cultural e da "tradio do novo".
Tem-se insistido muitas vezes, de resto bastante imprudentemente, no papel decisivo das transformaes "filosficas" (o bergsonismo, W. James, Freud) e cientficas 
(geometrias no-euclidianas, axiomticas, teoria da rela tividade) no aparecimento da arte moderna. Com as anlises marxistas, no deixou de se ver na arte moderna 
o reflexo mais ou menos directo da aliena o capitalista. Recentemente ainda, J. ElIul no hesitava em afirmar que "todas as particularidades da arte moderna" se 
explicavam a partir do "meio
Adorno, op. ci p. 36.
2 Estas linhas devem muito s anlises de F. Furet, cf. Penser Ia R franaise, Gailimard, 1978.
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tcnico"'. P. Francastel dava conta do desaparecimento do espao plstico euclidiano a partir de uma nova representao entre o homem e o universo, ou seja dos novos 
valores suscitados pela cincia e pela tcnica, privilegiando a velocidade, o ritmo, o movimento Nem todas estas anlises de profundi dade desigual devem ser postas 
no mesmo plano: mas no deixa de ser ver dade que nenhuma delas permite explicar a especificidade do modernismo, o imperativo do Novo e a tradio da ruptura. Porqu 
uma multiplicao to prxima de grupos e estilos que se excluem mutuamente? Porqu esta casca ta de interrupes e de iconoclasmos? Nem o triunfo da tcnica nem 
os seus valores concomitantes bastam para explicar a cadeia de rupturas que carac teriza a arte moderna, a emergncia de uma ordem esttica que desafia as regras 
da percepo e da comunicao. Acontece aqui como com as teorias cientficas: as mutaes no se impem inelutavelmente, novos factos podem ser interpretados na 
ordem dos sistemas estabelecidos, mediante a introdu o de parmetros suplementares. O universo da velocidade podia fornecer novos temas - o que, alis, no deixou 
de fazer -, no exigia obras acro nolgicas, fragmentadas, abstractas, pulverizadoras do sentido, e menos ain da a necessidade de levar cada vez mais longe as derrogaes 
e experimenta es. A anlise sociolgica encontra aqui o seu limite: como ver na arte mo derna o efeito das transformaes cientficas e tcnicas quando a arte 
que se forma recusa toda a estabilizao, nega imediatamente o que instaurou e produz obras tanto figurativas como abstractas, onricas e funcionalistas, ex pressionistas 
ou geomtricas, formalistas e "anartistas" (Duchamp): no mo mento em que a arte se torna cosmopolita, j no h unidade, coexistem ne la as tendncias mais resolutamente 
adversas. No  partindo da unidade cientfica e tcnica do mundo industrial que se poder elucidar a multidirec cionalidade da arte moderna.
O modernismo s pde surgir veiculado por uma lgica social e ideolgi ca to flexvel que permite produzir contrastes, divergncias e antinomias. J o sugerimos, 
trata-se da revoluo individualista atravs da qual, pela pri meira vez na histria, o ser individual, igual a qualquer outro,  percebido e se percebe como fim 
ltimo, se concebe isoladamente e conquista o direito  livre disposio de si prprio, que constitui o fermento do modernismo. Toc
J. ElIul, op. cit., p. 83.
2 p Francastel, Peinture et soci 1des/Art" Gailimard, 1965, 3. parte. Ver tb. Art e! Technique, sobretudo pp. 170-179 e 210-216.
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quevilie j o mostrara, o indivduo fechado sobre si prprio e considerando- se  parte quebra a cadeia das geraes, o passado e a tradio perdem o seu prestgio: 
o indivduo que se reconhece como livre j no se encontra adstrito  venerao dos antepassados que limitam o seu direito absoluto a ser ele prprio, o culto da 
inovao e do actual  estritamente correlativo desta desqualificao individualista do passado. Toda a Escola que constitua uma autoridade definitiva, toda a sedimentao 
estilstica, toda a fixao es t destinada a ser criticada e superada a partir do momento em que prevale ce o ideal da autonomia pessoal: a desvalorizao dos estilos 
reinantes, a propenso dos artistas a mudarem de "maneira", a multiplicao dos gru pos, so inseparveis de uma cultura do indivduo livre, pura actividade or ganizadora 
cujo ideal  criar sem Mestre e escapar ao estatismo, ao estacio namento repetitivo. O cdigo do Novo  precisamente o instrumento de que a sociedade individualista 
se dotou para esconjurar o sedentarismo, a repeti o, a unidade, a fidelidade aos Mestres e a si prprio e tudo isto com vista a uma cultura livre, cintica e plural.
A inovao modernista tem de particular o facto de se aliar ao escndalo e  ruptura; surgem assim obras em contradio com a harmonia e o senti do, divorciadas 
da nossa experincia familiar do espao e da linguagem. Nu ma sociedade assente no valor insubstituvel, ltimo, de cada unidade huma na, a arte organiza figuras 
deslocadas, abstractas, hermticas; surge como inumana. Este paradoxo reside precisamente na nossa representao do in divduo, que " quase sagrado, absoluto; no 
h nada acima das suas exi-' gncias legtimas; os seus direitos no so limitados seno pelos direitos idnticos dos outros indivduos" Os modernos inventaram a 
ideia de uma liberdade sem fronteiras, que permite explicar o que nos separa do humanis mo clssico. O Renascimento considerava que o homem se deslocava num universo 
imutvel e geomtrico dotado de atributos permanentes. O mundo exterior, mesmo infinito e aberto  aco, obedecia, no entanto, a leis fixas, e eternas que o homem 
s podia registar Com os modernos, a ideia de um real que impe as suas leis mostra-se incompatvel com o valor da mnada individual ontologicamente livre. Desafio 
s leis, ao real, ao sentido, a liber dade entre os modernos no podia admitir limites ao seu exerccio; manifes
ta-se por um processo hiperblico de negao das regras heternomas e correlativamente por uma criao autnoma, decretando as suas prprias leis. Tudo o que se 
estabelece numa independncia intocvel, tudo o que implica uma submisso a priori no pode resistir a prazo ao trabalho da au tonomia individual. "Quis estabelecer 
o direito de ousar tudo", dizia Gau guin: a liberdade j no  adaptao ou variao da tradio, exige a ruptu ra e a insubmisso, a destruio das leis e significaes 
herdadas, uma cria o soberana, uma inveno sem modelo. Do mesmo modo que o homem moderno conquistou o direito de dispor livremente de si prprio na sua vida privada, 
de deliberar sobre a natureza do poder e da lei, assim conquista tambm o poder demirgico de organizar as formas livremente, seguindo as leis internas  prpria 
obra, para alm dos dados pr-existentes: "criar tor nar-se- uma operao consciente" (Kandisnky). Uma sociedade a inventar, uma vida privada a administrar, uma 
cultura a criar e a desestabilizar, o modernismo no pode ser apreendido independentemente do indivduo livre e origem de si prprio. Foi a fractura da organizao 
"holista", a inverso da relao do indivduo com o conjunto social, em benefcio do ser individual apreendido como livre e semelhante aos outros, que permitiu o 
aparecimen to de uma arte desligada das imposies pticas e lingusticas, desligada dos cdigos da representao, da intriga, da verosimilhana e da consonncia.
Sem dvida, a liberdade exigiu condies econmicas e sociais que per mitissem aos artistas libertarem-se da tutela financeira e esttica em que os mantinham a Igreja 
e a aristrocracia desde a Idade Mdia e do Renascimen to. O instrumento desta libertao foi, como sabemos, a instituio de um mercado artstico:  medida que os 
artistas se dirigiam a um pblico mais extenso e diversificado,  medida que a "clientela" se alargava, que as obras entravam no ciclo da mercadoria mediatizada 
por instituies especficas de difuso e promoo culturais (teatros, casas editoras, academias, sales, crticos de arte, galerias, exposies, etc.), a criao 
artstica podia emanci par-se do sistema do mecenato, dos critrios exteriores a si prpria e afirmar
1 Nestas condies, a obra e o projecto de Sade representariam uma primeira manifestao exemplar do modernismo: "O que ele (Sade) procurou foi a soberania atravs 
do esprito de ne gao levado ao seu ponto extremo. Nesta negao serviu-se ele alternadamente dos homens, de Deus, da natureza, para a pr  prova". Cf. M. Blanchot, 
Lautramont et Sade, Ed. de Minuit, 1963, p. 42.
1 L. Dumont, Homo hierarchicus, Gallimard, 1966, p. 17.
2 p Francastel, Peinture ei socit.
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cada vez mais abertamente a sua soberana autonomia Por crucial que seja, esta base material da arte moderna no autoriza um determinismo que ocul te a fora intrnseca 
da significao imaginria da liberdade, sem a qual o modernismo  inconcebvel. A actividade artstica inscreve-se num movimen to social global e os artistas esto 
envolvidos por sistemas de valores que ex cedem a esfera artstica: impossvel compreender a insurreio artstica inde pendentemente desses valores que estruturam 
e orientam o fazer dos indiv duos e dos grupos. A existncia de um mercado literrio e artstico no pode explicar por si s a raiva experimental e desconstrutora 
dos artistas: o mer cado tornava possvel a criao livre, no a tornava imperativa; tornava ca ducos os critrios aristocrticos, no produzia em si prprio o valor, 
a exi gncia da inovao sem fim. Porque  que um outro estilo no se substituiu ao antigo? Porqu esta valorizao do Novo, esta exploso de movimentos? Como se 
sabe, a lgica do mercado pode muito bem levar a um novo confor mismo (a produo cinematogrfica, a msica de variedades, por exemplo):
continua por explicar porque  que os artistas, uma vez desligados do mece nato, entraram em oposio com os critrios do pblico, aceitaram a misria e a incompreenso 
em nome da Arte. Para que chegasse a vez da paixo modernista do Novo, era preciso que existissem novos valores que os artistas no inventaram, mas tiveram " sua 
disposio", em resultado da organiza o do todo colectivo, valores enraizados na preeminncia concedida ao in divduo em relao  colectividade e cujo efeito 
maior ser o de desvalorizar o institudo, o princpio do modelo, seja ele qual for. Ideologia individualista que no se pode reduzir  "concorrncia pela legitimidade 
cultural": no so nem a vontade de originalidade, nem a obrigao de se distinguir que expli cam as grandes rupturas modernistas, mesmo que seja verdade que, a 
partir de um certo momento, a criao se volve em competio tendo em vista ape nas a diferena estatutria. A ideologia individualista teve um efeito incom paravelmente 
mais profundo do que a luta pelo reconhecimento artstico; foi ela a fora histrica que desvalorizou a tradio e as formas da heteronomia, que desqualificou o 
princpio da imitao, que obrigou a uma prospeco in cessante,  inveno de combinaes em ruptura com a experincia imedia
Modernismo e cultura aberta
No obstante a ausncia de unidade e o sincretismo da arte moderna, destaca-se nela uma tendncia bastante forte, a que D. Bell chama o "eclip se da distncia" (pp. 
117-127), processo indito que recobre a nova estrutu ra, a nova finalidade e a nova recepo das obras. Nas artes plsticas, o eclipse da distncia corresponde 
 destruio do espao cenogrfico euclidia no, profundo e homogneo, constitudo por planos seleccionados, por um contedo e um continente frente a um espectador 
imvel, mantido a uma certa distncia. "Doravante colocaremos o espectador no centro do quadro", declaravam os Futuristas; nas obras modernas, j no se contempla 
um ob jecto afastado, o observador est no prprio interior do espao e numerosos pintores aplicar-se-o a elaborar espaos abertos, curvos ou "poli-sen soriais" 
nos quais  mergulhado aquele que olha. Na literatura, a mesma dissipao do ponto de vista nico e esttico: o Livro em Malarm, o Ulisses de Joyce, o romance dos 
anos vinte j no  dominado pelo olhar omniscien te e exterior de um autor que possui por inteiro a alma das suas persona gens, a continuidade da narrativa quebra-se, 
o fantasma e o real entremistu ram-se, a "histria" conta-se por si prpria ao sabor das impresses subjecti vas e aventurosas das personagens.
A consequncia deste abalo da cena representativa,  o "eclipse da dis tncia" entre a obra e o espectador, ou seja o desaparecimento da contem plao esttica e 
da interpretao reflectida em proveito da "sensao, simul taneidade, carcter imediato e impacto" (p. 119), que so os grandes valores do modernismo. Impacto de 
uma msica directa, violenta, impelindo ao mo vimento e  contorso das ancas (swing, rock). Impacto tambm da imagem gigante na cmara escura do cinema. Imediato 
dos romances de V. Woolf,
 o homo clausus, dessocializado, desligado do princpio imperioso de seguir as prescri es colectivas, existindo para si prprio e igual aos outros, que "trabalha" 
ou "desconstri" as formas, e no o processo primrio ou a energia do desejo. Acerca da interpretao "libidinal" do modernismo, J.-Fr. Lyotard, Discours/Figure, 
Klinckisieck, 1971, e Drive a partir de Marx et Freud, UGE, col. "10/18", 1973.
ta. A arte moderna enraza-se no trabalho convergente destes valores indivi dualistas que so a liberdade, a igualdade, a revoluo
1 P. Bourdieu, "Champ intellectuel et projet crateur", Les Temps Modernes, n. 246,
1966.
2 p Francastel, op. cit. p. 195-212.
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Proust, Joyce, Faulkner, em busca da autenticidade das conscincias liberta das das convenes sociais e entregues a uma realidade ela prpria instvel, fragmentria 
e contingente. Simultanesmo dos Cubistas ou de Apollinaire. Culto da sensao e da emoo directa nos Surrealistas que recusam uma poesia puramente formal e encaram 
a beleza "exclusivamente com fins pas sionais" (Breton). As pesquisas dos modernos tiveram como fim e efeito mer gulhar o espectador num universo de sensaes, de 
tenses e de desorienta o; assim opera o eclipse da distncia, assim surge uma cultura  base de dramatizao, de emoo e de estimulao constantes, O que leva 
D. BelI a declarar: "A cultura modernista insiste na modalidade anti-intelectual e nas faculdades anti-cognitivas que aspiram a redescobrir as fontes instintuais 
da expresso" (p. 94).
Sem dvida, podemos considerar o eclipse da distncia como um dos al vos da arte moderna, na condio de no ocultarmos assim o seu efeito estri tamente inverso, 
o seu carcter hermtico, " intelectualista", " intransigente", como dizia Adorno. E excessivamente simplificador tomar apenas em consi derao as intenes dos 
artistas; igualmente significativo  o acolhimento dessas obras que, hoje como ontem, perturbam profundamente o processo de comunicao e deixam o pblico pelo menos 
perplexo. Como falar de eclipse da distncia acerca de obras cujas construes inslitas, abstractas ou deslocadas, dissonantes ou minimais, provocam o escndalo, 
confundem a evidncia da comunicao, desordenam a ordem reconhecvel da continui dade espacio-temporal e levam por isso o espectador menos a receber emo cionalmente 
a obra do que a interrog-la de modo crtico. O que Brecht quis realizar de um ponto de vista poltico e didctico no seu teatro pico, a pin tura, a literatura, 
a msica haviam-no j cumprido sem preocupao mate rialista e pedaggica. Neste ponto,  preciso dar razo a Brecht; toda a arte moderna, devido s suas produes 
experimentais, se baseia no efeito de dis tanciao e provoca espanto, suspeio ou recusa, interrogao sobre as fi nalidades da obra e da prpria arte: o que  
uma obra, o que  pintar, por qu escrever? "Existir algo como as Letras?", pergunta-se Mallarm. A arte moderna, longe de remeter para uma esttica da sensao 
bruta,  insepar vel de uma busca originria, de uma investigao que incide sobre os crit rios, as funes, os constituintes ltimos da criao artstica, o que 
tem por consequncia uma abertura permanente das fronteiras da arte. E por isso que manifestos, escritos, panfletos, prefcios de catlogos se tornaro to frequentes 
a partir do incio do sculo XX; at ento os artistas contenta-
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vam-se com escrever romances e pintar quadros, doravante explicam ao p blico a significao do seu trabalho, tornam-se tericos das suas prticas. A arte que tem 
por objectivo a espontaneidade e o impacto imediato  parado xalmente acompanhada de uma excrescncia discursiva. No se trata de uma contradio, mas do aspecto 
correlativo estrito de uma arte individua lista designada de toda a conveno esttica e exigindo por isso o equivalente de uma grelha de leitura, de um suplemento-modo 
de emprego.
Cultura modernista, cultura individualista, tal no autoriza a assimilar a obra a uma confisso pessoal; o modernismo "recompe a realidade ou reti ra-se para o 
interior do eu cuja experincia pessoal se torna a fonte da inspi rao e das preocupaes estticas" (p. 119). A obra moderna no procura r, pelo contrrio, tudo 
aquilo que rompe com a experincia subjectiva e vo luntria, com a percepo e as significaes convencionais? Experimentao que repousa na superao dos limites 
do eu, na explorao do que excede o intencional e o deliberado, a arte moderna est obcecada pelo olhar e pelo esprito em estado selvagem (escrita automtica, 
dripping, cut up). Promo o do inslito, valorizao do no-concertado e do irracional, o trabalho de mocrtico da igualdade prossegue a sua obra de integrao 
e de reconheci mento universal, mas j sob uma forma aberta, fluida, "solvel", dizia Bre ton. A cultura modernista, universalista no seu projecto,  ao mesmo tempo 
regida por um processo de personalizao, ou, por outras palavras, por uma tendncia para reduzir ou abolir a estereotipia do Eu, do real e da lgica, por uma tendncia 
para dissolver o mundo das antinomias, as do objectivo e do subjectivo, do real e do imaginrio, da viglia e do sonho, do belo e do feio, da razo e da loucura, 
e tudo isto para emancipar o esprito, escapar s imposies e tabs, libertar a imaginao, reapaixonar a existncia e a criao. Longe de um retraimento no interior 
do Eu, trata-se de um intento revolucionrio dirigido contra as barreiras e distines tirnicas da "vida dos ces", uma vontade de personalizar radicalmente o indivduo, 
de fazer nas cer um homem novo, de lhe abrir a vida verdadeira. O processo de persona lizao cuja obra consiste em tornar fluida a rigidez e em afirmar a idiosin 
crasia do indivduo manifesta-se aqui na sua fase inaugural revolucionria.
Mesmo o romance que surge no incio deste sculo no pode ser interpre tado como traduo literal da intimidade e ainda menos como reflexo bruto do solipsismo psicolgico. 
Michel Zraffa mostrou-o: a novidade romanesca dos anos vinte, "de dominante subjectiva", no  a confidncia de um eu,  a consequncia da nova significao social-histrica 
do indivduo cuja existn
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cia  identificada com a fugacidade e a contradio das experincias imedia tas Os romances do stream no foram possveis seno em funo desta concepo do indivduo 
que privilegia "o espasmdico, o obscuro, o frag mentrio, o falhado" (V. Woolf). Ateno, no foi nem uma observao psi colgica mais fina, nem a esclerose das 
convenes burguesas, nem a desu manizao do mundo industrial e urbano que pde conduzir a esta nova in terpretao da pessoa; sem dvida, tais factores desempenharam 
um papel de catalizadores, mas se a espontaneidade, as impresses fortuitas, a auten ticidade se tornaram valores artsticos e ntimos, foi muito mais em razo da 
ideologia do indivduo autnomo e no social. Como  que o homem reco nhecido como ontologicamente livre poderia a prazo escapar a uma apreen so informal, indecisa, 
fluida? Como poderia eliminar-se a significao ins tvel e dispersa do sujeito, essa manifestao existencial e esttica da liber dade? Um indivduo livre a prazo 
 mvel, sem contornos definveis; a sua existncia est votada  indeterminao e  contradio. Para mais, a igual dade sapa a hierarquia das faculdades e dos 
acontecimentos, dignifica cada instante, legitima cada impresso; o indivduo pode surgir, por isso, sob um aspecto personalizado ou, por outras palavras, fragmentrio, 
descontnuo, incoerente. O romance em V. Woolf, Joyce, Proust, Faulkner no apresenta j personagens retratadas, etiquetadas dominadas pelo romancista; doravan te, 
so menos explicadas do que entregues nas suas reaces espontneas; os contornos rgidos do romanesco dissolvem-se, o discursivo d lugar ao asso ciativo, a descrio 
objectiva  interpretao relativista e cambiante, a conti nuidade s rupturas brutais de sequncia. Liquefaco dos pontos de refe rncia fixos e das oposies 
exterioridade-interioridade, pontos de vista ml tiplos e por vezes indecidveis (Pirandello), espaos sem limite nem centro, a obra moderna, literria ou plstica 
 aberta. O romance j no tem verda deiramente comeo nem fim, a personagem  "inacabada" na esteira de um interior de Matisse ou de um rosto de Modigliani. A obra 
inacabada  a prpria manifestao do processo desestabilizador de personalizao, que substitui a organizao hierarquizada, contnua, discursiva, das obras clssi 
cas, por construes instveis de escala varivel, indeterminadas pela ausn cia de pontos de referncia absolutos, estranhas s coaces da cronologia.
Pela sua busca incansvel de novos materiais, de novos arranjos de sig nos sonoros ou visuais, o modernismo destri todas as regras e convenes
estilsticas; o resultado so obras desestandardizadas, personalizadas, no sentido em que a "comunicao"  cada vez mais independente de toda a es ttica codificada, 
seja esta musical, lingustica ou ptica. O modernismo personaliza a comunicao artstica mais do que a destri, confecciona "mensagens" improvveis onde at o 
prprio cdigo  singular. A expresso elabora-se sem cdigo pr-estabelecido, sem linguagem comum, de acordo com a lgica de um tempo individualista e livre. Ao 
mesmo tempo, o humor ou a ironia tornam-se valores essenciais de uma arte soberana que j nada tem a respeitar e que, a partir da, se abre a prazer do desvio ldico. 
"O hu mor e o riso - no necessariamente a derriso depreciativa - so os meus utenslios predilectos" (Duchamp); o deslastrar dos cdigos acompanha-se de uma descrispao 
do sentido, de uma personalizao fantasista, ltimo grau da liberdade artstica e da dessublimao das obras. A distenso humorsti ca, elemento decisivo da obra 
aberta. Mesmo os artistas que se vo empe nhar em afirmar que o sentido  intil, que nada h a dizer para alm desta vacuidade, continuaro a exprimir-se na tonalidade 
ligeira do humor (Bec kett, lonesco). A arte moderna no esvazia a funo de comunicao, perso naliza-a dessocializando as obras, criando cdigos e mensagens por 
medida, pulverizando o pblico doravante disseminado, instvel e circunscrito, con fundindo no humor a diviso do sentido e do no-sentido, da criao e do jogo.
A prpria recepo das obras se personaliza, torna-se uma experincia esttica "no amarrada" (Kandinsky), polivalente e fluida. Com a arte mo derna, j no h espectador 
privilegiado, a obra plstica deixa de ter que ser contemplada de um ponto de vista determinado, o observador dinamizou-se,  um ponto de referncia mvel. A percepo 
esttica exige de quem olha um percurso, uma deslocao imaginria ou real atravs da qual a obra  recomposta em funo das referncias e associaes prprias do 
observador. Indeterminada, modificvel, a obra moderna instaura assim uma primeira forma de participao sistemtica, o observador  "chamado de certo modo a colaborar 
na obra do criador", torna-se o seu "co-criador" A arte moder na  aberta, requer a interveno manipuladora do utente, as ressonncias mentais do leitor ou do espectador, 
a actividade combinatria e aleatria do intrprete musical. Esta participao real ou imaginria, doravante constitu 1 Liliane Brion-Guerry, "L'vo!ution des formes 
structurales dans I'architecture des anes
1910-1914", inLane 1913, Klincksieck, 1971, t. 1, p. 42.
Cf. M. Zraffa, La R romanesque, UGE, coil. 10/18", cap. II.
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tiva da obra, ligar-se-, como pensa Umberto Eco, ao facto de a ambiguida de, a indeterminao, a equivocidade, se terem transformado em valores, em novas finalidades 
estticas? "E preciso evitar que uma interpretao unvoca se imponha ao leitor", escreve U. Eco se todas as obras de arte se prestam a uma multiplicidade de interpretaes, 
s a obra moderna seria construda intencionalmente tendo em vista signos no unvocos, s ela buscaria expres samente o vago, o fluido, a sugesto, a ambiguidade. 
Estar, de facto, aqui o essencial? Na realidade, a indeterminao  mais um resultado do que uma finalidade deliberada, a ambiguidade moderna  efeito dessas novas 
problemticas artsticas que so a adopo de vrios pontos de vista, a emancipao do "peso intil do objecto" (Malevitch), a valorizao do arbi trrio, do fortuito 
e do automatismo, do humor e dos trocadilhos, a recusa das separaes clssicas, as da arte e da vida, da prosa e da poesia, do mau gosto e do bom gosto, do jogo 
e da criao, do objecto habitual e da arte. O modernismo liberta o espectador ou o leitor da "sugesto dirigida" das obras anteriores porque essencialmente dissolve 
os pontos de referncia da arte, explora todas as possibilidades, faz ir pelos ares todas as convenes, sem experimentar quaisquer limites a priori. A esttica 
"no directiva" aparece com esta exploso, com a desterritorializao moderna. A obra  aberta por que o prprio modernismo  abertura, ou seja destruio dos enquadramen 
tos e critrios anteriores, e conquista de espaos cada vez mais inauditos.
Corroso das antinomias, liquefaco dos quadros do romanesco, comu nicao de cdigo flexvel ou sem cdigo, participao activa dos espectado res, o modernismo 
obedece j a um processo de personalizao num tempo em que noutros aspectos a lgica social dominante continua a ser discipli nar. A arte moderna tem de decisivo 
o facto de inaugurar na febre revolu cionria, na charneira do nosso sculo, um tipo de cultura cuja lgica vence r mais tarde, quando o consumo, a educao, a 
distribuio, a informao deslizarem no sentido de uma organizao  base de participao, solicita o, subjectivizao, comunicao. D. BelI viu o carcter antecipador 
da cultura modernista; no viu que o essencial no estava no aparecimento dos contedos hedonistas, mas na emergncia de uma forma social indita, o processo de 
personalizao, que no parar de conquistar novas esferas a ponto de se tornar a caracterstica fundamental das sociedades presentes e por vir, sociedades personalizadas, 
mveis e flutuantes. A arte modernista:
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primeiro dispositivo desestabilizado e personalizado, prottipo da Open So ciety, com a diferena de que a vanguarda obedecia ao mesmo tempo a uma lgica hot ou 
revolucionria, enquanto que o processo de personalizao que anexar a vida social e individual minar a paixo revolucionria e estabele cer-se- no registo cool 
programado. Nestas condies,  preciso rever o cre do caro aos anos sessenta: a arte moderna no  o Outro do universo do consumo dirigido. Revolucionria, a lgica 
profunda do modernismo no deixa por isso de ser isomorfa da da sociedade ps-moderna, participativa, fluida, narcsica.
A personalizao da esfera artstica realizada pelos artistas de vanguarda no  sem analogia com o trabalho desse outro movimento de vanguarda, terico, que  a 
psicanlise. Arte moderna e psicanlise: na aurora do scu lo XX, a cultura conhece o mesmo processo de personalizao montando dispositivos abertos. Com a regra 
do "dizer tudo" e das associaes livres com o silncio do analista e a transferncia, a relao clnica liberaliza-se e introduz-se na rbita flexvel da personalizao. 
A anlise torna-se "intermi nvel" de acordo com a representao moderna do indivduo, valor ltimo; o diagnstico dirigista d lugar  ateno igualmente flutuante, 
j no h na da a excluir, a hierarquia das significaes desmorona-se, toda a representa o faz sentido, incluindo e sobretudo o sem sentido. Do mesmo modo que 
na arte moderna a essncia e o anedtico so identicamente tratados e todos os temas se tornam legtimos, assim todas as escrias humanas se vem re cicladas na 
dimenso antropolgica, tudo fala, o sentido e o no-sentido dei xam de ser antinmicos e hierarquizados de acordo com o trabalho da igual dade. Peas constitutivas 
da cultura moderna, o Inconsciente e o Recalca mento so vectores de personalizao, de eroso das divises da nossa repre sentao antropolgica: o sonho, o lapso, 
a neurose, o acto falhado, o fan tasma j no relevam de esferas separadas, unificam-se de certo modo sob a gide das "formaes do inconsciente", que exigem uma 
interpretao na "primeira pessoa", baseada nas associaes prprias do sujeito. Sem dvida, a criana, o selvagem, a mulher, o perverso, o louco, o neurtico conservam 
uma especificidade, mas os territrios perdem a sua heterogeneidade sob o impulso de uma problemtica que reconhece a omnipotncia da arqueologia do desejo, do recalcamento 
e do processo primrio. A psicanlise personali zou a representao do indivduo desestabilizando as oposies rgidas da psicologia ou da nosografia, reintegrando 
no circuito antropolgico os des
U. Eco, L'Oeuvre ouverte, d. du Seuil, 1965, p. 22
II
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perdcios da razo, largando os pontos de referncia e os fundamentos da verdade.
Vanguarda artstica, vanguarda analtica; o mesmo processo de persona lizao surge num e noutro caso,  certo que acompanhado por um processo discordante, hierrquico 
e duro, revelando os laos que ainda unem a cultu ra aberta ao mundo disciplinar e autoritrio circundante. Por um lado, os artistas de vanguarda destacam-se como 
batalhes de lite aniquilando toda a tradio, arrastando a histria da arte de revoluo em revoluo; por ou tro, a psicanlise reinscreve a sua prtica num ritual 
estrito, assente na dis tncia entre o analista e o analisado. O que  mais, a psicanlise institucio naliza-se numa Associao Internacional, com um mestre incontestado 
 ca bea, exigindo a fidelidade a Freud e a obedincia aos dogmas, eliminando os traidores e herticos, trabalhando na conquista de adeptos. As vanguar das artsticas 
e psicanalticas so formaes de compromisso entre o mundo personalizado e o mundo disciplinar, tudo se passa como se o advento de uma lgica aberta, desembocando 
no indivduo singular, s tivesse podido surgir enquadrada pela lgica adversa, hierrquica e coerciva, que continua va a prevalecer no todo social.
Consumo e hedonismo: rumo  sociedade ps-moderna
A grande fase do modernismo, a que viu florescer os escndalos da van guarda, terminou. Hoje, a vanguarda perdeu a sua virtude provocadora, j no h tenso entre 
os artistas inovadores e o pblico, porque j ningum defende a ordem e a tradio. A massa cultural institucionalizou a revolta modernista, "no domnio artstico, 
so raros os que se opem a uma liberda de total, a experincias ilimitadas, a uma sensibilidade desenfreada, ao pri mado do instinto sobre a ordem,  imaginao 
que recusa as crticas da ra zo" (p. 63). Transformao do pblico que se liga ao facto de o hedonismo, que era na viragem do sculo apangio de um nmero reduzido 
de artistas antiburgueses, se ter tornado, apoiado no consumo de massa, o valor central da nossa cultura: "A mentalidade liberal que hoje prevalece toma como ideal 
cultural o movimento modernista cuja linha ideolgica conduz  busca do impulso como modo de comportamento" (p. 32). E ento que se entra na cultura ps-moderna, 
designando esta categoria para D. BelI o momento em que a vanguarda j no suscita indignao, em que as pesquisas inovadoras so legtimas, em que o prazer e a 
estimulao dos sentidos se tornam os va
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lores dominantes da vida corrente. Neste sentido, o ps-modernismo aparece como a democratizao do hedonismo, a consagrao generalizada do Novo, o triunfo da "anti-moral 
e do anti-institucionalismo" (p. 63), o fim do divr cio entre os valores da esfera artstica e os valores do quotidiano.
Mas ps-modernismo significa igualmente a instaurao de uma cultura extremista que leva "a lgica do modernismo at aos seus limites extremos" (p. 61). E no decurso 
dos anos sessenta que o ps-modernismo revela as suas caractersticas maiores com o seu radicalismo cultural e poltico, o seu hedo nismo exacerbado; revolta estudantil, 
contra-cultura, voga de inar e do LSD, libertao sexual, mas tambm filmes e publicaes porno-pop, ex asperao da violncia e da crueldade nos espectculos: a 
cultura comum ac tualiza-se em termos de libertao, de prazer e de sexo. Cultura de massa hedonista e psicadlica que s aparentemente  revolucionria, "na realida 
de, era simplesmente uma extenso do hedonismo dos anos cinquenta e uma democratizao da libertinagem que havia muito tempo praticavam certas fraces da alta sociedade" 
(p. 84). Deste ponto de vista, os sixties assinalam "um comeo e um fim" (p. 64). Fim do modernismo: os anos sessenta so a ltima manifestao da ofensiva lanada 
contra os valores puritanos e utili taristas, o ltimo movimento de revolta cultural, desta feita de massas. Mas tambm, comeo de uma cultura ps-moderna, quer 
dizer sem inovao nem audcia verdadeiras, contentando-se com democratizar a lgica hedo nista, com radicalizar a tendncia para privilegiar "as inclinaes mais 
bai xas em lugar das mais nobres" (p. 130). Como se ter j tornado claro,  uma repulsa neo-puritana que orienta a radioscopia do ps-modernismo.
A despeito deste limite evidente e desta fraqueza, D. BelI pe a tnica no essencial ao reconhecer no hedonismo e no consumo que  o seu vector o epicentro do modernismo 
e do ps-modernismo. Para caracterizar a socieda de e o indivduo moderno, no h referncia mais decisiva do que o consu mo: "A verdadeira revoluo da sociedade 
moderna sobrevm no decurso dos anos vinte quando a produo de massa e um consumo muito forte comea ram a transformar a vida da classe mdia" (p. 84). Que resoluo? 
Para D. BeIl, esta indentifica-se com o hedonismo, com uma revoluo dos valo res que pe estruturalmente em crise a unidade da sociedade burguesa. Po demos perguntar-nos, 
todavia, se a obra histrica do consumo no  de al gum modo minimizada por uma problemtica que a assimila a uma revolu o ideolgica, a contedos culturais em 
ruptura. A revoluo do consumo, que s instaurar plenamente o seu regime a seguir  Segunda Guerra Mun
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dia!, , com efeito e na nossa opinio, de um alcance mais profundo: reside essencialmente na realizao definitiva da meta secular das sociedades mo dernas, a saber 
o controlo total da sociedade e, por outro lado, a libertao crescente da esfera privada, abandonada doravante ao self-servive generali zado  velocidade da moda, 
 flutuao dos princpios, papis e estatutos. Absorvendo o indivduo na corrida pelo nvel de vida, legitimando a sua bus ca da auto-realizao, assediando-o de 
imagens, de informaes, de cultura, a sociedade do bem-estar gerou uma atomizao e uma dessocializao radi cal, sem medida comum com a accionada pela escolarizao 
obrigatria, o recrutamento militar, a urbanizao e a industrializao do sculo XIX. A era do consumo no s desqualificou a tica protestante, como liquidou o 
valor e a existncia de costumes e tradies, produziu uma cultura nacional e efectivamente internacional com base na solicitao das necessidades e das informaes, 
arrancou o indivduo ao local e, mais ainda,  estabiliade da vida quotidiana, ao estatismo imemorial das relaes, com os objectos, com os outros, com o corpo e 
consigo prprio.  a revoluo do quotidiano que ganha corpo, aps as revolues econmicas e polticas dos scios XVIII e XIX, aps a revoluo artstica na charneira 
do sculo actual. O homem moderno encontra-se doravante aberto s novidades, apto a mudar sem re sistncia de modo de vida, tornou-se cintico: "O consumo de massa 
signifi cava que se aceitava, no importante domnio do modo de vida, a ideia de mudana social e de transformao pessoal" (p. 76). Com o universo dos ob jectos, 
da publicidade, dos media, a vida quotidiana e o indivduo j no tm peso prprio, anexados como se encontram pelo processo da moda e da obsolescncia acelerada: 
a realizao definitiva do indivduo coincide com a sua dessubstancializao, com a emergncia de tomos flutuantes esvaziados pela circulao dos modelos e por 
isso continuamente reciclveis. Cai assim o ltimo pano de muralha que escapava ainda  penetrao burocrtica,  gesto cientfica e tcnica dos comportamentos, 
ao controlo dos poderes mo dernos que por toda a parte abolem as formas tradicionais de sociabilidade e se aplicam a produzir-organizar aquilo que deve ser a vida 
dos grupos e in divduos, at nos seus desejos e intimidades. Controlo flexvel, no mecnico ou totalitrio; o consumo  um processo que funciona por seduo, os 
indiv duos adoptam sem dvida os objectos, as modas, as frmulas dos tempos livres elaboradas pelas organizaes especializadas, mas a seu gosto, aceitan do isto 
e no aquilo, combinando livremente os elementos programados. A administrao generalizada do quotidiano no deve fazer esquecer a sua face
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correlativa, a constituio de uma esfera privada cada vez mais personaliza da e independente; a era do consumo inscreve-se no vasto dispositivo moder no da emancipao 
do indivduo, por um lado, e da regulao total e mi croscpica do social, por outro A lgica acelerada dos objectos e mensa gens leva ao seu ponto culminante a 
auto-determinao dos homens na sua vida privada enquanto que, simultaneamente, a sociedade perde a sua espes sura autnoma anterior, tornada cada vez mais objecto 
de uma programao burocrtica generalizada:  medida que o quotidiano  elaborado integral mente por planeadores e engenheiros, o leque das escolhas dos indivduos 
aumenta - tal  o efeito paradoxal da poca do consumo.
Consumo de massa: a despeito da sua incontestvel verdade, a frmula no  isenta de ambiguidade. Sem dvida, o acesso de todos ao automvel ou  televiso, ao blue-jean 
e  coca-cola, as migraes sincronizadas do week-end ou do ms de Agosto designam uma uniformizao dos comporta mentos. Mas esquecemo-nos demasiadas vezes de considerar 
a face comple mentar e inversa do fenmeno: a acentuao das singularidades, a personali zao sem precedente dos indivduos. A oferta em abismo do consumo des multiplica 
as referncias e modelos, destri as frmulas imperativas, exacer ba o desejo do indivduo de ser plenamente ele prprio e de gozar da vida, transforma cada um num 
operador permanente de seleco e de combinao livre,  um vector de diferenciao dos seres. Diversificao extrema das condutas e gostos, amplificada ainda pela 
"revoluo sexual", pela dissolu o das compartimentaes scio-antropolgicas do sexo e da idade. A era do consumo tende a reduzir as diferenas desde sempre institudas 
entre os sexos e as geraes e isso em proveito de uma hiperdiferenciao dos com portamentos individuais hoje libertados dos papis e convenes rgidas. Aqui poderia 
surgir a objeco da revolta das mulheres, da "crise de gera es", da cultura rock e pop, do drama das terceira e quarta idades, convi dando todos estes problemas 
a pensar o nosso tempo sob o signo da exclu so, de um fosso cada vez mais acentuado entre os diversos grupos. Os so cilogos no tm, de resto, qualquer dificuldade, 
apoiando-se nas estatsti cas, em demonstrarem empiricamente estas distncias: porm, dessa manei ra, perdemos de vista o mais interessante, o processo de meeting 
p0 o apa 1 Do mesmo modo, a autonomia pessoal caminhou a par do aumento do papel do Estado
moderno, Cf. Marcel Gauchet, "Les droits de L'homme ne sont pas une politique", Le Dbat, n'o 3, 1980. pp. 16-21.
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gamento progressivo das grandes entidades e indentidades sociais em beneft cio no da homogeneidade dos seres, mas de uma diversificao atomstica incomparvel. 
O masculino e o feminino confundem-se, perdem as suas nti das caractersticas de outrora; a homossexualidade de massa de hoje comea a j no ser considerada como 
uma perverso, todas as sexualidades, ou per to disso, so admitidas e formam combinaes inditas; o comportamento dos jovens e dos menos jovens tende a aproximar-se 
e, em poucas dcadas, os ltimos reciclaram-se, com uma velocidade surpreendente, no culto da ju ventude, na poca psi, na educao permissiva, no divrcio, no vesturio 
descontrado ,nos seios nus, nos jogos e desportos, na tica hedonista. Sem dvida, os mltiplos movimentos de reivindicao animados pelos ideais de igualdade contriburam 
para esta desestabilizao, mas foi muita mais a profuso dos objectos e a estimulao das necessidades, os valores hedonis tas e permissivos juntamente com as tcnicas 
da contracepo, em suma o processo de personalizao que permitiu esta diluio dos pontos de refern cia sociais, a legitimao de todos os modos de vida, a conquista 
da identi dade pessoal, o direito do indivduo a ser abolutamente ele prprio, o apetite da personalidade at ao seu desfecho narcsico.
Numa sociedade em que mesmo o corpo, o equilbrio pessoal, o tempo livre so solicitados pela pltora dos modelos, o indivduo  obrigado perma nentemente a escolher, 
a tomar iniciativas, a informar-se, a criticar a quali dade dos produtos, a auscultar-se e a testar-se, a manter-se jovem, a delibe rar acerca dos actos mais simples: 
que carro comprar, que filme ir ver, para onde ir de frias, que livro ler, que regime, que terapia seguir? O consumo obriga o indivduo a tomar-se a seu cargo, 
responsabiliza-o,  um sistema de participao inelutvel, ao contrrio do que dizem os vituprios lanados contra a sociedade do espectculo e da passividade. Deste 
ponto de vista, a oposio estabelecida por Toifler entre consumidor de massa passivo e "pro sumidor" criativo e independente ignora em excesso funo histrica 
do consumo. Seja qual for a sua estandardizao, a era do consumo revelou-se e continua a revelar-se um agente de personalizao, quer dizer de responsa bilizao 
dos indivduos, coagindos-os a escolher e transformar os elementos do seu modo de vida.  preciso no sobrevalorizarmos o alcance dos fen menos actuais de tomada 
directa a cargo pelos interessados dos seus pr prios assuntos: a responsabilizao e a participao limitam-se a prosseguir na sua obra, mas segundo um dispositivo 
ainda mais personalizado. E pelo menos imprudente afirmar que, nestas condies, as fronteiras entre produ
o e consumo se apagam o do-it-yourself, as vendas em kit, os grupos de auto-assistncia, o selj-care no indicam o "fim iminente" da expanso do mercado, da especializao 
e dos grandes sistemas de distribuio, no fa zem mais do que personalizar at ao extremo a lgica do consumo. Dova rante o bricolage, a sade, os conselhos so 
eles prprios consumidos, mas na rbita do self-service. No devemos ter iluses, a lgica do mercado, a es pecializao e a burocratizao das tarefas no detero 
a sua progresso, ainda que paralelamente se desenvolvam algumas ilhotas de interveno criadora, de auxlio mtuo e de reciprocidade. Por isso, embora num registo 
diferente, tambm no podemos seguir D. BelI quando este v no consumo o agente por excelncia de um neo-libertinismo desenfreado e impulsivo. A so ciedade de consumo 
no se pode reduzir  estimulao das necessidades e ao hedonismo;  inseparvel da profuso das informaes, da cultura mass meditica, da solicitude comunicacional. 
Consomem-se em altas doses e por flashes, actualidades, emisses mdicas, histricas ou tecnolgicas, msica clssica ou pop, conselhos tursticos, culinrios ou 
psi, confisses privadas, filmes: a hipertrofia, a acelerao das mensagens, da cultura, da comunica o, so ao mesmo ttulo que a abundncia de mercadorias, parte 
integrante da sociedade de consumo. O hedonismo, por um lado, o consumo, por ou tro. A sociedade de consumo  fundamentalmente um sistema de abertura e de despertar, 
um meio de instruo flexvel, "digest" sem dvida, mas per manente. Gozar a vida, mas tambm estar ao corrente, estar "ligado", cui dar da siide, como atestam 
a obsesso crescente com os problemas de sa de, a inflao da procura mdica, a multiplicao das obras de divulgao e das revistas informativas, o sucesso dos 
festivais, as multides de turistas de mquina fotogrfica na mo desfilando pelos museus e runas histricas. Se o consumo esvazia a cultura puritana e autoritria, 
no o faz em proveito de uma cultura irracional ou impulsiva; mais profundamente, instala-se um no vo tipo de socializao "racional" do sujeito, no por certo atravs 
dos con tedos escolhidos, que continuam largamente submetidos s flutuaes im previsveis das personalidades, mas atravs o imperativo sedutor que quer que o indivduo 
s informe, se administre a si prprio, preveja, se recicle, se subordine  regra da entrevista e do teste. A era do consumo dessocializa os indivduos e correlativamente 
socializa-os pela lgica das necessidades e da informao, socializao sem contedo pesado, socializao na mobilidade.
1 A. Toifler, La Troisi Vague, Denel, 1980, p. 333.
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O processo de personalizao faz aparecer um indivduo informado e respon sabilizado, dispatcher constante de si prprio.
Responsabilizao de um gnero novo, narcsica como lhe poderemos chamar, na medida em que a acompanham, por um lado, uma desmotiva o ante a coisa pblica e, por 
outro lado, uma descrispao e desestabiliza o da personalidade. Inmeros sinais o indicam: descontraco nas relaes interindividuais, culto do natural, unies 
livres, aumento dos divrcios, ace lerao nas transformaes dos gostos, valores e aspiraes, tica tolerante e permissiva, mas tambm exploso dos sndromas psicopatolgicos, 
do stress, da depresso: um indivduo em cada quatro conhecer ao longo da sua vida uma depresso nervosa profunda, um alemo em cada cinco refugia-se em perturbaes 
psi, um em cada quatro sofre de perturbaes do sono. Sendo assim, nada mais falso do que reconhecer nestes fenmenos a presena de um "homem unidimensional", ainda 
que sob a etiqueta de uma'privatizao flutuante, O neo-narcisismo define-se pela desunificao, pela fragmentao da personalidade, a sua lei  a coexistncia pacfica 
dos contrrios. A medi da que os objectos e mensagens, prteses psi e desportivas invadem a exis tncia, o indivduo desagrega-se num patchwork heterclito, numa 
combina tria polimorfa, que  a prpria imagem do ps-modernismo. Coo! nas suas maneiras de ser e de fazer, libertado da culpabilidade moral, o indivduo narcsico 
, no entanto, propenso  angstia e  ansiedade; gestor da sua sade, constantemente preocupado com ela, e arriscando a vida nas auto- estradas e nas montanhas; 
formado e informado num universo cientfico, mas ao mesmo tempo permevel, ainda que epidermicamente, a todos os gadgets do sentido, ao esoterismo,  parapsicologia, 
aos mdiuns e aos gu rus; descontrado em relao ao saber e s ideologias e simultaneamente per feccionista nas actividades desportivas ou de bricolage; alrgico 
ao esforo, s normas estritas e coercivas, procura-as por conta prpria nos regimes de emagrecimento, em certas prticas desportivas, no trekking, nos refgios 
mstico-religiosos; discreto perante a morte, controlado nas sua relaes p blicas e gritando, vomitando, chorando, invectivando nas novas terapias psi; flutuante, 
"im, produzido pelos modelos internacionais da moda e reinves tindo nas lnguas menores perifricas, no to ou em certas tradies reli giosas e populares. E isto 
a personalizao narcsica: a fragmentao dspar do eu, a emergncia de um indivduo que obedece a mltiplas lgicas na es teira das justaposies compartimentadas 
dos artistas pop ou das combina es chs e aleatrias de Adami.
O consumo  uma estrutura aberta e dinmica: desprende o indivdu dos seus laos de dependncia social e acelera os movimentos de assimilao e de rejeio, produz 
indivduos flutuantes e cinticos, universaliza os modos de vida, ao mesmo tempo que permite um mximo de singularizao dos ho mens. Modernismo do consumo regido 
pelo processo de personalizao, pa ralelo neste ponto  vanguarda artstica ou  psicanlise e opondo-se ao mes mo tempo ao modernismo prevalecente noutras esferas. 
Porque  assim o modernismo, um momento histrico complexo ordenando-se em torno de duas lgicas antinmicas, uma rgida, uniforme, coerciva, a outra flexvel, opcional, 
sedutora. Lgica disciplinar e hierrquica, por um lado: a ordem da produo funciona segundo uma estrutura burocrtica estrita, apoiada nos princpios da organizao 
cientfica do trabalho (os Principies of scienti fic management de Taylor datam de 1911); a esfera do poltico tem um ideal de centralizao e de unificao nacional, 
a Revoluo e a luta de classes so as suas traves mestras; os valores consagram a poupana, o trabalho, o esforo; a educao  autoritria e normalizadora; o indivduo 
, ele prprio, voluntrio, "intro-determinado". Mas a partir do fim do sculo XIX e da era do consumo instauraram-se sistemas regidos por um outro processo, flexvel, 
plural, personalizado. Neste sentido, pode dizer-se que a fase moderna das nossas sociedades se caracterizou pela coexistncia de duas lgicas adversas com a evidente 
predominncia at aos anos cinquenta e sessenta da ordem disciplinar e autoritria. Chamamos, em contrapartida, sociedade ps- moderna  inverso desta organizao 
predominante, no momento em que as sociedades ocidentais tendem cada vez mais a rejeitar as estruturas uni formes e a generalizar os sistemas personalizados  base 
de solicitao, de opo, de comunicao, de informao, de descentralizao, de participa o. A idade ps-moderna, deste ponto de vista, no  de maneira nenhuma 
a idade paroxstica libidinal e pulsional do modernismo; pensaramos antes o contrrio: o tempo ps-moderno  a fase coo! e desencantada do modernis mo, a tendncia 
para a humanizao por medida da sociedade, o desenvolvi mento de estruturas fludas moduladas em funo do indivduo e dos seus desejos, a neutralizao dos conflitos 
de classe, a dissipao do imaginrio revolucionrio, a apatia crescente, a dessuLstancializao narcsica, o rein vestimento coo! do passado. O ps-modernismo  
o processo e o momento histrico em que se opera esta viragem de tendncia em proveito do processo de personalizao, o qual no pra de anexar novas esferas, como 
j hoje se verifica em matria de educao, de ensino, de tempos livres, de desporto,
"1/
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moda, relaes humanas e sexuais, informao, horrios, trabalho, sendo es te ltimo sector o de longe mais refractrio ao processo em curso. Foi, alis, uma inverso 
de tendncia paralela que levou D. Beli a falar de uma socie dade ps-industrial, quer dizer de uma sociedade j no assente na produ o em srie de mercadorias 
industriais e na classe operria, mas no prima do do saber terico no desenvolvimento tcnico e econmico, no sector dos servios (informao, sade, ensino, investigao, 
actividades culturais, tem pos livres, etc.), na classe especializada dos "profissionais e tcnicos". Socie dade ps-laboral, sociedade ps-moderna: estes dois esquemas 
no se so brepem, embora designem movimentos de transformao histrica conco mitantes; o primeiro insiste na nova estrutura scio-profissional e no novo rosto 
da economia cujo ncleo  o saber; o segundo, tal como aqui o empre gamos, no se limita, como em D. BelI, ao campo cultural, mas insiste, pelo contrrio, nos efeitos 
e na extenso de um novo modo de socializao, o pro cesso de personalizao que percorre doravante, mais ou menos iptensamen te, todos os sectores das nossas sociedades.
Longe de estar numa relao de descontinuidade com o modernismo, a era ps-moderna define-se pelo prolongamento e a generalizao de uma das suas tendncias constitutivas, 
o processo de personalizao,e correlativamen te pela reduo progressiva da sua outra tendncia, o processo disciplinar. E por isso que no podemos aderir s problemticas 
recentes que, em nome da indeterminao e da simulao ou em nome da deslegitimao das meta- narrativas se esforam por pensar o presente como um momento absoluta 
mente indito na histria. Se nos ativermos ao tempo curto, ocultando o campo histrico, sobrestimamos o corte ps-moderno, perdemos de vista que este prossegue 
ainda, mesmo quando por outros meios, a obra secular das sociedades modernas democrticas-individualistas. Do mesmo modo que o modernismo artstico se revelou como 
uma manifestao da igualdade e da liberdade, tambm a sociedade ps-moderna, erigindo o processo de perso nalizao em modalidade dominante, continua a realizar 
as significaes centrais do mundo moderno. O universo dos objectos, da informao e do hedonismo completa "a igualdade das condies", eleva o nvel de vida e cul 
tiva as massas, ainda que sob a gide do mnimo denominador comum,
J. Baudrillard, Lchange symbolique et la mort. Gallimard, 1976.
2 J.-Fr. Lyotard, La Condition post-moderne, d. de Minuit, 1979.
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emancipa as mulheres e as minorias sexuais, unifica as idades por meio do imperativo de juventude, banaliza a originalidade, informa todos os indiv duos, pe no 
mesmo plano o best-seller e o Prmio Nobel, trata identica ment o fait divers, as proezas tecnolgicas e as curvas econmicas: as dis semelhanas hierrquicas no 
pram de recuar em benefcio do reino indife rente da igualdade. Deste ponto de vista, a comutao dos signos, a ordem dos simulacros no  seno um ltimo estdio 
no devir das sociedades de mocrticas. O mesmo se passa com o saber ps-moderno e com as suas dis seminaes de regras: "o reconhecimento da heteromorfia dos jogos 
de lin guagem" interina na ordem epistemolgica a lgica da personalizao e tra balha no sentido de democratizar-desestandardizar a verdade, igualizar os discursos 
liquidando o valor do consenso universal, afirmando como princ pio a regra temporria dos "golpes". O estilhaar das grandes narrativas:
instrumento da igualdade e da emancipao do indivduo actualmente liber to do terror dos mega-sistemas, da uniformidade da Verdade e votado assim  instabilidade 
experimental dos "contratos temporrios", em estreita con gruncia com a desestabilizao e a particularizao narcsica. A denncia do imperialismo da Verdade  
uma figura exemplar do ps-modernismo: o processo de personalizao dissolve uma ltima rigidez e cume, trabalha pa ra a produo de uma tolerncia cool atravs 
da afirmao do direito s di ferenas, aos particularismos, s multiplicidades na esfera do saber, deslas trado este de toda a autoridade suprema, de todo o referencial 
de realidade. Anexao da ordem linear-dirigista da Verdade na da flutuao das hipte ses e das constelaes das linguagens miniaturizadas. E o mesmo processo flexvel 
que liberaliza os costumes, desmultiplica os grupos de reivindicao, desestandardiza a moda e os comportamentos, organiza p narcisismo e li quefaz a Verdade: a 
operao saber ps-moderno, heterogeneidade e disper so das linguagens, teorias flutuantes, no passa de uma manifestao do deslocamento geral, fluido e plural, 
que nos faz sair da idade disciplinar e que, assim, aprofunda a lgica do homo clausus ocidental. S no quadro desta ampla continuidade democrtica e individualista 
 que se delineia a originalidade do momento ps-moderno, a saber a predominncia do indivi dual sobre o universal, do psicolgico sobre o ideolgico, da comunicao 
sobre a politizao, da diversidade sobre a homogeneidade, do permissivo sobre o coercivo.
1 Ibid., p. 107.
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Tocqueville dizia que os povos democrticos mostravam "um amor mais ardente e mais duradouro pela igualdade do que pela liberdade" temos o direito de perguntar se 
o processo de personalizao no modificou em pro fundidade esta prioridade. Sem dvida, a exigncia de igualdade continua a afirmar-se, mas h uma exigncia mais 
significativa, mais imperativa ainda:
 a da liberdade individual. O processo de personalizao engendrou uma exploso de reivindicaes de liberdade que se manifesta em todos os dom nios, na vida sexual 
e familiar (sexo  lista, educao liberal, modo de vida child-free), no vesturio, na dana, nas actividades corporais e artsticas (desporto livre, improvisao, 
expresso livre), na comunicao e no ensino (rdios livres, trabalho independente), na paixo pelos tempos livres e pela sua extenso, nas novas terapias que tm 
por fim a libertao do eu. Mesmo se as reivindicaes dos grupos continuam a ser formuladas em termos de ideal de justia, de igualdade e de reconhecimento social, 
 sobretudo em ra zo do desejo de viver mais livremente que descobrem uma autntica audin cia de massa. Hoje toleram-se mais facilmente as desigualdades sociais 
do que os interditos relativos  esfera privada; consente-se mais ou menos no poder da tecnocracia, legitimam-se as elites do poder e do saber, mas recu sa-se a 
regulamentao do desejo e dos costumes. A inverso de tendncia em benefcio do processo de personalizao levou ao seu ponto culminante o desejo de libertao 
pessoal, produziu uma inverso de prioridade nas aspi raes; o ideal de autonomia individual  o grande vencedor da condio ps-moderna.
D. Bel! tem razo ao sublinhar o lugar central que o hedonismo ocupa na cultura moderna, mas no v as transformaes que esse valor sofreu a partir dos anos sessenta. 
Depois de uma fase triunfante em que, com efeito, o orgasmo enchia as primeiras pginas e a corrida da aquisio de objectos era identificada com o sucesso, entrmos 
numa fase desencantada, ps- materialista em que a qualidade de vida leva a melhor sobre as marcas quantitativas; o prprio hedonismo se personaliza e converte em 
narcisismo psi. Os anos sessenta so, quanto a este ponto, anos charneira. Por um la do, os sixties completam efectivamente, como diz D. Bell, a lgica hedonis ta: 
oposio violenta ao puritanismo,  autoridade, ao trabalho alienado, cultura de massa ertico-pornogrfica, irrupo psicadlica. Mas, por outro
lado, este decnio adianta os ideais coo!, esses mesmos que acabaro por se impr prioritariamente aps os anos de contestao: crtica da bulimia con sumista, crtica 
da vida urbana estandardizada, crtica dos valores agressivos e viris, psicologizao do militantismo, integrao da auto-anlise e do eu na crtica social, vontade 
de "mudar a vida", transformando directamente as re laes do sujeito consigo prprio e com os outros. A fruio ilimitada, o de boche, o desregramento dos sentidos 
no so nem a imagem nem o futuro provvel das nossas sociedades: o entusiasmo psicadlico extinguiu-se e o "desejo" passou de moda, o culto do desenvolvimento espiritual, 
psi e des portivo, subsituu a contra-cultura, o feeling superou o standing, a "vida simples", convivial e ecolgica a melhor sobre a paixo do ter; a medi cina 
alternativa, baseada na meditao, nas ervas, na vigilncia do prprio corpo e dos seus "biorritmos", revelam a distncia que nos separa do hedo nismo hot, da primeira 
fase. O ps-modernismo tem tendncia a afirmar o equilbrio, a escala humana, o regresso a si prprio, ainda que seja verdade que coexiste com movimentos duros e 
extremistas (droga, terrorismo, por nografia, punk). O ps-modernismo  sincrtico, simultaneamente coo! e hard, convivial e vazio, psi e maximalista: aqui, uma 
vez mais,  a coabita o dos contrrios que caracteriza o nosso tempo, e no a pretensa cultura desenfreada hipdrug-rock. A idade herica do hedonismo passou; nem 
as pginas de oferta e procura ertica multi-servio, nem a importncia do n mero dos leitores das revistas sexolgicas, nem a publicidade aberta de que gozam a 
maior parte das "perverses" bastam para acreditar a ideia deum crescimento exponencial do hedonismo. Signos menos visveis testemunham j de uma transformao notvel 
do valor-gozo: nos EUA, h grupos de ho mens que reivindicam o direito de serem impotentes, a sexologia tenuemente ornamentada com os atributos do mrito cientfico 
v-se acusada de ser di rectiva, ou at terrorista com o seu imperativo do gozo; mulheres e homens redescobrem a virtude do silncio e da solido, da paz interior 
e da ascese nas comunidades monsticas, ashrams ou comunidades de lamas. Acontece com a fruio o mesmo que com os outros valores: no escapa ao processo da indiferena. 
O gozo esvazia-se do seu contedo subversivo, os seus con tornos desgastam-se, a sua preeminncia banaliza-se; o gozo entra no ciclo da humanizao na razo inversa 
da linguagem tcnica hipertrofiada de que se reveste nas revistas da especialidade: doravante, h tanta reivindicao de
A. de Tocqueville, De la dmocratie en Ainrique, Oeuvres compltes, Gaflimard, T. 1,
vol. II, pp. 101-104.
Th. Roszak, L'Homme-plante, Stock, 1980, pp. 460-464.
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sexo como de relao; procura ertica e procura comunicacional, perverso e meditao interpenetram-se ou coexistem sem choque, sem contradio. Disseminao dos 
modos de vida, o gozo j no passa de um valor relativo, equivalente  comunicao,  paz interior,  sade ou  meditao; o ps- modernismo varreu toda a carga 
subversiva dos valores modernistas,  o ecletismo da cultura que reina.
Nada mais estranho neste tempo planetrio do que aquilo que se designa como "regresso do sagrado" sucesso das sabedoria e religies orientais (zen, taosmo, budismo), 
dos esoterismos e tradies europeias (cabala, pita gorismo, teosofia, alquimia), estudo intensivo do Talmude e da Torah nos Ychivot, multiplicao das seitas; 
incontestavelmente, trata-se de um fen meno muito ps-moderno em ruptura declarada com as Luzes, com o culto da razo e do progresso. Crise do modernismo tomado 
de dvidas sobre si prprio, incapaz de resolver os problemas fundamentais da existncia, inca paz de respeitar a diversidade das culturas e de trazer a todos a 
paz e o bem-estar? Ressurreio do recalcado ocidental no momento em que este j no tem qualquer sentido a oferecer-nos? Resistncia dos indivduos e gru pos  
uniformizao planetria? Alternativa ao terror da mobilidade, revalo rizando as crenas do passado? Reconheamos que este tipo de anlises no nos convence. Convm, 
em primeiro lugar, repor no seu justo lugar a atrac o de que actualmente gozam as mltiplas formas de sacralidade. O pro cesso de personalizao tem por efeito 
uma desero sem precedentes da es fera sagrada, o individualismo contemporneo no pra de minar os funda mentos do divino: em Frana, em 1967, 81 por cento dos 
jovens de quinze a trinta anos de idade declaravam crer em Deus; em 1977, 62 por cento, e em 1979, apenas 45,5 por cento dos estudantes declaravam acreditar em Deus. 
Mais ainda, a prpria religio  arrastada pelo processo de personalizao:
-se crente mas  lista, conserva-se este dogma e elimina-se aquele, mistu ram-se os Evangelhos com o Coro, o zen ou o budismo, a espiritualidade entrou na poca 
caleidoscpica do super-mercado e do self-service. O turn over, a desestabilizao investiu o sagrado ao mesmo titulo que o trabalho ou a moda: durante algum tempo 
cristo, alguns meses budista, alguns anos discpulo de Krishna ou de Maharaj Ji. A renovao espiritual no resulta de uma ausncia trgica de sentido, no  uma 
resistncia  dominao tec nocrtica, mas, causada pelo individualismo ps-moderno, reproduz a sua
lgica flutuante. A atraco do religioso  inseparvel da dessusbstancia!iza o narcsica, do indivduo flexvel em busca de si prprio, sem referencjais nem certezas 
- nem sequer a do poder da cincia - no  de ordem dife rente da atraco efmera, mas intensa, por esta ou aquela tcnica relacio na!, diettica ou desportiva. 
Necessidade de o indivduo se redescobrir a si prprio ou de se aniquilar enquanto sujeito, exaltao das relaes interpes soais ou da meditao pessoal, extrema 
tolerncia e fragilidade podendo consentir nos imperativos mais drsticos, o neo-misticismo participa da gad getizao personalizada do sentido e da verdade, do 
narcisismo psi, seja qual for a referncia ao Absoluto que lhe subjaz. Longe de ser antinmica em relao  lgica maior do nosso tempo, o ressurgimento das espirituali 
dades e esoterismos de toda a espcie no faz mais do que cumpri-la, au mentando o leque das escolhas e possibilidades da vida privada, permitindo um cocktail individualista 
do sentido de acordo com o processo de personali
zao.
Exausto da vanguarda
Manifestao artstica do ps-modernismo: a vanguarda est esgotada, atola-se na repetio e substitui a inveno pela exasperao pura e simples. Os anos sessenta 
do o pontap de sada do ps-modernismo: a despeito da sua agitao, "no realizaram a mnima revoluo no domnio da forma es ttica" (p. 132), exceptuadas algumas 
inovaes no romance. No resto, a ar te macaqueia as inovaes do passado, com a violncia, a crueldade e o ru do por acrescento. Para D. BelI, a arte perde ento 
toda a medida, nega de finitivamente as fronteiras entre a arte e a vida, recusa a distncia entre o espectador e o acontecimento, pe-se no encalo do efeito imediato 
(aces, happenings, Living theatre). Os anos sessenta querem "reencontrar as razes primitivas do impulso" (p. 150); uma sensibilidade irracionalista d-se livre 
curso exigindo sempre mais sensaes, choque e emoo na esteira da Body art e dos espectculos rituais de H. Nietzsch. Os artistas recusam a discipli na do ofcio, 
tm por ideal o "natural", a espontaneidade e entregam-se a uma improvisao acelerada (Ginsberg, Kerouac). A literatura toma como tema privilegiado a loucura, a 
imundcie, a degradao moral e sexual (Bur roughs, Guyotat, Selby, Mailer): "A nova sensibilidade  uma desforra dos sentidos sobre o espritol (p. 139), todas 
as imposies so abandonadas com vista a uma liberdade orgaca e obscena, com vista a uma glorificao
P. Gaudibert, Du culturel au sacr Casterman, 1981.
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instintual da personalidade. O ps-modernismo no passa de um outro no me para designar a decadncia moral e esttica do nosso tempo. Ideia que no , alis, nada 
original, uma vez que H. Read escrevia j no incio dos anos cinquenta: "A obra dos jovens no passa do reflexo atrasado de explo ses que datam de h trinta ou 
quarenta anos".
Dizer que a vanguarda  estril desde 1930  certamente um juzo exces sivo, inaceitvel, a que seria fcil contrapor numerosos criadores e movimen tos cheios de 
originalidade e riqueza. Deste modo, e seja qual for o exagero da afirmao, esta levanta, muito particularmente nos nossos dias, um ver dadeiro problema sociolgico 
e esttico. No conjunto, com efeito, as ruptu ras tornam-se cada vez mais raras, a impresso de dj vu prevalece sobre a de novidade, as transformaes so montonas, 
j no temos a impresso de viver num perodo revolucionrio. Esta queda tendencial da taxa de criativi dade das vanguardas coincide, por outro lado, com a prpria 
dificuldade da afirmao de se ser vanguarda: "A moda dos 'ismos' j passou" (p. 113), as manifestaes estrondosas do incio do sculo, as grandes provocaes, 
dei xaram de ser apreciadas hoje em dia. Perda de flego da vanguarda, tal no significa que a arte esteja morta, que os artistas j no tenham imaginao, mas que 
as obras mais iPiteressantes se deslocaram, j no procuram inven tar linguagens de ruptura, se tornam mais "subjectivas", bricoleuses ou ob sessivas, abandonando 
os cumes da pura busca do Novo. Na esteira dos dis cursos revolucionrios duros ou do terrorismo poltico, a vanguarda gira no vazio, as experimentaes continuam, 
mas com resultados pobres, idnticos ou inessenciais, as fronteiras transgredidas so-no de maneira infinitesimal, a arte conhece a sua fase depressiva. A despeito 
de algumas proclamaes vs, a revoluo permanente j no descobre na arte o seu modelo. Basta vermos certos filmes "experimentais" para disso nos convercermos: 
sem dvi da, sai-se do circuito comercial e da narrao-representao, mas para cair na descontinuidade pela descontinuidade, no extremismo dos planos- sequncia 
em que tudo fica imvel, na experimentao no como pesquisa mas como procedimento. J.-M. Straub filma a perder de vista a mesma es trada montona, A. Warhol filmara 
j um homem a dormir durante seis ho ras e meia e o Empire State Building durante oito horas, sendo a durao do filme a do tempo real. "Ready-made cinematogrfico", 
houve quem dis sesse; mas a diferena est em que o gesto de Duchamp tinha uma parada maior, subvertendo a noo de obra, de ofcio e de emoo artstica. Reco mear 
sessenta anos mais tarde, com a durao a mais e o humor a menos,
A Era do Vazio
a operao do urinol,  um sinal da desorientao, da dessubstancializao da vanguarda. De facto, h mais experimentao, surpresa, audcia no walkman, nos jogos 
de vdeo, no surf. nos filmes comerciais para o grande pblico do que em todos os filmes de vanguarda e todas as desconstrues "telquelianas" da narrativa e da 
linguagem. A situao ps-moderna: a arte j no  um vector revolucionrio, perde o seu estatuto pioneiro e desbrava dor, esgota-se num at ao fim estereotipado 
e os seus heris, por toda a par te, esto fatigados.
, alis, neste momento que comea a ter xito do outro lado do Atlnti co e, depois, cada vez mais tambm na Europa, a noo propriamente dita de "ps-modernismo", 
que devemos enteiider, por uni lado, Cofio crtica  obsesso da inovao e  revoluo a todo o custo, e, por outro lado, como reabilitao do recalcado do modernismo: 
a tradio, o local, a ornamenta o. Primeiro para os arquitectos, e hoje para os pintores, trata-se de atacar o conceito de vanguarda no que ele contm de elitismo, 
de terrorismo, de austeridade: ps-modernismo, ou tambm ps-vanguardismo. Enquanto que o modernismo era exclusivo, "o ps-modernismo  inclusivo, chegando ao ponto 
de integrar o purismo do seu adversrio quando tal parece justificar- se" Ps-modernismo no sentido em que j no se trata de criar um novo estilo, mas de integrar 
todos os estilos, at os mais modernos: vira-se a pgi na, a tradio torna-se fonte viva de inspirao ao mesmo ttulo que a novi dade, toda a arte moderna surge 
ela prpria como uma tradio entre ou tras. Daqui decorre que os valores at h pouco banidos so agora postos na primeira linha, contrariando a radicalidade modernista: 
tornam-se proemi nentes o ecletismo, a heterogeneidade dos estilos no interior de uma mesma obra, o decorativo, o metafrico, o ldico, o vernculo, a memria histrica. 
O ps-modernismo insurge-se contra a unidimensionalidade da arte moderna e propugna obras fantasistas, despreocupadas, hbridas: "Os edifcios mais representativos 
do ps-modernismo do, com efeito, testemunho de uma dualidade muito ntida, de uma deliberada esquizofrenia" Revivalismo ps-moderno inseparvel, por certo, do 
apetite generalizado pelo rtro, mas cuja teorizao explcita revela que a sua significao no se esgota numa simples nostalgia do passado.
O que est em jogo  outra coisa: o ps-modernismo no tem como ob
1 C. Jencks, Le Langage de L 'architecture post-moderne. Denoel, 1979, p. 7.
2 Ibid., p. 6.
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jectivo nem a destruio das formas modernas nem o ressurgimento do pas sado, mas a coexistncia pacfica dos estilos, a descrispao da oposio tra dio-modernidade, 
o afrouxar da antinomia local-internacional, a desesta bilizao das tomadas de partido rgidas pela figurao ou pela abstraco, em suma a descontraco do espao 
artstico paralelamente a uma sociedade em que as ideologias duras j no vingam, em que as instituies se alimen tam de opo e de participao, em que os papis 
e as identidades se con fundem, em que o indivduo  flutuante e tolerante. E demasiado redutor re conhecer nisto a eterna estratgia do capital vido de comercializao 
rpida ou mesmo uma figura do "nih passivo", de acordo com o que escreveu um crtico contemporneo. O ps-modernismo  o registo e a manifestao do processo de 
personalizao que, incompatvel com todas as formas de ex cluso e de dirigismo, substitui pela livre escolha a autoridade das imposi es pr-fixadas, pelo cocktall 
fantasista a rigidez da "linha justa". O inte resse do ps-modernismo reside no facto de ele revelar que a arte moderna, a primeira, apesar de tudo, a ter adoptado 
a ordem das lgicas abertas, con tinuava tributria de uma &a dirigista dados os seus valores vanguardistas exclusivamente orientados para o futuro. A arte moderna 
era uma formao de compromisso, um ser "contraditrio" feito de "terrorismo" futurista e de personalizao flexvel. O ps-modernismo tem por ambio resolver este 
an tagonismo desprendendo a arte do seu enquadramento disciplinar-vanguar dista, instituindo obras regidas unicamente pelo processo de personalizao. Ao proceder 
assim, o ps-modernismo obedece ao mesmo destino que as nossas sociedades abertas, ps-revolucionrias, que tm como objectivo au mentar sem fim as possibilidades 
individuais de escolha e de combinaes. Substituindo a excluso pela incluso, legitimando todos os estilos de todas s pocas, a liberdade criadora j no  intimada 
a vergar-se ao estilo inter nacional, v as suas fontes de inspirao, os seus jogos de combinaes, crescerem indefinidamente: "O ecletismo  a tendncia natural 
de uma cul tura livre nas suas escolhas No incio do sculo, a arte era revolucionria e a sociedade conservadora; esta situao inverteu-se  medida que se verifica 
va a anquilose da vanguarda e das transformaes da sociedade engendradas pelo processo de personalizao. Nos nossos dias, a sociedade, os costumes, o prprio indivduo 
movem-se mais depressa, mais profundamente do que a vanguarda: o ps-modernismo  a tentativa de reinsuflar dinamismo na arte,
flexibilizando e desmultiplicando as suas regras de funcionamento  imagem de uma sociedade j malevel, opcional e que reduz as relegaes.
Advogando o reinvestimento do patrimnio cultural e um sincretismo ad hoc o ps-modernismo apresenta-se sob o signo de uma ntida transforma o de valores e de 
perspectiva, de uma descontinuidade na lgica modernis ta. Esta ruptura, no entanto,  sob muitos aspectos mais aparente do que real. Por um lado, o projecto ps-moderno 
 obrigado a ir buscar ao moder nismo a sua prpria essncia, a saber a ruptura: romper com o modernismo no  possvel a no ser pela afirmao de um Novo suplementar, 
aqui a reintegrao do passado, o que est profundamente de acordo com a lgica modernista. No devemos iludir-nos, o culto do Novo no foi nem ser aboli do, quando 
muito torna-se agora cool e descrispado. Por outro lado, se o efeito do modernismo foi de facto incluir continuamente novos temas, mate riais e organizaes, dessublimando 
ou democratizando assim a esfera estti ca, o ps-modernismo limita-se a dar mais um passo em frente no mesmo caminho. Doravante, a arte integra todo o museu imaginrio, 
legitima a me mria, trata por igual o passado e o presente, faz coabitar sem contradio todos os estilos. Fiel neste ponto ao modernismo, o ps-modernismo conti 
nua a definir-se pelo processo de abertura, pelo alargamento das fronteiras. Por fim, declarando situar-se fora do culto vanguardista do Novo, o ps- modernismo 
abandona um ltimo ideal revolucionrio, renuncia  face de elite do modernismo, quer acompanhar os gostos do pblico satisfazendo ao
1 Curiosamente,  o processo inverso que parece espreitar o futuro filosfico. Os anos ses senta e o incio dos setenta so vanguardistas: o sincretismo  a regra 
do momento, trata-se de quebrar as fronteiras, de descontruir campos e conceitos, de lanar pontes entre as disciplinas separadas e as teorias adversas. O conceito 
adopta a estratgia da abertura e da desestabiliza o: freudo-marxismo, marxismo estruturalista, freudismo estruturalista, antipsiquiatria, esqui zo-anlise, economia 
libidinal, etc. A filosofia recusa o fechamento e adopta o estilo nmada. Esta fase heterclita e revolucionria parece estar a dar lugar a uma fase em que as disciplinas 
reafirmam a sua especificidade, em que a filosofia reconstri o seu territrio e reconquista uma virgindade momentaneamente desflorada pelo contacto com as cincias 
humanas. O ps- modernismo artstico  sincrtico e humorstico, o "ps-modernismo intelectual"  estrito e aus tero, desconfia das promiscuidades e j no tem como 
modelo, ao contrrio do que se passava nos "anos loucos", a arte ou as schizes desejantes. Os bilhetes de identidade esto de novo na ordem do dia. O ps-modernismo 
artstico reata com o museu; o ps-modernismo filosfico igualmente, mas ao preo da excluso da histria e do social, de novo relegados para a ordem emprica trivial. 
O regresso em fora do pensamento do Ser e dos jogos da metafsica no  um remake, mas a manifestao filosfica da era narcsica.
1 C. Jencks, op. cii., p. 128
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mesmo tempo os criadores: a arte v-se expurgada da sua meta revolucion ria e da sua imagem hierrquica de acordo com a linha de fora predomi nante da estratgia 
igualitria. O ps-modernismo no passa de uma ruptu ra de superfcie, conclui a reciclagem democrtica da arte, continua o tra balho de reabsoro da distncia 
artstica, leva at ao extremo limite o pro cesso de personalizao da obra aberta, fagocitando todos os estilos, autori zando as construes mais divergentes, desestabilizando 
a definio da arte moderna.
O movimento ps-moderno continua a inscrever-se no devir democrtico e individualista da arte. Os pintores new-wave da "Figurao Livre" decla ram-se contra a vanguarda, 
recusam-se a entrar, segundo dizem, no jogo da corrida  novidade, reivindicam o direito de ser eles prprios, vulgares, chos, sem talento, o direito de se exprimirem 
livremente alimentando-se de todas as fontes sem a preocupao de serem originais: bad painting. Ao " preciso ser-se absolutamente moderno" substituu-se a palavra 
de ordem ps- moderna e narcsica: " preciso ser-se absolutamente o que se ", num ecle tismo laxista. Nada h a desejar para alm de uma arte sem pretenses, sem 
elevao nem pesquisa, livre e espontnea,  imagem e semelhana da socie dade narcsica e indiferente. A democratizao e a personalizao das obras descobre a 
sua concluso num individualismo flutuante e discount; a arte, a moda, a publicidade deixam de se distinguir radicalmente, fazendo at um largo uso do efeito minuto 
ou do paradoxo:  novo justamente aquilo que o no quer ser, para se ser novo  preciso troar-se do novo. Esta face promo cional do ps-modernismo  a tentativa 
de criar um scoop a partir da pr pria ausncia de acontecimento, de transformar em originalidade a confisso parcial de no-originalidade; o ps-modernismo interina 
aqui o vazio e a sa ciedade, cria um pseudo-acontecimento, alinha pelos mecanismos publicit rios em que a afirmao enftica da marca basta para designar uma realida 
de incomparvel. A operao "trans-vanguarda" (B. Oliva) ou "figurao li vre" no procede sequer do "nihilismo passivo", no h qualquer negao em actividade nela; 
 o processo de dessubstancializao que conquista aberta mente a arte por meio de uma amlgama indiferente, de uma -assimilao acelerada e vazia de todo o projecto. 
Na esteira das grandes ideologias, a ar te, veiculada quer pela vanguarda quer pela "trans-vanguarda",  regida pela mesma lgica do vazio, da moda e do marketing.
Enquanto a arte oficial  arrastada pelo processo de personalizao e de democratizao, a aspirao dos indivduos  criao artstica no pra pa
ralelamente de crescer: o ps-modernismo no significa apenas o declnio vanguardista, mas simultaneamente a disseminao e multiplicao dos n cleos e vontades 
artsticas. Proliferao dos grupos de teatro amador, dos grupos de msica rock ou pop, paixo da fotografia e do vdeo, fascnio pela dana, pelas profisses artsticas 
e pelo artesanato, pelo estudo de certo ins trumento, pela escrita; esta bulimia s tem par na dos desportos e viagens. Toda a gente tem mais ou menos uma vontade 
de expresso artstica, entra mos deveras na ordem personalizada da cultura. O modernismo era uma fa se de criao revolucionria de artistas em processo de ruptura, 
o ps- modernismo  uma fase de expresso livre aberta a todos. O momento em que se tratava de fazer aceder as massas ao consumo das grandes obras cul turais viu-se 
ultrapassado por uma democratizao espontnea e real das prticas artsticas avanando ao mesmo tempo que a personalidade narcsica vida de expresso de si, de 
criatividade, ainda que  maneira cool, oscilan do os gostos ao sabor das estaes do ano, da prtica do piano  pintura sobre seda, da dana moderna aos jogos com 
o sintetizador. Sem dvida, es ta cultura de massa foi tornada possvel pelo processo de personalizao, li bertando faixas de tempo, privilegiando a expresso e 
valorizando a criao, mas o surpreendente  que, de certo modo, a vanguarda tambm contribuiu para o resultado ao experimentar sem descanso novos materiais e composi 
es, desqualificando o saber tcnico em benefcio da imaginao e da ideia. A arte moderna dissolveu a tal ponto as normas estticas que um campo artstico aberto 
a todos os nveis, a todas as formas de expresso, pde por fim emergir. A vanguarda facilitou e desculpabilizou as tentativas e dilign cias artsticas de todos, 
lavrou o campo onde eclodiria uma expresso artsti ca de massa.
Crise da democracia?
Se o modernismo artstico j no perturba a ordem social, as coisas so diferentes com a cultura de massa centrada no hedonismo, em conflito cada vez mais aberto 
com a ordem tecno-econmica. O hedonismo  a contradi o cultural do capitalismo: "Por um lado, a corporao dos assuntos econ micos exige que o indivduo trabalhe 
enormemente, aceite deixar para mais tarde as recompensas e satisfaes, sendo, numa palavra, uma engrenagem da organizao. E por outro lado, a corporao encoraja 
o prazer, a des
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contraco, o deixar-andar.  preciso ser-se consciencioso de dia e libertino  noite" (p. 81). So estas discordncias, e no as contradies inerentes ao modo 
de produo, que explicam as diversas crises do capitalismo. Pondo a tnica no divrcio existente entre a ordem econmica hierrquica-utilitria e a ordem hedonista, 
D. Bel! d incontestavelmente conta de uma contradio essencial, vivida todos os dias por cada um de ns. Mais ainda, esta tenso no parece, pelo menos dentro 
de um futuro previsvel, poder ser sensivel mente reduzida, por grandes que sejam o alargamento e a multiplicao dos dispositivos flexveis da personalizao. A 
ordem coo! depara aqui com o seu limite objectivo; o trabalho continua a ser impositivo e a sua ordem, compa rada com os tempos livres, continua a ser rgida, impessoal 
e autoritria. Quanto maiores forem os tempos livres, a personalizao, mais fastidioso se arrisca a parecer o trabalho, uma coisa sem sentido, de algum modo tempo 
roubado ao nico tempo pleno que  o da vida privada do eu livre. Horrios mveis, trabalho ao domiclio, job enrichment, tudo isso, contrariamente ao optimismo 
dos crentes da "Terceira Vaga", em nada modificar o perfil principal do nosso tempo, ou seja, um trabalho obrigatrio, repetitivo, mo ntono, opondo-se a um desejo 
ilimitado de auto-realizao, de liberdade e cio:  sempre a coabitao dos contrrios, a desestabilizao, a desunifica o da existncia o que nos caracteriza.
Dito isto, fixar uma disjuno estrutural entre economia e cultura no dei xa de colocar algumas dificuldades: no essencial, semelhante teoria mascara a organizao 
real da cultura, oculta as funes "produtivas" do hedonismo e a dinmica do capitalismo, simplifica e cristaliza excessivamente a nature za das contradies culturais. 
Assim, um dos fenmenos marcantes reside no facto de actualmente a cultura se encontrar submetida s normas de gesto prevalecentes na "infraestrutura": os produtos 
culturais so industrializados, subordinados aos critrios de eficcia e de rentabilidade, conhecem as mes mas campanhas de promoo publicitria e de marketing. 
Simultaneamente, a ordem tecno-econmica  inseparvel da promoo das necessidades e, por conseguinte, do hedonismo, da moda, das relaes pblicas e humanas, dos 
estudos de motivao, da esttica industrial: a produo integrou no seu funcionamento os valores culturais do modernismo enquanto que a exploso das necessidades 
permitia ao capitalismo, durante os "gloriosos trinta" e mais tarde ainda, escapar s suas crises peridicas de super-produo. Como sustentar nestas condies que 
o hedonismo  a contradio do capitalismo quando se torna claro que se trata de uma condio essencial do seu funcio
namento e da sua expanso? No h relanamento, no h crescimento possvel a longo e mdio prazo sem uma forte procura de consumo. Como manter a ideia de uma cultura 
antinomiana quando o consumo se revela precisamente o instrumento flexvel de integrao dos indivduos no social, o meio de neutralizar a luta de classes e de abolir 
a perspectiva revolucion ria? No h antinomia simples ou unidimensional: o bedonismo produz conflitos, desarma outros. Se o consumo e o hedonismo permitiram resolver 
a radicalidade dos conflitos de classe, fizeram-no ao preo de uma generali zao da crise subjectiva. A contradio nas nossas sociedades no resulta apenas do 
fosso entre a cultura e a economia, resulta do prprio processo de personalizao, de um processo sistemtico de atomizao e de individuali zao narcsica: quanto 
mais a sociedade se humaniza, mais o sentimento do anonimato se estende; quanto mais h indulgncia e tolerncia, mais au menta a falta de segurana do indivduo 
em relao a si prprio; quanto mais se prolonga o tempo de vida, mais medo se tem de envelhecer; quanto menos se trabalha, menos se quer trabalhar; quanto mais 
os costumes se li beralizam, mais avana a impresso de vazio; quanto mais a comunicao e o dilogo se institucionalizam, mais ss se sentem os indivduos, e com 
maiores dificuldades de contacto; quanto mais cresce o bem-estar, mais a depresso triunfa. A era do consumo engendra uma dessocializao geral e polimorfa, invisvel 
e miniaturizada; a anomia perde os seus pontos de refe rncia, e a excluso, tambm ela agora por medida, desligou-se igualmente da ordem disciplinar.
Mais grave ainda aos olhos de D. Beli, o hedonismo est na origem de uma crise espiritual susceptvel de levar ao abalo das instituies liberais, O hedonismo tem 
como efeito inelutvel a perda da civitas, o egocentrismo e a indiferena pelo bem comum, a ausncia de confiana no futuro, o declnio da legitimidade das instituies 
(pp. 253-254). Valorizando exclusivamente a busca da auto-realizao, a era do consumo mina o civismo, sapa a coragem e a vontade (p. 92), deixa de proporcionar 
qualquer valor superior ou razo de esperana: o capitalismo americano perdeu a sua legitimidade tradicional assente na santificao protestante do trabalho e revela-se 
incapaz de fome cer um sistema de motivao e de justificao como o que toda a sociedade deve ter e sem o qual a vitalidade de uma nao de desfaz. Sem dvida, 
ou tros factores entraram em jogo: os problemas raciais, as bolsas de misria no corao da abundncia, a guerra do Vietname, a contra-cultura contribu ram para 
esta crise de confiana da Amrica. Mas por toda a parte, o hedo
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nismo juntamente com a recesso econmica cria uma frustrao dos desejos que o sistema dificilmente pode reduzir, que se arrisca a favorecer as solu es extremistas 
e terroristas, conduzindo  queda das democracias. A crise cultural leva  instabilidade poltica: " nestas circunstncias que as institui es tradicionais e os 
procedimentos democrticos de uma sociedade se des moronam e que se afirmam cleras irracionais acompanhadas pelo desejo de ver surgir um homem providencial que 
salve a situao" (p. 258). S uma aco poltica empenhada em reduzir os desejos ilimitados, em equilibrar o domnio privado e o domnio pblico, em reintroduzir 
coeres legais como a interdio da obscenidade, da pornografia, das perverses, ser capaz de reinsuflar uma legitimidade s instituies democrticas: "A legitimidade 
po der assentar nos valores do liberalismo poltico se se dissociar do hedonis mo burgus" (p. 260). A poltica neo-conservadora, a ordem moral, remdios para a 
doena senil do capitalismo!
Privatizao exacerbada dos indivduos, divrcio entre as aspiraes e as gratificaes reais, perda da conscincia cvica, isto no autoriza nem a diagnosticar 
uma "mistura explosiva prestes a deflagrar" nem a prognosticar o declnio das democracias. No deveremos antes reconhecer aqui ndices de um reforo da legitimidade 
democrtica? A desmotivao poltica, insepar vel dos progressos do processo de personalizao, no deve esconder a sua face complementar, o apagamento das dilaceraes 
da idade revolucionria, a renncia s perspectivas insurreccionais violentas: o consenso pode ser frouxo, mas  generalizado no que se refere s regras do jogo 
democrtico. Crise de legitimao? No o pensamos: j nenhum partido recusa a regra da concorrncia pacfica em torno do poder, nunca a democracia funcionou co mo 
hoje sem inimigo interior declarado ( excepo dos grupos terroristas ultra-minoritrios e sem qualquer audincia), nunca esteve to segura do bom fundamento das 
suas instituies pluralistas, nunca se encontrou em tal consonncia com os costumes, com um perfil de um indivduo treinado na escolha permanente, alrgico ao autoritarismo 
e  violncia, tolerante e vi do de transformaes frequentes mas sem riscos maiores. "Atribui-se dema siada importncia s leis e muito pouca aos costumes", escrevia 
Tocqueville, observando j que a conservao da democracia na Amrica assentava de modo preponderante nos costumes: isto  ainda mais verdadeiro nos nossos dias, 
enquanto o processo de personalizao no pra de reforar a procura de liberdade, de escolha, de pluralidade e de promover um indivduo des crispado,fair-piay, 
aberto s diferenas. A medida que o narcisismo cresce,
a legitimidade democrtica leva a melhor, ainda que numa modalidade coo!; os regimes democrticos, com o seu pluralismo partidrio, as suas eleies, o seu direito 
 oposio e  informao, mantm um parentesco cada vez mais estreito com a sociedade personalizada do se/f-servjce, do teste e da liberda de combinatria. Ainda 
que os cidados no usem os seus direitos polticos, ainda que o militantismo decaia, ainda que a poltica se torne espectacular, o apego  democracia no  menos 
profundo por isso. Se os indivduos se absorvem na esfera privada, no devemos deduzir demasiado rapidamente que se desinteressam da natureza do sistema poltico; 
a desafeco poltico- ideolgica no  contraditria com um consenso fluido, vago, mas real acer ca dos regimes democrticos. A indifirena pura no significa a 
indiferena pela democracia, significa desafeco emocional dos grandes referentes ideo lgicos, apatia nas consultas eleitorais, banalizao espectacular do poltico, 
a transformao em "ambincia" da poltica, mas tudo isto na arena prpria da democracia. Mesmo os que apenas se interessam pela dimenso privada da sua vida permanecem 
ligados, graas aos laos tecidos pelo processo de personalizao, ao funcionamento democrtico das sociedades. A indiferena pura e a coabitao ps-moderna dos 
contrrios caminham a par: no se vo ta, mas quer poder-se votar; no h interesse pelos programas polticos, mas faz-se questo da existncia de partidos; no se 
lem jornais, nem livros, mas defende-se a liberdade de expresso. Como seria de outro modo na era comunicao, da super-escolha e do consumo generalizado? O processo 
de personalizao trabalha no sentido de legitimar a democracia na medida em que , em toda a parte, um operador da valorizao da liberdade e do plu ral. Seja qual 
for a sua despolitizao, o homo psychologicus no  indife rente  democracia, continua a ser nas suas aspiraes profundas um humo democraticus, converte-se no 
melhor garante da democracia. Sem dvida, a legitimao no se liga a um investimento ideolgico, mas  nisso que est a sua fora; a legitimao contempornea da 
era disciplinar deu lugar a um consenso existencial e tolerante, a democracia tornou-se uma segunda natu reza, um meio de vida, um ambiente. A "despolitizao" de 
que somos teste munhas  acompanhada pela aprovao muda, frouxa, no poltica do espa o democrtico. D. Bel! inquieta-se com o futuro dos regimes da Europa Ocidental, 
mas que vemos passar-se neles? Na Itlia, a despeito de aces terroristas espectaculares, o regime parlamentar mantm-se, ainda que em equilbrio instvel; em Frana, 
a vitria socialista no deu lugar a qualquer confronto de classe e a situao, a partir da, tem-se desenrolado sem cho
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ques nem tenses especiais; apesar de uma crise econmica e de dezenas de milhes de desempregados, a Europa no se v de modo nenhum dilacerada por lutas sociais 
ou polticas violentas. Como dar conta desse facto sem to mar em considerao a obra do processo de personalizao, o indivduo coo! e tolerante que dele resulta, 
a legitimidade surda, mas eficaz por todos con cedida  ordem democrtica?
Restam as contradies ligadas  igualdade. De acordo com D.Bell, a crise econmica que as democracias ocidentais atravessam explica-se em par te pelo hedonismo 
que causa aumentos de salrios permanentes, mas tam bm pela exigncia de igualdade conduzindo a um aumento das despesas so ciais do Estado, de maneira nenhuma compensadas 
por um aumento corres pondente de produtividade. Desde a Segunda Guerra Mundial, o Estado, tornado pea central do controlo da sociedade por fora das suas funes 
alargadas, v-se cada vez mais obrigado a satisfazer reivindicaes que se afirmam como direitos colectivos e no j individuais; a sociedade ps- industrial  uma 
"sociedade comunitria" Estamos a viver uma "revoluo das reivindicaes", todas as categorias da sociedade apresentam doravante reivindicaes de direitos especficos 
em nome do grupo, mais do que em no me do indivduo: "revoluo dos novos detentores de direitos" (p. 242), ba seada no ideal da igualdade, que engendra um desenvolvimento 
considervel das despesas sociais do Estado (sade, educao, auxlios sociais, meio am biente, etc.). Ora esta subida das reivindicaes coincide com a tendncia 
ps-industrial para o predomnio crescente dos servios, sectores onde preci samente o aumento de produtividade  mais fraco: "A absoro pelos servi os de uma 
parcela cada vez mais importante da mo-de-obra trava necessa riamente a produtividade e o crescimento globais; esta transferncia  acom panhada por uma alta brutal 
do custo dos servios tanto privados como p blicos" A preponderncia das actividades de servios, a alta contnua dos seus custos, as despesas sociais do Estado-Providncia 
engendram uma infla o estrutural devida ao desequilbrio da produtividade. O hedonismo, bem como a igualdade, com os seus "apetites desmedidos", contribuem assim 
pa ra amplificar uma crise "profunda e persistente": "A sociedade democrtica apresenta reivindicaes que a capacidade produtiva da sociedade no pode satisfazer" 
(p. 245).
Vers la socit post-industrie/le, op. cit., p. 203 e pp. 417-418.
2 Ibid. p. 200.
Est fora de questo discutir, ainda que rapidamente, nos limites deste ensaio, a natureza da crise econmica do capitalismo e do Welfare State. Sublinhemos apenas 
o paradoxo que conduz um pensamento resolutamente orientado contra o marxismo a desposar por fim uma das suas caractersti cas essenciais, uma vez que, de novo, 
vemos o capitalismo ser aqui analisado em funo de contradies objectivas (ainda que seja a cultura a ser antin mica e j no o modo de produo), de leis mais 
ou menos inevitveis que levaro os EUA a perder a sua hegemonia mundial e a viver o fim do sculo "como um velho proprietrio" (p. 223). Sem dvida, nem tudo est 
decidido, mas as medidas que se imporiam para arrancar, por exemplo, o Estado- Providncia  crise fiscal em que se encontra, opem-se tanto  cultura he donista 
e igualitria que  permitido "perguntarmo-nos se a sociedade ps- industrial alguma vez poder adopt-las" De facto, ao estabeler uma dis juno entre igualdade 
e economia, D. BelI reifica as antinomias do capita lismo, proibe-se de pensar a flexibilidade dos sistemas democrticos, a in veno e a reafirmao histricas. 
Que haja tenses entre a igualdade e a eficcia,  uma evidncia, mas no basta para concluirmos que existe con tradio entre as duas ordens. De resto, que devemos 
entender ao certo por "contradio" ou "disjuno das ordens"? O equvoco no  desfeito nunca, remetendo o esquema ora para uma crise estrutural de um sistema em 
vias de decadncia inelutvel, ora para estrangulamentos profundos, mas sobre os quais  possvel, apesar de tudo, intervir. Igualdade contra utilidade? O que  
notvel, pelo contrrio,  o facto de a igualdade ser um valor male vel, que se pode traduzir na linguagem economista dos preos e dos salrios, modulvel, por 
conseguinte, em funo das opes polticas. Noutras passa gens, de resto, o prprio D. Bel! o reconhece: "A prioridade do poltico, no sentido em que o entendemos, 
 constante" A igualdade no  contrria  eficcia, ou s o  aqui ou ali, pontualmente ou conjunturalmente, em fun o dos ritmos e presso das reivindicaes, 
em funo desta ou daquela poltica da igualdade. Sobretudo, no devemos perder de vista que onde a democracia se encontra estruturalmente reprimida, as dificuldades 
econmi cas so incomparavelmente maiores e conduzem, no melhor dos casos, a so ciedade  penria e, nos casos piores,  pura e simples bancarrota. A igual dade 
no produz unicamente disfunes, obriga tambm o sistema poltico e
1 Vers la socit post-industrzelle, op. cit.. p. 201.
2 Ibid.. p. 363.
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econmico a transformar-se, a "racionalizar-se", a inovar,  um factor de de sequilbrio, mas tambm de inveno histrica. Assim deixam-se j adivi nhar novas polticas 
sociais que tenderiam a conduzir no ao "Estado mmi- mal", mas a uma redefinio da solidariedade social. As dificuldades do Es tado-Providncia, pelo menos em Frana, 
no anunciam o fim das polticas sociais de redistribuio, mas talvez o fim do estdio rgido ou homogneo da igualdade em proveito de uma "fragmentao do sistema 
entre um regime de proteco social reservada s categorias modestas da populao e o recur so aos seguros para as camadas mais abastadas" exceptuados os grandes 
direitos e riscos: a igualdade introduzir-se-ia na era personalizada ou flexvel das redistribuies desiguais. P. Rosanvalion tem razo em ver nos proble mas actuais 
do Estado-Providncia uma crise que excede as simples dificul dades financeiras e em ver nela um deslocamento mais global das relaes entre a sociedade e o Estado; 
em compensao,  mais difcil acompanh-lo quando interpreta a crise como uma dvida acerca do valor da igualdade:
"Se h uma dvida essencial que atravessa o Estado-Providncia  realmente esta: a igualdade ser um valor ainda com futuro?" Com efeito, a igualda de enquanto valor 
no est posta em causa, a reduo das desigualdades continua na ordem do dia, sejam quais forem as dificuldades, que alis no so novas, em determinar a norma 
do justo e do injusto, O que alimenta a presente contestao do We/fare State, nomeadamente nos EUA,  a verifi cao dos efeitos perversos de uma poltica burocrtica 
da igUaldade,  a ineficcia dos mecanismos de subsdio na reduo das desigualdades,  o ca rcter anti-redistributivo dos sistemas de prestaes uniformes baseados 
nos servios gratuitos e nas mltiplas formas de subveno. No se trata do eclipse da igualdade, mas da sua prossecuo atravs de meios mais male veis, de menores 
custos para a colectividade: da essas ideias novas que so o "imposto negativo", o "auxlio directo  pessoa", os "crditos" de educao, sade, alojamento dispositivos 
concebidos para adaptarem a igualdade a uma sociedade personalizada, preocupada com o aumento das possibilidades de escolha individual. A igualdade sai da fase moderna 
e uniforme e recicla se de acordo com a era ps-moderna da diversificao e personalizao dos
1 A. Mi, Laprs-crise est cornnienc, Gallimard, 1982, p. 60. Deste modo, n se trata de sair de uma cultura da igualdade, mas de ponderaras suas deficincias (ibid., 
pp. 46-61).
2 P. Rosanvallon, La Crise de 1Etat-providence, Ed. du Seuil, 1981, p. 36.
H. Lepage, Demain le capitalisme, R. Laffont, col. "Pluriel", 1978, pp. 280-292.
modos de redistribuio, da coexistncia dos sistemas de seguros individuais e dos sistemas de proteco social no momento em que justamente a procura de liberdade 
 superior  de igualdade. Crtica do carcter gratuito dos ser vios, denncia dos monoplios pblicos, apelo  desregulamentao e  pri vatizao dos servios, 
tudo isto caminha no sentido da tendncia ps- moderna para privilegiar a liberdade relativamente ao igualitarismo unifor me, mas tambm para responsabilizar mais 
o indivduo e as empresas obrigando-os a mais mobilidade, inovao, escolhas. A crise da social-
-democracia coincide como movimento ps-moderno de reduo da rigidez individual e institucional: menos relao vertical e paternalista entre o Esta do e a sociedade, 
menos regime nico, mais iniciativa, diversidade e respon sabilidade na sociedade e nos indivduos, e as novas polticas sociais, a mais breve ou mais longo prazo, 
tero que continuar a mesma obra de abertura que o consumo de massa ps em movimento. A crise do Estado-Providncia:
meio de disseminar e de multiplicar as responsabilidades sociais, meio de re forar o papel das associaes, das cooperativas, das colectividades locais, meio de 
reduzir a distncia hierrquica que separa o Estado da sociedade, meio de "aumentar a flexibilidade das organizaes como contrapartida ao aumento das flexibilidades 
dos indivduos meio, por conseguinte, de adap tar o Estado  sociedade ps-moderna, centrada no culto da liberdade indi vidual, da proximidade, da diversidade. Est 
aberta a via pela qual o Estado poder entrar no ciclo da personalizao, pr-se de acordo com uma socie dade mvel e aberta, recusando a rigidez burocrtica, a 
distncia poltica, ainda que benevolente, como acontece no caso da social-democracia.
P. Rosanvallon, op. cit., p. 136.






CAPITULO V
A sociedade humorstica
Tem-se sublinhado de h muito a amplitude do fenmeno de dramatiza o suscitado pelos mass-media: clima de crise, insegurana urbana e plane tria, escndalos, 
catstrofes, entrevistas dilacerantes, pelo que, sob a sua objectividade de superfcie, as informaes se orientam no sentido da emo o, do "pseudo-acontecimento", 
do clich sensacional, do suspense. Tem-se observado menos um fenmeno igualmente indito, de certo modo inverso, apesar de legvel a todos os nveis da quotidianidade: 
o desenvolvimento ge neralizado do cdigo humorstico. Cada ve mais, a publicidade, as emisses de animao, os siogans das manifestaes, a moda adoptam um estilo 
hu morstico. Os comics suscitam um tal apetite que um jornal de San Francis co sofreu uma queda espectacular do seu nmero de leitores por ter decidido suprimir 
a BD de Schulz, os Peanuts. At as publicaes srias se deixam influenciar em maior ou menor medida pela atmosfera da poca: basta ler os ttulos ou subttulos 
dos dirios, dos semanrios e mesmo dos artigos cientficos ou filosficos. O tom universitrio d lugar a um estilo mais tni co feito de piscadelas de olho e jogos 
de palavras. A ai-te, adiantando-se nis so a todas as outras produes, integrou de h muito o humor como uma das suas dimenses constitutivas: impossvel, com efeito, 
eliminar a carga e
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a orientao humorstica das obras, com Duchamp, a anti-arte, os surrealis tas, o teatro do absurdo, a arte pop, etc. Mas o fenmeno no pode sequer ser circunscrito 
 produo expressa dos signos humorsticos, ainda que ao nvel de uma produo de massa; o fenmeno designa simultaneamente o devir inelutvel de todas as nossas 
significaes e valores, do sexo ao Outro, da cultura ao poltico e isto contra a nossa prpria vontade. A descrena ps-moderna, o neo-nihilismo que ganha corpo, 
no  nem ateu nem mort fero, mas doravante humorstico.
Do cmico grotesco ao humor pop
O nosso tempo no detm, longe disso, o monoplio do cmico. Em to das as sociedades, incluindo as selvagens, nas quais a etnografia revela a existncia de cultos 
e mitos cmicos, os divertimentos e o riso ocuparam um lugar fundamental que temos tendncia a subestimar em excesso. Mas se ca da cultura desenvolve de modo preponderante 
um esquema cmico, s a so ciedade ps-moderna pode dizer-se humorstica, s ela se instituiu global mente sob a gide de um processo tendente a dissolver a oposio, 
at ento estrita, do srio e do no-srio; na esteira das outras grandes divises, a do cmico e do cerimonial esbate-se em benefcio de um clima largamente hu 
morstico. Enquanto que a partir da instituio das sociedades estatais, o c mico se ope s normas srias, ao sagrado, ao Estado, representando assim um segundo 
mundo, mundo carnavalesco e popular na Idade Mdia, mundo da liberdade satrica do esprito subjectivo a partir da idade clssica, esta dualidade tende a liquefazer-se 
sob o impulso invasor do fenmeno hu morstico que anexa todas as esferas da vida social, ainda que apesar da nossa oposio. Os carnavais e festas esto reduzidos 
a uma existncia fol clrica, o princpio de alteridade social que incarnavam pulverizou-se e, cu riosamente,  a uma luz humorstica que doravante nos aparecem. 
Os pan fletos violentos perderam a sua preponderncia, os cantores deixaram de ser cabeas de cartaz; um novo estilo descontrado e inofensivo, sem negao nem mensagem, 
emergiu, caracterizando o humor da moda, da escrita jor nalstica, dos jogos radiofnicos, da publicidade, de numerosas BD. O cmi co, longe de ser a festa do povo 
ou do esprito, tornou-se um imperativo so cial generalizado, uma atmosfera coo1, uni meio ambiente permanente que o indivduo sofre at na sua existncia quotidiana.
Nesta perspectiva, podemos determinar trs grandes fases histricas do cmico a partir da Idade Mdia, sendo cada uma delas caracterizada por um princpio dominante. 
Na Idade Mdia, a cultura cmica popular encon tra-se profundamente ligada s festas, aos divertimentos de tipo carnavales co, que, digamo-lo de passagem, chegavam 
a ocupar um total de trs meses por ano. Neste contexto, o cmico v-se unificado pela categoria de "realis mo grotesco" baseado no princpio de rebaixamento do 
sublime, do po der, do sagrado, por meio de imagens hipertrofiadas da vida material e cor poral. No espao da festa, tudo o que  elevado, espiritual, ideal  transpos 
to, parodiado, para a dimenso corporal e inferior (comer, beber, digesto, vida sexual). O mundo do riso edifica-se essencialmente a partir das mais di versas formas 
de grosseria, de rebaixamentos grotescos dos ritos e smbolos religiosos, de arremedos pardicos dos cultos oficiais, de coroaes e destro namentos bufos. Assim, 
por altura do Carnaval, a hierarquia  invertida, o bufo  sagrado rei pelo conjunto do povo, depois ridicularizado pelo mesmo povo que o injuria e lhe bate quando 
o seu reinado chega ao fim; durante a "festa dos loucos", elege-se um abade, um arcebispo e um papa de mascara da que entoam refres obscenos e grotescos sobre rias 
de cantos litrgicos, transformam o altar em mesa de banquete e utilizam excrementos  guisa de incenso. Depois do ofcio religioso, a pardia escatolgica continuava, 
per correndo este "clero" as ruas e lanando excrementos sobre o povo que o es coltava. Introduzia-se igualmente na igreja um burro em honra do qual se celebrava 
a missa: no fim do ofcio, o padre zurrava, seguido pelos fiis. E este mesmo esquema carnavalesco que, at ao Renascimento, impregnar as obras literrias cmicas 
(pardias dos cultos e dogmas religiosos), bem como os gracejos, ditos, pragas e injrias: o riso surge sempre ligado  profanao dos elementos sagrados,  violao 
das regras oficiais. Todo o cmico medie val oscila assim no sentido de uma imaginria grotesca que, antes de tudo, devemos no confundir com a pardia moderna, 
de algum modo dessociali zada, formal ou "estetizada". A mascarada cmica do rebaixamento  uma simblica atravs da qual a morte se afirma como condio de um novo 
nas cimento. Invertendo o alto e o baixo, precipitando tudo o que  sublime e
Mikhal Bakhtine, LOeuvre de Franois Rabelais et la culture populaire ou Moyen ge ei sous la Renaissance. 1970, pp. 28-29. O livro de Bakhtine  essencial para 
tudo o que se re fere  histria do cmico popular da poca. Fornece, alm disso, elementos muito teis para uma interpretao mais global da histria do riso. As 
anlises que a seguir desenvolvemos de vei muito da sua inspirao.
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Gil/es Lipovetsky 1 A Era do Vazio
digno nos abismos da materialidade, prepara-se a ressurreio, um novo co meo aps a morte. O cmico medieval  "ambivalente";em toda a parte se trata de dar a 
morte (rebaixar, ridicularizar, injuriar, blasfemar) para dar alento a uma nova juventude, para iniciar a renovao
A partir da idade clssica, inicia-se o processo de decomposio do riso da festa popular, ao mesmo tempo que se formam os novos gneros da literatu ra cmica, satrica 
e de divertimento, afastando-se cada vez mais da tradi o grotesca. O riso, expurgado do seus elementos alegres, das suas grosse rias e ultrajes bufos, da sua base 
obscena e escatolgica, tende a reduzir-se ao esprito,  ironia pura que se exerce  custa dos costumes e individualida des tpicas. O cmico j no  simblico, 
torna-se agora crtico, tanto na co mdia clssica como na stira, na fbula, na caricatura, na revista ou no vaudevilie. Com isto, o cmico entra na sua fase de 
dessocializao, privati za-se e torna-se "civilizado" e aleatrio. Com o processo de empobrecimento do mundo carnavalesco, o cmico perde o seu carcter pblico 
e colectivo, metamorfoseia-se em prazer subjectivo perante este ou aquele facto engraa do isolado, o indivduo fica no exterior do objecto do sarcasmo, nos antpo 
das da festa popular que ignorava qualquer distino entre actores e espec tadores e abrangia o conjunto do povo ao longo de todo o tempo que dura vam os festejos. 
Em simultneo com esta privatizao, o riso disciplina-se:
devemos entender o desenvolvimento dessas formas modernas do riso que so o humor, a ironia, o sarcasmo, como um tipo de controlo tnue e infini tesimal exercido 
sobre as manifestaes do corpo, anlogo por esse lado ao adestramento disciplinar analisado por Foucault. Trata-se, num e noutro ca so, de decompor os agrupamentos 
macios e confusos, isolando os indiv duos, de quebrar as familiaridades e comunicaes no-hierrquicas, de ins tituir barreiras e compartimentaes, de domesticar 
as funes de um modo constante, de produzir "corpos dceis", comedidos e previsveis nas suas reaces. Nas sociedades disciplinares, o riso, com os seus excessos 
e exube rncias, v-se inelutavelmente desvalorizado, o riso que, justamente, no exi ge qualquer aprendizagem: no sculo XVIII, o riso livre torna-se um com portamento 
desprezado e vil e, at ao sculo XIX, ser considerado baixo e de mau tom, to perigoso como tolo, encorajando a superficialidade e mes mo a obscenidade. A mecanizao 
do corpo disciplinado corresponde a espi ritualizao-interiorizao do cmico: uma mesma economia funcional visan 1 M. Bakhtjne, op. cit. p. 30-31.
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do Poupar as despesas desordenadas um mesmo proces celular que pro duza o indivduo moderno.
Actualmente, estamos para alm da era sati-jca e do seu cmico mordaz. Atravs da publicidade, da moda, dos gadgets, das emisses de animao, dos comies, quem 
no v que a tonalidade dominante e indita do cmico j no  sarcstica, mas 1i O humor que se instala suprime o negativo ca racterstico da fase satrjca ou caricatural 
 denncia trocista corresponden te a uma sociedade baseada em valores reconhecidos substjtuiuse um humor positivo e desenvolto, um cmico teen-ager  base de despropsito 
gratuito e sem pretenses o humor na publicidade ou na moda no tem vtima, no troa, no critica, esforand somente por prodigalizar uma atmosfera eu frica de 
bom humor e de felicidade sem reverso, O humor de massa j no repousa num fundo de amargura ou aborrecimento: longe de mascarar um pessimismo ou de ser a "delicadeza 
do desespero", o humor contemporneo quer-se sem espessura e descreve um universo radioso. "H uma festa super em cada iogurte": a tradicional gravidade ou impassibilidade 
do humor in gls ( verdadeiro humor  caracterstico de um autor que afecta gravidade e seriedade, mas pinta os objectos com uma cor tal que provoca alegria e o 
riso", Lord Kames) desapareceu na mesma vaga que levou tambm a descri o minuciosa e imparcial do real ( humorista  um moralista que se dis fara de sbio", Bergson), 
Actualmente o cmico  bizarro e hiperblico (a publicidade anexa o Oriente e os gurus declaram: "A sua serenidade consiste em reunir todos os seus contratos de 
seguros na UAP"), o gosto dos porme nores, a objectivjda do estilo ingls deu lugar  embriaguez do spot e do siogan. Tendo deixado de fingir a indiferena e O desprendimento, 
o humor de massa  sedutor, tnico e psicadlico; o seu registo pretende-se expressi vo, caloroso e cordial. Para disso nos convencermos basta ouvirmos o estilo 
dos animadores das emisses radiofnicas para "jovens" (Grard Klein): o humor aqui j nada tem a ver com o esprito, como se tudo o que tivesse uma certa profundidade 
pusesse em perigo o ambiente de proximidade e de comunho. O humor, doravante,  aquilo que seduz e aproxima os indiv duos: W. AlIen surge no hit-parade dos sedutores 
de Play Boy. As pessoas tratam-se por "tu", ningum se leva a srio, tudo  "giro", multipJjcam os gracejos que procuram evitar o paternalismo a distncia, o logro 
ou a cls sica histria de fim de banquete. O humor radiofnico, na esteira do colori do da pintura pop, manifesta-se por camadas, o tom  o das verdades de Lapalss 
da familiaridade vazia, dos bales da BD, tanto mais prezado
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quanto mais simples e cursivo. Do mesmo modo, na vida quotidiana, con tam-se muito menos histrias curiosas, como se a personalizao da vida se tornasse incompatvel 
com essas formas de narrao transmitidas pcrr ouvir dizer, repetitivas e codificadas. Nas sociedades mais crispadas, uma tradio viva apoia-se nas anedotas com 
alvos relativamente precisos (os loucos, o se xo, o poder, certos grupos tnicos): hoje o humor tende a desligar-se destes moldes demasiado rgidos e slidos em 
benefcio de uma boa - disposio sem ossatura, sem cabea de turco, e de um gracejar vazio que se alimenta de si prprio O humor, como o mundo subjectivo e intersubjectivo, 
dessubstan cializa-se, aspirado pela lgica generalizada de uma inconsistncia maior. Os ditos de esprito, os jogos de palavras vo igualmente perdendo o seu prest 
gio: quase nos desculpamos por causa de um trocadilho ou rimo-nos acto contnuo do nosso prprio esprito. O humor dominante j no se acomoda com a inteligncia 
das coisas e da linguagem, com essa superioridade que o esprito se arroga; precisa de um cmico discount e pop que j no sugira qualquer eminncia ou distncia 
hierrquica. Banalizao, dessubstanciali zao, personalizao, encontramos todos estes processos entre os novos se dutores dos grandes media: as personagens burlescas, 
hericas ou melodra mticas fizeram o seu tempo, hoje  o estilo aberto, desenvolto e humorstico que se impe. Os filmes de James Bond, as "sries" americanas (Starky 
et Hutch, Sinceramente Seu) pem em cena personagens que tm em comum unia mesma descontrao dinmica acompanhada por uma eficcia exem plar. O "novo" heri no 
se leva a srio, desdramatiza o real e caracteriza-se por uma atitude maliciosamente desprendida ante os acontecimentos. A ad versidade  ininterruptamente atenuada 
pelo seu humor coo! e empreende dor enquanto a violncia e o perigo o cercam por todos os lados.  imagem do nosso tempo, o heri  eficiente, embora no invista 
emocionalmente os seus actos. Doravante, no h entrada para ningum que se leve a srio, ningum  sedutor se no for simptico.
O humor vazio, desestruturado, conquista o prprio significante e desdobra-se no excesso ldico dos signos: testemunha-o a invaso dos comics por onomatopeias, palavras 
brbaras in ventadas intencionalmente para traduzirem, num registo hiperexpressivo e cmico, os rudos do mundo. "Chnaf", "plomp*, "ghuuhugrptch", rrhaawh", hugnuptch", 
"grmf" - estes significan tes j no tm sentido e desprendem-se de todo o referente. O cmico resulta desta autonomia hiperblica da linguagem, da vacuidade dos 
signos que se abandonam  exasperao sonora, ortogrfica e tipogrfica. Cf. Fresnault-Dereuelle, Rcits et discours par la banda. Hachette, 1977, pp. 185-199.
A Era do Vazio
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A par do humor de massa eufrico e convivial afirma um humor de certo modo undergro descontrado sem dvida mas de tom deseiiga. nado, hard. " preciso ter unia 
cabea lixada para chegar a esse Ponto. Mas  unia condio sifle qua lion; caso contrrio, d-se em maluco, com o Iggy Pop, quer dizer, fica-se com os fusveis 
da tola todos queimados e com um sorriso idiota e babado... E os tipos bem podem dizer que o inferno  um stio fixe e bem aqueci com um concerto do Gene Vincent 
e do Hendriz todos os dias, quanto mais tarde l formos parar, melhor, no acham? po bres barracas, como vos odeio!" (Libration) Humor Ps-moderno, new wave, que 
no devemos confundir com o humor negro: o tom  bao, vaga- mente Provocador, sobre o vulgar, exibindo ostensivamente a emancipao da linguagem do sujeito e muitas 
vezes do sexo.  a face dura do narcisis mo que se deleita aqui na nega esttica e nas figuras de um quotidia metalizado Num outro gnero e sem desencanto Mad Max 
II de G. Milier  um exemplo muito caracterstico de um humor hard onde se misturam in dissociavelmente a extrema violncia e o cmico. A "graa" est aqui na en 
genhosida no excesso hiper-realista das mquinas de fico cientfica "pri mitivas", atrozes, brbaras. No h meias tintas, o humor trabalha ao vivo, em grandes 
planos e com efeitos especiais; o macabro  ultrapassado pela apoteose do teatro hollywoodjano da crueldade
Simultaneamente  a uma esterjliza a uma pacifjca do cmico que assistimos na vida quotidiana Assim os disfarces divertimentos ainda muito apreciados nos campos 
do sculo xix, deixaram de se ver, excepto nas festas infantis ou em festas privadas Outrora, os camponeses divertiam. se passeando nas suas aldeias vestidos de 
soldados, de burgueses ricos ou em trajes do sexo oposto. O mimo tambm j no tem grande xito, quando, na mesma poca, no era raro, nomeadamente por altura dos 
casamentos, ver caricaturadas as sogras de modo grotesc . As pragas e blasfmias i no do vontade de rir, as grosseri medida que passaram a ser generaliz mente 
utilizadas e anexadas pela moda, banalizamse, perdem o seu poder de provocao e a sua intensidade agress S os sketc/zes de nzusjc-hal/ ou de caf-concerto (Coluche) 
conseguem dar ainda s grosseria a sua virtude hilariante, e mesmo isso, no como viola da norma, mas como amplifica. o e reflexo do quotidia Os arremedos, que 
nos meios Populares do s culo XIX eram os gracejos mais apreciados e que muitas vezes no se mos
Zeldin, Htstojye des d. Recherches 1979 . II p. 394.
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travam desprovidos de certa brutalidade, j no tm grande eco: inventar uni argumento destinado a ridicularizar outrm aos olhos de todos suscita hoje mais reprovao 
do que encorajamento. Mesmo as "imitaes e adivi nhas" caram em desuso e passaram a ser reservadas s crianas: o cmico exige nos nossos dias mais discrio e 
novidades: j no estamos no tempo em que as pessoas se riam invariavelmente com as mesmas graas; o humor requer hoje o espontneo, o "natural".
Apesar de tudo isto, verifica-se desde h dois ou trs anos um reatar dos grupos mascarados de jovens, nas ruas e nos liceus, por ocasio da Tera- feira Gorda. 
Fenmeno novo, ps-moderno, com efeito: o indivduo moderno achava ridculo ou infantil disfarar-se; o mesmo j no se passa hoje, uma vez que essa recusa parecia 
austera, rgida, convencional. A atitude ps- moderna  menos vida de emancipao sria do que de animao desenvol ta e de personalizao fantasista. Tal  de 
facto o sentido deste regresso descrispado do carnavalesco: de modo nenhum um reinvestimento da tradi o, mas um efeito tipicamente narcsico, hiper-individualizado, 
espectacu lar, dando lugar a uma profuso exasperada de mscaras, ouropis, caracte rizaes, ornamentos heterclitos. A "festa" ps-moderna: meio ldico de uma 
sobre-diferenciao individualista e que, no entanto, no  um meio menos curiosamente srio pela aplicao cuidadosa e sofisticada que o carac teriza.
Pouco a pouco, tudo o que possui uma componente agressiva perde a sua capacidade de fazer rir os rituais de entrada em certas grandes escolas mantm-se, mas a iniciao, 
para ser engraada, no deve ultrapassar um certo limiar de agresso: para alm desse limite, surge como uma violao, destituda de dimenso cmica. De acordo com 
o irreversvel processo de "abrandamento dos costumes", de que falava Tocqueville, o cmico torna-se incompatvel com os divertimentos cruis de outrora: no s 
j ningum riria vendo queimar gatos como era costume no sculo XVI por altura da festa de
Na imprensa ou no desenho (Woljnski, Reiser, Cabu, Gb), assistimos  tendncia in versa, a uma escalada sem precedentes de ferocidade caricatural, de humor "estpido 
e mau", de modo nenhum em contradio com o processo de abrandamento dos costumes, mas a favor deste: o humor atroz pode dar-se tanto mais livre curso quanto mais 
os costumes e relaes hu manas se pacificam. A vulgaridade, a obscenidade ressurgem sob forma humorstica ao mesmo tempo que a higiene  um credo universal e o 
corpo se transforma em objecto de solicitudes e de cuidados permanentes.
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S. Joo mas as prprias crianas j no acham graa, ao contrrio do que se passava em todas as civilizaes anteriores, a martirizar os animais.  medida que o 
cmico se espiritualiza, comea prudentemente a poupar o outro: devemos sublinhar esta atitude sociainiente nova que consiste em re provar o riso  custa de outrm. 
O outro deixa de ser a presa privilegiada dos sarcasmos, rimo-nos hoje muito menos dos vcios e defeitos de outrm:
no sculo XIX e durante a primeira metade do sculo XX, amigos, vizinhos, com os seus infortnios (o cornudo, por exemplo), os seus desvios em rela o  norma, 
eram objecto de gracejos. Actualmente, os que nos esto pr ximos so poupados, no preciso momento em que, como veremos, a imagem do outro perde consistncia e se 
torna humorstica  fora de singularidade. Tal como o humor ldico na ordem dos signos de massa toma o lugar do esprito satrico, assim, ao nvel da quotidianjdade, 
a crtica trocista em rela o a outrm atenua-se e perde o seu efeito hilariante, de acordo com uma personalidade psi em busca de calor convivial e de comunicao 
inter- pessoal.
Correlativamente,  o Eu que se torna um alvo privilegiado do humor, objecto de deri-iso e de auto-depreciao como testemunham os filmes de W. Alien. A personagem 
cmica j no releva do burlesco (B. Keaton, Ch. Chaplin, os irmos Marx), a sua graa j no resulta nem da inadaptao nem da subverso das lgicas, decorre da 
reflexividade, da hiper-conscincia narcsjca, libidinal e corporal. A personagem burlesca  inconsciente da ima gem que Proporciona ao outro, faz rir contra-vontade 
e Sem se observar, sem se ver a agir; so as situaes absurdas que engendra, os gags que pe em cena segundo uma mecnica irremedivel que so cmicos. Pelo contrrio, 
com o humor narcsico, Woody Allen faz rir sem deixar nunca de se anali sar, dissecando o seu prprio ridculo, estendendo-se a si prprio e ao espec tador o espelho 
do seu Eu desvalorizado. o Ego, a conscincia de si, que se torna objecto de humor e j no os vcios de outrm ou os actos extrava gantes.
Paradoxalmente  com a sociedade humorstica que na realidade comea a fase de liquida do riso: pela primeira vez funciona um dispositivo que consegue dissolver 
progressjvame a propenso para o riso. A despeito do cdigo das boas maneiras e da condenao moral do riso, os indivduos de
Norbert Elias, La Civz/isati des Fnoeurs, Le livre de poche "Pluriel", p. 341.
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A Era do Vazio
todas as classes nunca deixaram de conhecer o riso demonstrativo, o riso louco, a exploso de jovialidade. No sculo XIX, nas representaes do caf- concerto, o 
pblico tinha o costume de interpelar jovialmente os artistas, de rir ruidosamente, de lanar comentrios e gracejos em voz alta. H pouco tempo ainda, um ambiente 
semelhante podia encontrar-se nas salas de cine ma populares: Fellini soube restituir esse clima rico de vida e risos mais ou menos grosseiros numa das cenas de 
Roma. Nos espectculos de J. Pujol, as enfermeiras tinham que levar para fora mulheres literalmente doentes de ri so; as farsas e vaudevilies de Feydeau desencadeavam 
tais acessos de riso que os actores se viam obrigados a mimar o fim dos espectculos, de tal mo do a hilariedade era descontrolada Que resta de tudo isto hoje que 
as grandes algazarras de classe desapareceram, que a cidade v terminarem os "gritos", os gracejos dos palhaos, mercadores e charlates, que os cinemas de bolso 
substituem os cinemas de bairro, que o som nas bo'tes apaga as vo zes, que a msica-ambiente anima o silncio discreto dos restaurantes e su permercados? Porque 
 que os grandes acessos de hilaridade do tanto nas vistas seno por nos termos a pouco e pouco desabituado de ouvir essas gar galhadas espontneas que eram to 
frequentes em tempos anteriores? A me dida que a poluio sonora conquista a cidade, o riso extingue-se, o silncio invade o espao humano, s as crianas parecem 
escapar, por um tempo ainda, a esta espantosa discrio. A observao impe-se: depois do riso da festa, so as exploses intempestivas de riso que se encontram 
em vias de desaparecimento; entrmos numa fase da pauperizao do riso que se desen volve  medida que o neo-narcisimo se consolida. Pelo desinvestimento gene ralizado 
dos valores sociais que produz, pelo seu culto da auto-realizao, a personalizao ps-moderna encerra o indivduo em si prprio, f-lo desertar no s da vida 
pblica, mas no fim do ciclo tambm da esfera privada, en tregue esta s perturbaes proliferantes da depresso e das neuroses narcsi cas o .processo de personalizao 
tem no seu termo o indivduo zombiesco, ora cool e aptico, ora esvaziado do sentimento de existir. Como no ver, as sim, que a indiferena e a desmotivao de massa, 
o aumento do vazio exis tencial e a extino progressiva do riso so fenmenos paralelos:  por toda a parte a mesma desvitalizao que surge, a mesma erradicao 
das espon taneidades pulsionas, a mesma neutralizao das emoes, a mesma auto- absoro narc'isica. As instituies esvaziam-se da sua carga emocional do
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mesmo modo que o riso tende a rarear e a moderar-se. Enquanto a nossa sociedade adianta os valores da comunicao, o indivduo, pelo seu lado, j no sente a necessidade 
de se manifestar por meio desse rso demonstrativo que a sensibilidade popular diz to bem ser "contagioso". Na sociedade narcsica, o contacto entre os seres renuncia 
aos signos manifestos, interiorj za-se ou psicologiza-se; o refluxo do riso no passa de uma das manifesta es da dessocializao das formas de comunicao, do 
isolamento sofi ps- moderno.  coisa muito diferente de uma discrio civilizada o que devemos reconhecer na atrofia contempornea do riso:  deveras a capacidade 
de riso que foi atingida, exactamente do mesmo modo que o hedonismo acarretou um enfraquecimento da vontade, O desapossamento, a dessubstanciajizao do indivduo, 
longe de se circunscrever ao trabalho, ao poder, invade agora a sua unidade, a sua vontade, a sua hilaridade. Recolhido em si prprio, o homem ps-moderno tem cada 
vez mais dificuldade em "rebentar" de riso, em sair de si, em sentir entusiasmo, em entregar-se  jovialidade. A faculda de de riso regride: "um certo sorriso" substituiu 
o riso desenfreado. A "bel/e po que)  apenas o comeo, a civilizao continua a sua obra, promovendo uma humanidade nai-csjca sem exuberncia, sem riso, mas sobre-saturada 
de signos humorsticos.
Metapubijcjdade
Provavelmente  a publicidade que revela de modo mais manifesto a na tureza do fenmeno humorstico: filmes, painis, anncios renunciam cada vez mais aos discursos 
sentenciosos e austeros em proveito de um estilo feito de jogos de palavras, de frmulas indirectas ("Tens uns olhos lindos, sa bias?", para uma armao de culos), 
de pastiches (Renault Fuego: "o auto mvel que anda mais depressa do que a sua prpria sombra"), de desenhos jocosos (os bonecos Michelin ou Esso), de grafismos 
tomados de emprstimo aos comics, de paradoxos ("Olhem, no h nada que ver": fita-cola Scotch), de homofonias, de exageros e amplificaes ridculas, de gags, em 
suma, um tom homorstico vazio e ligeiro nos antpodas da ironia mordaz. "Viver de amor e de Gini", isto no quer dizer nada, no chega a ser megalomanaco,  uma 
forma humorstica a meio caminho entre a mensagem de solicitao e o nonsense. Certamente, o spot publicitrio no  nihilista, no cai na incoe
1 Th. Zeldin. op. cit., p. 399 e p. 408.
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rncia verbal e no irracional absoluto, sendo as suas declaraes controladas pela vontade de pr em evidncia o valor positivo do produto. Tal  o limite
do nonsense publicitrio: nem tudo  permitido, a extravagncia deve acabar por servir para realar a imagem do produto. Mas mesmo assim a publicida de pode levar 
muito longe a lgica do absurdo, o jogo do sentido e do no- sentido, e isto num espao em que, sem dvida, a parada  a inscrio da marca, mas que - e  este o 
ponto essencial - de facto no se atribui os meios necessrios para garantir a sua prpria credibilidade. Eis o paradoxo:
a publicidade, que  estgmatizada por todos os quadrantes como instrumen to de doutrinao, de matraqueamento ideolgico, no se atribui os meios necessrios a 
esse inulcar de doutrina. Nas suas formas avanadas, hu morsticas, a publicidade no diz nada, diverte-se consigo prpria: a verda deira publicidade troa da publicidade, 
do sentido como do no-sentido, es vazia a dimenso da verdade, e  a que est a sua fora. A publicidade re nunciou, no sem lucidez,  pedagogia,  solenidade 
do sentido; quanto mais lies, menos ouvintes: com o cdigo humorstico, a realidade do pro duto ganha tanto mais relevo quanto mais aparece sobre um fundo de inve 
rosimilhana e de irrealidade espectaculares. O discurso demonstrativo fasti dioso apaga-se, fica apenas um sinal que acende e apaga, o nome da marca:
o essencial.
O humor publicitrio diz a verdade da publicidade, a saber que ela no  narrativa nem mensagem, nem mtica nem ideolgica: forma vazia na esteira das grandes instituies 
e valores sociais, a publicidade nada diz, aplana o sentido, desarma o no-sentido trgico; o seu modelo  sobretudo o desenho animado. Disneyland aqui e agora, 
nas revistas, nos muros da cidade e nas paredes do metro, um vago surrealismo expurgado de todo o mistrio, de to da a profundidade que nos rodeia, entregando-nos 
 embriaguez desencanta da da vacuidade e da inocuidade. Quando o humor se torna uma forma do minante, a ideologia, com as suas oposies rgidas e a sua escrita 
de mais culas apaga-se. Se, na verdade, continua a ser possvel identificar conte dos ideolgicos, o funcionamento publicitrio, na sua especificidade hu morstica, 
nem por isso deixa de curto-circuitar a dimenso ideolgica, que se v desviada do seu uso maior. Enquanto a ideologia visa o Universal, diz a Verdade, o humor publicitrio 
est para alm do verdadeiro e do falso,
Cl. Lefort, "Esquisse d'une gense de l'idologie dans les socits modernes", in Textures, 1974, 8-9. Texto retomado em Les Formes de l'histoire, Paris, Gailimard, 
1978.
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para alm dos grande significantes, para alm das oposies distintivas. O cdigo humorstico mina a pretenso de sentido, destitui os contedos: em vez e em lugar 
da transmisso ideolgica, a dessubstancializao humorsti ca, a reabsoro do plo referencial.  glorificao do sentido substituu-se uma depreciao ldica, 
uma lgica do inverosmil.
Pela sua tonalidade ligeira e inconsistente, a publicidade, antes at de querer convencer e incitar ao consumo, designa-se imediatamente como pu blicidade: o medium 
publicitrio tem como mensagem primeira o prprio medium, a publicidade  aqui metapublicitria. Neste ponto, as categorias de alienao e de ideologia deixam de 
ser operatrias: est em curso um no vo processo que, longe de mistificar escondendo as suas molas, se apresenta como "mistificao", enunciando proposies que 
por si prprias anulam o seu ndice de verdade. De tal maneira que a publicidade j no tem grande coisa a ver com as funes tradicionalmente ligadas  ideologia: 
ocultao do real, inculcar de contedos, iluso do sujeito. Sob o risco de chocar a nossa conscincia contempornea, largamente hostil ao facto publicitrio, no 
devemos recear situar este ltimo, na sua verso humorstica, como par ticipante no amplo movimento "revolucionrio" da crtica da iluso, movi mento inaugurado 
muito anteriormente na pintura e continuado pela litera tura, pelo teatro, pelo cinema experimental ao longo do sculo XX. Por cer to que  impossvel ignorar que 
o espao publicitrio adopta uma cenografia clssica, continua a ser imediatamente legvel e comunicacional, que ne nhum trabalho formal perturba a sua leitura e 
que a imagem, tal como o texto, permanece submetida s imposies de uma certa narrao- representao. Em suma, tudo o que os movimentos de vanguarda levavam a 
peito desconstruir. No entanto, a despeito destas diferenas altamente sig nificativas, continua a ser verdade que o cdigo humorstico orienta a publi cidade segundo 
um registo que j no  o da seduo clssica. O humor mantm  distncia, impede o espectador de aderir  "mensagem", obsta ao sonho diurno e ao processo de identificao. 
No  isto mesmo, esta distan ciao, o que a arte moderna precisamente realizou? No se tratar da crti ca da iluso, da seduo, que animou de ponta a ponta a 
produo das grandes obras estticas? Do mesmo modo que com Czanne, o cubismo, os abstraccionistas ou o teatro depois de Brecht, a arte deixa de funcionar no registo 
da mim e da identificao, para surgir como puro espao pictural ou teatral, e j no como duplo fiel do real, tambm com o humor a cena
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publicitria se desprende do referente, adquire uma autonomia prpria e eri ge-se em facto publicitrio, numa espcie de formao de compromisso entre a representao 
clssica e a distanciao moderna.
Crtica da iluso e das magias da profundidade que devemos recolocar numa durao muito mais longa, a das sociedades modernas que, na sua ex perimentao histrica, 
se definem pela sua recusa de qualquer subordina o a um modelo exterior, transcendente ou herdado, e correlativamente pe la meta de uma auto-instituio, auto-produo 
do social por si prprio. Nu ma sociedade cujo objectivo  possuir-se por inteiro, fazer-se, ver-se a partir da sua prpria localizao, as formas da iluso deixam 
de ser prevalecentes e esto destinadas a desaparecer enquanto ltimo vestgio de uma heterono mia social. A representao e o seu esquema de fidelidade mimtica, 
a sedu o e o desapossamento do espectador que institui, no podem subsistir em sistemas que rejeitam todo o fundamento ou exterioridade herdados. Por to da a parte 
se manifesta o mesmo processo de autonomizao ou de erradica o dos modelos transcendentes: com a instituio do capitalismo e do mer cado, a produo liberta-se 
das antigas tradies, usos e controlos; com o Estado democrtico e o princpio da soberania do povo, o poder emancipa-se dos seus fundamentos outrora sagrados; 
com a arte moderna, as formas re nunciam  seduo representativa,  iluso da mimsis e descobrem a sua inteligibilidade j no fora de si prprias, mas em si prprias. 
Recolocado neste contexto amplo, o cdigo humorstico j no passa de uma das figuras deste processo de destituio da iluso e de autonomizao do social. E quando 
a publicidade se d a ver como publicidade, no faz mais do que incluir-se na obra j antiga da emergncia de uma sociedade sem opacidade, sem profundidade, uma 
sociedade transparente para si prpria, cnica, a despeito do seu humor cordial.
No quadro de um tempo mais curto, devemos interpretar a suspenso da iluso engendrada pelo cdigo humorstico como uma das formas que assu me o fenmeno de participao, 
hoje instalado a todos os nveis da socieda de. Fazer participar os indivduos, torn-los activos e dinmicos, devolv-los ao seu estatuto de agente de deciso, 
tornou-se um axioma da sociedade aberta. Deste modo o ilusionismo e a desapropriao do sujeito que este m plica torna-se incompatvel com um sistema funcionando 
 base ie opo e de self-service. A educao autoritria, as formas pesadas de manipulao e de domesticao tornam-se obsoletas porque no levam em linha de conta 
a actividade e idiossincrasia do indivduo. Em contrapartida. o cdigo hu
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morstico e a distncia que ele produz entre o sujeito e a informao revela- se correspondente ao funcionamento de um sistema que exige a actividade, ainda que 
mnima, dos indivduos: no h, com efeito, humor que no re queira uma parte de actividade psquica do receptor. O tempo da persuaso macia, da arregimentao 
mecanicista dirigida a indivduos rgidos eclipsa- se; o ilusionismo, os mecanismos de identificao cega tornam-se arcaicos; com o cdigo humorstico, a publicidade 
apela para a cumplicidade espiri tual dos sujeitos, dirige-se a eles utilizando referncias "culturais", aluses mais ou menos discretas, pressupondo que se enderea 
a sujeitos esclarecido. Com isso, entra na sua poca ciberntica.
A moda: uma pardia ldica
A moda  um outro indicador de ponta do facto humorstico. Basta fo lhear as revistas de modas e olhar para as montras para nos convencermos:
tee-shirts com desenhos ou inscries jocosas, estilo cockpit, meias com broches representando esquims ou elefantes ("Personalize as meias banais e sem humor fixando-lhe 
um broche com as suas cores") casquette garonne, cabelos em ourio, palhetas e estrelinhas de maquilhagem, culos de strass, etc. "A vida  curta demais para nos 
vestirmos tristemente". Abolindo tudo o que se aparenta  seriedade, que parece ter-se tornado, tal como a morte, um interdito maior do nosso tempo, a moda liquida 
as ltimas sequelas de um mundo crispado e disciplinar e torna-se maciamente humorstica. O chic, a distino parecem hoje em desuso;  por isso que o pronto a 
vestir suplantou a alta costura na dinmica viva da moda. O que substituiu o bom gosto, o grande estilo, foi o "giro": a idade humorstica adianta-se  idade esttica.
Sem dvida, a moda desde os anos vinte no parou de "libertar" a apa rncia da mulher, de criar um estilo "jovem", de fazer recuar a aparncia faustosa, de inventar 
formas extravagantes ou "giras" (E. Schiaparelli, por exemplo). Mas no conjunto, a moda feminina continuou a ser tributria at aos anos sessenta de uma esttica 
depurada, de uma valorizao da elegn cia discreta e distinta derivada, de certo modo, da moda dos homens a par tir de Brummell. Estamos a sair desse universo, 
tanto no que se refere s mulheres como aos homens: instala-se em seu lugar uma cultura dafanta
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Guies Lipovetsky A Era do Vazio
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sia, o humor tornou-se um dos valores que regem a aparncia do vesturio. O chic j no consiste na adopo do ltimo grito, reside na piscadela de olho, na independncia 
em relao aos estereotipos, no look personalizado, sofisticado e heterclito dos tenores da moda, ou banalizado e relax do co mum dos mortais.  cada vez mais a 
originalidade hipernarcsica para al guns e a uniformidade desenvolta ou descontrada para a maioria; a socieda de narcsica coincide com a desunificao do mundo 
da moda, com a lique faco dos seus critrios e imperativos, com a coexistncia pacfica dos esti los. Fim dos grandes escndalos, das grandes excomunhes da elegncia, 
basta que o indivduo seja ele prprio com ou sem rebuscamento, mas com humor; pode-se experimentar tudo, usar tudo, voltar a usar tudo:  o tempo do "segundo grau"; 
na sua rbita personalizada a moda dessubstancializou se, j no tem aposta nem desafio.
A moda rro, que apareceu h alguns anos,  a este respeito significati va. Anos cinquenta, anos sessenta, voga de condimentos de todos os pero dos, o rtro no 
se assemelha a moda alguma porque j no se define por cnones estritos e inditos, mas apenas pela referncia flexvel ao passado e pela ressurreio dos signos 
defuntos da moda, mais ou menos livremente combinados. Neste sentido, o rtro encontra-se adaptado a uma sociedade personalizada, desejosa de afrouxar os enquadramentos 
e de se instituir em termos de maleabilidade. Paradoxalmente  assim pelo culto ldico do pas sado que o rtro se mostra mais de acordo com o funcionamento do presen 
te. O rtro como anti-moda ou como no-moda: o que no designa o fim da moda, mas a sua fase humorstica ou pardica, do mesmo modo que a anti- arte nunca fez seno 
reproduzir e alargar a esfera artstica, nela integrando a dimenso do humor. Doravante, o destino dos anti-sistemas  aparecerem sob o signo humorstico. O rtro 
no tem contedo, no significa nada e aplica-se, numa espcie de pardia ligeira, a explicitar e a sobre-exibir os significantes arcaicos da moda. Nem nostlgica 
nem mortfera, esta revives cncia caricatural  sobretudo meta-sistemtica: o rtro pe em cena o siste ma da moda e significa a prpria moda na sua reduplicao 
e imitao no segundo grau. Aqui como em toda a parte, os signos tm como ltimo est dio o momento em que se auto-representam, se auto-designam segundo um processo 
metalgico de tipo humorstico que se ridiculariza a si prprio num efeito de espelho. Novo paradoxo das sociedades baseadas na inovao: a partir de um certo limiar, 
os sistemas desenvolvem-se virando-se para si prprios. Se o modernismo assentava na aventura e na explorao, o ps-
modernismo repousa na reconquista, na auto-representao, humorstica pa ra os sistemas sociais, narcsica para os sistemas psquicos.  fuga para a frente substituu-se 
a redescoberta dos fundamentos, o desenvolvimento inte rior.
"Nada est mais na moda do que aparentar no ligar  moda. Veste-se assim um mailiot de dana ou um casaco tipo Mao, com o ar indiferente da mulher que renunciou 
para sempre aos artifcios declarados vulgares para defender o conforto ultra-clssjco dos fatos de trabalho. E como se nada fos se, com um short de boxeur ou uma 
bata de enfermeira habilmente acessori zados, fica-se no ponto mximo da moda". Desde osjeans, a moda no pa rou ainda de promover as roupas originrias do mundo 
do trabalho, do exrcito, do desporto. Calas de peitilho, conjuntos de serapilheira, blusas de pintor, parkas e o casaco de marinheiro, estilo /ogging, saia camponesa 
o frvolo identifica-se com o srio e o funcional, a moda macaqueia o mundo profissional e, ao faz-lo, adopta um estilo explicitamente pardico. Imitan do as roupas 
utilitrias, a moda maleabiliza os seus pontos de referncia, a solenidade "como deve ser" dissipa-se, as formas perdem o que podiam ter de amaneirado ou estudado, 
a moda e o seu exterior deixam de se opor radi calmente, em paralelo com o movimento, por toda a parte visvel, de dene gao das oposies. Hoje a moda pertence 
ao desleixado, ao descontrado;
o novo deve parecer usado e o estudado espontneo. A moda mais sofistica da imita e parodia o natural, tambm aqui em paralelo com a descrispao das instituies 
e costumes ps-modernos. Quando a moda deixa de ser um plo altamente marcado, o seu estilo torna-se humorstico, tendo por motor o plgio vazio e neutralizado.
A pardia no tem somente por objecto o trabalho, a natureza ou a prpria moda; todas as culturas e a cultura se vem hoje anexadas pelo pro cesso humorstico. E 
o que acontece com a voga do afro-styie: assim que  reciclado no registo da moda, o que era ritual e tradicional perde toda a es pessura e cai na mascarada. Eis 
o novo rosto do etnocdio: ao extermnio das culturas e populaes exticas sucedeu um neo-colonialismo humorsti co. Impossibilidade dos Brancos de respeitarem 
o exterior e agora at o inte rior: j no  sequer a excluso, a relegao que governa a nossa relao com o Outro; a sociedade ps-moderna  demasiado gulosa de 
novidades pa ra rejeitar seja o que for. Pelo contrrio, acolhemos tudo, exumamos e fago citamos tudo, mas ao preo da ridicularizao desenvolta do Outro. Sejam 
quais forem as nossas disposies subjectivas, a representao do Outro
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atravs da moda assume uma figura humorstica, porque moldada segundo uma lgica do indito pelo indito, expurgada de toda a significao cultu ral. No se trata 
de desprezo, mas de uma pardia inelutvel, independente das nossas intenes.
Sem que se lhe preste ateno, um fenmeno inteiramente indito e, pa ra mais, de massa surgiu na moda destes ltimos anos; actualmente, com efeito, a escrita foi 
anexada pelo vesturio. Um pouco por toda a parte, nos jeans, camisas, camisolas, as marcas e as inscries oferecem-se ostensiva- mente ao olhar; nas tee-shirts, 
letras, siglas, sintagmas, frmulas, exibem-se com largueza. Invaso sinaltica e tipogrfica. Questo de publicidade? Se ria reduzir excessivamente o problema, 
porque aquilo que se v inscrito na roupa muitas vezes nada tem a ver com o nome ou o produto das firmas. Vontade de quebrar o anonimato das massas, de ostentar 
a pertena de gru po, uma classe etria, uma identidade cultural ou regional? No  isso se quer, as roupas so usadas por qualquer pessoa, em qualquer altura, esta 
pea ou aquela, independentemente de qualquer afirmao de identidade. De facto, integrando a escrita na sua lgica, a moda fez recuar as suas fron teiras, alargou 
o campo das combinaes possveis e, com isso, so a escrita, a cultura, o sentido, a pertena que se vem afectados de um coeficiente hu morstico. Os signos so 
desligados da sua significao, do seu uso, da sua funo, do seu suporte, fica apenas um jogo pardico, um conjunto parado xal onde o vesturio humoriza o escrito, 
o escrito humoriza o vesturio: Gu tenberg em BD descontrado e disfarado.
Tudo o que entra na rbita da moda f-lo sob o signo do humor e, si multaneamente, tudo o que se acha fora de moda conhece o mesmo destino. Que h de mais ridculo, 
de mais engraado, retrospectivamente, do que es sas roupas e penteados que faziam furor h alguns anos? O fora de moda, o prximo e o distante, faz rir, como se 
fosse necessrio o recuo do tempo pa ra realizar em toda a sua radicalidade a natureza humorstica da moda. Ao humor ligeiro, descontrado e vivo do presente, corresponde 
o humor invo luntrio, vagamente empertigado do fora de moda. Se, por conseguinte, a moda  um sistema humorstico, no  apenas em funo dos seus contudos mais 
ou menos contingentes; muito mais em profundidade, -o pelo seu prprio funcionamento, pela sua lgica interminvel de promoo do novo ou do pseudo-novo e, correlativamente, 
de desqualificao das formas. A moda  uma estrutura humorstica, e no esttica, uma vez que, no seu re gisto, tanto o novo como o antigo se acham inelutavelmente 
dotados de um
A Era do Vazio
coeficiente "giro", e isto em funo do seu processo de inovao permanente e cclico. No h novidade que no parea uma forma frvola, curiosa e di vertida; no 
h rtro que no faa sorrir.
Como a publicidade a moda nada diz,  uma estrutura vazia, por isso  um erro ver nela uma forma moderna do mito. O imperativo da moda no  narrar ou fazer sonhar, 
mas mudar, mudar por mudar e a moda s existe atravs deste proceso de desqualificao incessante das formas. Ao faz-lo, ela  a verdade dos nossos sistemas histricos 
baseados na experimentao acelerada, a exposio do seu funcionamento intrnseco sob uma modalidade ldica e despreocupada. A transformao, com efeito, encontra-se 
aqui em acto, mas mais na sua forma do que nos seus contedos: por certo que a moda inova, mas sobretudo parodia a mudana, caricatura a inovao ao programar o 
ritmo das suas transformaes, ao acelerar a cadncia dos seus ciclos, ao identificar o novo com a promoo de gadgets ao simular em ca da estao a novidade fundamental. 
Grande pardia inofensiva do nosso tempo, a moda, a despeito do seu forcing em matria de novidades, da sua dinmica indutora da obsolescncia dos signs, no  
mortfera nem suicid ria (R. Knig), mas humorstica.
Processo humorstico e sociedade hedonista
O fenmeno humorstico nada deve a qualquer voga efmera.  dura- doura e constitutivamente que as nossas sociedades se instituem sob um mo do humorstico: pela 
descontraco ou descrispao das mensagens que en gendra, o cdigo humorstico faz, com efeito, parte do vasto dispositivo poli morfo que, em todas as esferas, 
tende a maleabilizar ou a personalizar as estruturas rgidas e coercivaS. Em vez das injunes de imposio, da distn cia hierrquica e da austeridade ideolgica, 
a proximidade e o desanuvia mento homorStico, a linguagem prpria de uma sociedade flexvel e aberta. Dando direito de cidade  fantasia, o cdigo humorstico aligeira 
as mensa gens e insufla-lhes uma rtmica e uma dinmica que acompanham a promo o do culto da naturalidade e da juventude, O cdigo humorstico produz enunciados 
"jovens" e tnicos, abole o peso e a gravidade do sentido; est para as mensagens como a "linha" e a "forma" esto para o corpo. Do mes mo modo que a obesidade se 
torna "interdita" num sistema que exige a dis
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ponibilidade e a mobilidade permanente dos sujeitos, assim os discursos en fticos se eclipsam, incompatveis como se revelam com a exigncia de ope racionalidade 
e de celeridade do nosso tempo. E preciso ser contundente, ter flash; os pesos dissipam-se em benefcio da "vida", dos spots psicadlicos, da esbelteza dos signos: 
o cdigo humorstico electrifica o sentido.
Face jovial do processo de personalizao, o fenmeno humorstico tal como se manifesta nos nossos dias  inseparvel da era do consumo. Foi o boom das necessidades 
e a cultura hedonista que o acompanhou que torna ram possveis tanto a expanso humorstica como a desqualificao das for mas cerimoniosas de comunicao. A sociedade 
em que a felicidade de mas sa se converte em valor cardial  inelutavelmente levada a produzir e a con sumir a grande escala signos adaptados a este novo ethos, 
ou seja, mensa gens bem dispostas, felizes, capazes de proporcionar a todo o momento, pa ra a maioria, um prmio de satisfao directa. O cdigo humorstico  real 
mente o complemento, o "aroma espiritual" do hedonismo de massa, na con dio de no assimilarmos este cdigo ao sempiterno instrumento do capital, destinado a estimular 
o consumo. Sem dvida, as mensagens e comunia es engraadas correspondem aos interesses do marketing, mas o verdadei ro problema  saber porqu. Porqu a vaga 
dos comics mesmo entre os adultos quando, h pouco tempo ainda, em Frana, a BD era ignorada ou desprezada? Porqu uma imprensa saturada de ttulos jocosos e ligeiros? 
Porque  que o spot humorstico substituiu o reclame de outrora, "realista" e falador, srio e de texto pesado? Impossvel darmo-nos conta da evoluo apenas atravs 
do imperativo de vender, dos progressos do design ou das tcnicas publicitrias. Se o cdigo humorstico se imps, "pegou",  porque corresponde a novos valores, 
a novos gostos (e no somente aos interesses de uma classe), a um novo tipo de individualidade que aspira ao cio e  des contraco, alrgico  solenidade do sentido, 
ao cabo de meio sculo de so cializao via consumo, Decerto, o humor eufrico destinado a um largo pblico no nasceu com a sociedade de consumo: nos EUA, desde 
o incio do sculo, existe um mercado da BD, o desenho animado conhece um gran de xito na mesma poca, reclames divertidos comeam a aparecer por vo!ta de 1900 
(o pneu Michelin bebe o obstculo", silhueta jovial do "Pre Lus tucru", faccias do trio "Ripolin"). No entanto,  somente com a revoluo das necessidades, com 
a emergncia das novas finalidades hedonistas que a generalizao e a legitimao do humor ldico se tornaro possveis.
Actualmente, o humor pretende-se "natural" e tnico: o correio dos leito-
A Era do Vazio
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res, os textos jn em Libration ou Actuei, por exemplo, fazem um largo uso de re exclamativas e de epifenmenos, de interjeies de expres ses quotidja e directas; 
em momento algum deve o humor parecer es dado ou demasiado intelectual: "De A (pronunciem 'ei') a W (pronunciem dabli), de AC/DC a Wild Horses, tudo o que  preciso 
saber (e aprender) sobre os grupos de hard rock para no se fazer figura de parvo na festana de fim de ano organiza pela filha do reitor. No digo isto segunda 
vez. Ao trabalho kids, ao trabalho!" (Lib O cdigo humorstico j no se identifi ca com o tacto, com a elegncia do saber-viver burgus; veicula a linguagell) das 
ruas, um tom familiar e despreocupado A concorrncia entre as classes em vista da dominao simblica s  superfcie esclarece um fenmeno cuja origem deve ser 
situada na revoluo global do modo de vida e no nas lutas em torno do estatuto e do prestgio. nge de ser um instrumento de nobre za cultural, o cdigo humorstico 
esvazia a distino e a respeitabilidade dos signos de uma poca anterior, destrona a ordem das proeminncias e distn cias hierrquicas em benefcio de uma banalizao 
relax, promovida hoje  categoria de valor cultural Do mesmo modo no  de aceitar a lamentao marxista: so tantas mais as representaes joviais quanto mais fliontono 
e pobre  o real; a hipertrofia ldica compensa e dissimula a real infelicidade quotidia Na realidade,  a um trabalho de aligerarn dos signos, a fa z-los soltar 
o lastro de toda a gravidade que se aplica o cdigo humorstico, verdadeiro vector da democratiza dos discursos por meio de uma des substancializao e neutralizao 
ldicas. Democratizao que se liga menos  aco da ideologia igualit do que ao Sul-to da sociedade de consumo, que alarga as paixes individualistas induz um desejo 
de massa de viver li vremente e desvalorizando correlativamente as formas estritas: a cultura do espontneo, free style, de que o humor actual no passa de uma das 
ma nifestaes caminha a par do individualismo hedonjsta. historicamente s foi tornada Possvel pelo ideal int da liberdade individual nas socie dades personalizadas
, porm, verdade que o humor que vemos transbordar hoje um pouco por toda a parte no  uma inveno histrica radjcalmente indita. Seja qual for a novidade do 
humor pop, h certos laos de filiao que o unem ainda a um "estado de alma" particular, de origem anterior, o sense of hu Pnour, difundido ao longo dos sculos 
Xviii e XIX, nomeadamente em In glaterra. Pelo seu carcter convjvjal com efeito, o humor contemporneo li ga-se ao humor Clssico, ele prprio j sob muitos aspectos 
indulgente e ame-
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no; mas se o primeiro resulta da socializao hedonista, o segundo deve ser associado ao advento das sociedades individualistas, a essa nova significao da unidade 
humana relativamente ao conjunto colectivo, que teve como efei to, entre outros, o de contribuir para desvalorizar e refrear o uso da violn cia. O humor, diferentemente 
da ironia, surge como uma atitude que traduz uma espcie de simpatia, de cumplicidade, ainda que fingidas, para com o sujeito visado: ri-se com ele e no dele. Como 
no associar este elemento afectivo prprio do humor, esta colaborao subjectiva,  humanizao geral das relaes interpessoais correlativas da entrada das sociedades 
ocidentais na ordem democrtica Houve uma suavizao do cmico co mo houve uma suavizao das punies, como houve uma diminuio da violncia de sangue; hoje no 
fazemos mais do que continuar por outros meios esta moderao. "Optmismo triste e pessimismo alegre" (R. Escarpit), o sense of hurnour consiste em acentuar o lado 
engraado das coisas, sobre tudo nos momentos difceis da vida, em gracejar, por penosos que os aconte cimentos sejam. Mesmo hoje, quando a tonalidade dominante 
do cmico se desloca, o humor "digno" continua a ser valorizado: os filmes de guerra americanos, por exemplo, tornaram-se mestres na arte de pr em cena he ris 
obscuros cujo humor frio  proporcional aos perigos arrostados: aps o cdigo cavalheiresco da honra, o cdigo homoristico com ethos democrtico. Impossvel, com 
efeito, compreender a extenso deste tipo de comportamen to sem o ligar  ideologia democrtica, ao princpio da autonomia individual moderna, que permitiu a valorizao 
das declaraes excntricas voluntrias, das atitudes no conformistas, desprendidas mas sem ostentao nem desa fio, de acordo com uma sociedade de iguais: "Uma 
pitada de humor basta para tornar todos os homens irmos" O humor preenche esta dupla funo democrtica: permite ao indivduo desligar-se, ainda que pontualmente 
da imposio do destino, das evidncias, das convenes, afirmando com ligei reza a sua liberdade de esprito, e ao mesmo tempo impede o ego de se levar a srio, 
de forjar uma imagem superior ou altaneira de si prprio, de se ma nifestar sem auto-domnio, de maneira impulsiva ou brutal. O humor pacifi ca as relaes entre 
os seres, desarma os motivos de frico, conservando a exigncia da originalidade individual. Da o prestgio social do humor, cdi go de aprendizagem igualitria 
que devemos conceber como um instrumento
A Era do Vazio        149
de socializao paralelo aos mecanismos disciplinares. Apesar de tudo, e sendo embora auto-controlado, disciplinado at na sua atitude humorstica, o homem moderno 
no pode ser identificado com uma presa cada vez mais submissa  medida que se afirmam as tecnologias microfsicas do poder: pe lo humor, com efeito, o indivduo 
disciplinar revela j um desprendimento, uma desenvoltura, pelo menos aparente, que inauguram a esse nvel uma emancipao da esfera subjectiva que, a partir de 
ento, no parmos de alargar.
O sense of humour, com a sua dualidade de stira e de sensibilidade fi na, de extravagncia idiossincrtica e de seriedade, correspondia  primeira revoluo individualista, 
ou seja ao desenvolvimento dos valores de liberda de, de igualdade, de tolerncia enquadrados pelas normas disciplinares de auto-controlo; com a segunda revoluo 
individualista veiculada pelo hedo nismo de massa, o humor muda de tonalidade, ligando-se prioritariamente aos valores de cordialidade e de comunicao. Assim, na 
imprensa e sobre tudo no humor quotidiano no se trata, no fundo, tanto de ridicularizar a lgica, de denunciar ou de satirizar, ainda que com benevolncia, certos 
acontecimentos, como de estabelecer simplesmente um ambiente relax, dis tendido: de certo modo, o humor preenche uma funo ftica. Dessubstan cializao do cmico 
que corresponde  dessubstancializao narcsica e  sua necessidade de proximidade comunicacional: humor pop e cdigo convi vial fazem parte de um mesmo dispositivo, 
so ambos correlativos da cultura psi e da individualidade narcsica, ambos produzem "calor" humano numa sociedade que valoriza as relaes personalizadas, ambos 
democratizam os discursos e comportamentos humanos. Se o cdigo humorstico conquistou tamanho lugar, mesmo na fala de todos os dias, isso no se liga apenas ao 
hedonismo do consumo, mas tambm  psicologizao das relaes humanas que paralelamente se desenvolveu. O humor fun e descontrado passa a do minar quando a relao 
do indivduo com o outro e consigo prprio se psico logiza ou esvazia de dimenso colectiva, quando o ideal se transforma no es tabelecimento de "contacto" humano, 
quando j ningum, no fundo, acredi ta na importncia das coisas. No se tomar a srio: esta democratizao do indivduo j no exprime somente um imperativo ideolgico 
igualitrio, tra duz tambm a ascenso desses valores psi que so a espontaneidade e a co municao, traduz uma transformao antropolgica, a vinda ao mundo de 
uma personalidade tolerante, sem grandes ambies, sem uma ideia elevada de si, sem crena firme. O humor que nivela as figuras do sentido em pisca-
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1 P1 D. Thompson, LHumour britannigue, Lausanne, 1947, p. 27.
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las de olho ldicas molda-se  imagem da flutuao narcsica, que se
ostra uma vez mais aqui um instrumento democrtico.
Os domnios mais ntimos, outrora tabs, o sexo, o sentimento, entram o jogo; vejam-se os "pequenos anncios" que se pretendem a todo o custo ngraados e originais: 
"Mais belo que James Dean, mais depressa do que m Da tona. Mais arriscado do que Mad Max... Calha-te, respondes, depois v-se". Os tempos mudaram: j no fica mal 
exibir os problemas pessoais, confessar as prprias fraquezas, desvendar a solido que se sente, consistin do o ideal, no entanto, em exprimir tudo isto no "segundo 
grau", atravs de hiprboles modernistas cuja amplificao  de tal ordem que j no signifi cam nada a no ser o gosto humorstico do destinador. Simultaneamente, 
o humor torna-se uma qualdade a exigir do outro;: "Es viva, simptica, gos tas de dar e receber, de brincar, viajar, rir, rir, acariciar, de amor, amor, h, h, 
eu tambm... Como  que eu fiz para no te descobtir? Ah! s um bocadinho tmida? Hum, eu tambm, se quiseres (entoao de Coluche)". Dizer tudo, mas no se levar 
a srio, o humor personalizado  narcsico,  tanto uma barreira protectora do sujeito como um meio cool de este se ence nar. A dualidade ps-moderna reaparece aqui: 
o cdigo privilegiado de co municao com o outro estabelece-se de modo humorstico, enquanto que a relao do indivduo consigo prprio se baseia no trabalho e 
no esforo (te rapias, regimes, etc.). No entanto, um novo hbrido apareceu: "O riso tera putico. Mtodo suave, profundo, de redescobrir uma energia vital decupli 
cada. Por meio de tcnicas de respirao e de solicitao sensorial, aborda mos o nosso corpo e a nossa mente numa ptica nova feita de abertura e de disponibilidade. 
Este riso vindo das Indias', reintroduz na nossa vida um flego antigo e esquecido".
O cdigo humorstico penetrou no universo feminino, durante muito tem po afastado dessa dimenso, votado como estava a uma frivolidade das apa rncias, na realidade 
paralela, como o observou. E. Sullerot, a uma inalter vel seriedade conservadora e moralizante. Foi com o aparecimento da mu lher "consumidora" no decurso dos anos 
vinte e trinta que o arqutipo femi nino comeou a mudar, passando de uma certa melancolia a uma jovialida de exibida, ao optimismo do keep srniling. Hoje, o humor 
derrama-se larga mente na imprensa feminina, desde h algum tempo a moda das roupas de dentro femininas passou at a ser apresentada em comic strips (El/e), h mulheres 
que so cartoonistas clebres, a escrita, sobretudo depois da ofen siva feminista, emprega livre e desculpabilizadamente as formas humorsti
cas; nos folhetins americanos, as mulheres tm as mesmas maneiras de falar e as mesmas atitudes descontradas que os homens. A sociedade hedonista, generalizando 
os gostos fun, legitimou o humor em todas as categorias so ciais, em todos os grupos de idade e de sexo, um humor de resto cada vez mais idntico, acessvel a todos, 
dos "sete aos setenta e sete anos".
Destino humorstico e idade ps-igualitria
Consequncia ltima da idade do consumo, o processo humorstico inves te a esfera do sentido social, os valores superiores tornam-se pardicos, inca pazes como so 
de suscitar qualquer investimento emocional profundo. Sob o impulso dos valores hedonistas e narcsicos, os referenciais importantes es vaziam-se da sua substncia, 
os valores que estruturavam ainda o mundo da primeira metade do sculo XX (poupana, castidade, conscincia profissio nal, sacrifcio, esforo, pontualidade, autoridade), 
j no inspiram respeito, convidam mais ao sorriso do que  venerao: espectros de vaudevilies, algo de vagamente vetusto ou ridculo se prende, contra nossa vontade, 
aos seus nomes. Depois da fase de afirmao gloriosa e herica das democracias em que os signos ideolgicos rivalizavam em nfase (a nao, a igualdade, o so cialismo, 
a arte pela arte) com os discursos hierrquicos destronados, entra mos na era democrtica ps-moderna que se identifica com a dessubstancia lizao humorstica dos 
critrios sociais maiores.
Deste modo o processo humorstico no designa apenas a produo deli berada dos signos "giros", mas simultaneamente o devir pardico das nossas representaes e 
isto para alm do controlo voluntrio dos indivduos e gru pos: actualmente, mesmo as coisas mais srias, mais solenes - sobretudo essas - por contraste assumem 
uma tonalidade cmica. Que poder escapar ainda, no momento em que o prprio conflito poltico, a diviso direita- esquerda se dissolve numa pardia de rivalidade 
bem simbolizada pelos no vos e altamente risveis espectculos que so os debates televisivos? Ao per sonalizar-se, a representao do poltico torna-se largamente 
humorstica:
quanto mais as grandes opes deixam de se opor drasticamente, mais o poltico se torna caricatural em cenas de catch a dois ou a quatro; quanto mais a desmotivao 
poltica cresce, mais a cena poltica se assemelha a um strip-tease de boas intenes, de honestidade, de responsabilidade e se meta morfoseia em mascarada bufa. 
O estdio supremo da autonomia do poltico
A
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A Era do Vazio
Guies Lipovetsky
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no  a despolitizao radical das massas,  a sua espectacularizao, a sua decadncia burlesca: quando as oposies entre partidos se tornam uma far sa e so cada 
vez mais como tal consideradas, a classe poltica pode funcio nar em sistema fechado, apurar-se em nmeros de televiso, entregar-se s delcias das manobras dos 
estados-maiores, das tcticas burocrticas, prosse guindo, paradoxalmente, o jogo democrtico da representao, ante a apatia divertida do eleitorado. Instrumento 
de autonomizao dos sistemas e apa relhos, e aqui do poltico, o processo humorstico entrou ele prprio na sua fase de autonomia: nos nossos dias, a representao 
humorstica investe os sectores mais "graves", afirma-se segundo uma necessidade incontrolada, in dependentemente das intenes e finalidades dos actores histricos. 
Tornou- se um destino.
Novembro de 1980. Coluche, candidato s eleies presidenciais, depara com uma ampla corrente de simpatia, enquanto se forma uma comisso de apoio "sria". Poderia 
imaginar-se fenmeno mais revelador do devir hu morstico da poltica? Um bobo candidato: j ningum se escandalizou ex cepto a prpria classe poltica, sobretudo 
a de esquerda. No fundo, toda a gente fica encantada ao ver um cmico profissional ocupar a cena poltica, uma vez que esta se transformou j em espectculo burlesco: 
com Coluche, a mascarada poltica limita-se a subir aos extremos. Quando o poltico perde a eminncia e se personaliza, no  supreendente que um artista de varieda 
des consiga reunir uma percentagem notvel de intenes de voto destinadas inicialmente aos lderes polticos, esses cmicos de segundo plano: pelo me nos, rir-se- 
por uma vez a valer. O efeito Coluche no procede nem de uma nostalgia carnavalesca nem de um lgica de transgresso (que supe uma or dem fundamentalmente sria); 
devemos ver nele uma pardia pura a investir os mecanismos democrticos, uma pardia que exacerba a pardia do polti co.
Os valores, a poltica, a prpria arte so presa desta degradao irresist vel. Os bons velhos tempos do fim do sculo passado e do incio do sculo XX em que a 
arte causava escndalo terminaram: doravante, as obras mais despojadas, mais problemticas, as mais "minimais" - sobretudo essas - tm um efeito cmico, independentemente 
do seu contedo. Tem-se glosado muito acerca do humor dos artistas pop, sobre a dessacralizao da arte que operaram, mas, mais profundamente, foi o conjunto da 
arte moderna que adquiriu pouco a pouco uma tonalidade humorstica. Com as grandes des construes cubistas e a fantasia surrealista, com a abstraco geomtrica 
ou
expressionista e a exploso das correntes pop, novos realistas, land ar!, body art, happenings, performances, pattern, ps-modernismo de hoje, a arte deixou de "parecer 
sria". Na sua raiva de inovao, a arte dissolveu todas as suas referncias clssicas, renunciou ao saber-fazer e ao belo, no pra de destruir a representao, 
sabota-se enquanto esfera sublime e entra, por essa via, na era humorstica, esse ltimo estdio de secularizao das obras, est dio em que a arte perde o seu estatuto 
transcendente e surge como uma acti vidade entregue  escalada do "seja o que for",  beira da impostura.  caa de materiais desqualificados, de "aces", de formas 
e volumes elementares, de novos suportes, a arte torna-se engraada  fora de simplicidade e de reflexividade sobre a sua prpria actividade,  fora de tentar 
escapar  Ar te,  fora de novidades e de "revolues". O humor das obras j no  fun o do seu teor intrnseco, associa-se  extrema radicalizao da operao 
artstica, s suas desterritorializaes-limite, que surgem aos olhos do grande pblico como gratuitas e grotescas. A dissipao dos grandes cdigos estti cos, 
o extremismo das vanguardas, transformou de maneira radical a per cepo das obras, que se tornam equivalentes a absurdos gadgets de luxo.
Mais directamente ainda, com a fragmentao extrema dos particularis mos e a exasperao minoritria das redes e associaes (pais celibatrios, lsbicas toxicmanas, 
associaes de agorafbicos e claustrofbicos, de obe sos, de calvos, de feios e feias, naquilo a que Roszak chama "rede situacio nal"),  o prprio espao da reivindicao 
social que assume uma colorao humorstica. Risibilidade ligada  desmultiplicao,  miniaturizao inter minvel do direito s diferenas;  semelhana do jogo 
das caixas que tm dentro outras caixas cada vez mais pequenas, o direito  diferena no pra de subdividir os grupos, de afirmar as micro-solidariedades, de emancipar 
novas singularidades nas fronteiras do infinitesimal. A representao hu morstica resulta do excesso pletrico das ramificaes e subdivises capila res do social. 
Novos siogans: Fat is beautifui, Bald is beautifui; novos gru pos: Jewish Lesbian Gang, homens na menopausa, Non-parents organisa tions, quem no v o carcter humorstico 
desta afirmao de si e da socia bilidade ps-moderna a meio caminho entre o gadget e a necessidade histri ca; cmico instantneo, devemos acrescentar, que se esgota 
imediatamente, pois qualquer associao entra com toda a rapidez nos costumes do tempo. Ao transistorizar-se, a diviso social perdeu o seu fulgor trgico, a sua 
pat tica centralidade anterior, gadgetizou-se sob a proliferao extrema das dife renciaes microscpicas.
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Sem dvida, nem todas as divises so desta ordem: os conflitos centra dos em torno da produo, da repartio, do ambiente, continuam portado res de caracteres 
incontestavelmente srios. No entanto,  medida que a ideologia revolucionria se dissipa, as aces sociais, mesmo que enquadra das por aparelhos burocrticos, 
exploram uma linguagem e siogans mais descontrados; aqui ou ali, cartazes, bandeirolas, autocolantes, j no hesi tam em adoptar um estilo humorstico, mais ou 
menos sarcstico, mais ou menos negro (os antinucleares, os ecologistas); as manifestaes dos movi mentos "de ruptura" vo muitas vezes coloridas, por vezes mascaradas, 
que acabam em "festa": com algum atraso, tambm o militantismo a pouco e pouco se descrispa. Em particular nos novos movimentos sociais, assistimos a uma vontade 
mais ou menos acentuada de personalizar as modalidades do combate, de "arejar" o militantismo, de deixar de separar completamente a poltica da existncia, com vista 
a uma experincia mais global, reivindicati va, comunitria, ocasionalmente "divertida". Levar os problemas a srio e lu tar, est bem; mas no perder o sentido 
do humor; a austeridade militante j no se impe com a necessidade de outrora, a descontraco dos costumes hedonistas e psicologstas imiscui-se at na ordem das 
aces sociais que nem por isso excluem algumas vezes confrontos duros.
Tal como a disperso polimorfa dos grupos humoriza a diferenciao so cial, do mesmo modo o hiper-individualismo do nosso tempo tende a susci tar uma apreenso do 
outro de tonalidade cmica.  fora de personaliza o, cada indivduo se torna um bicho curioso para o outro, vagamente bi zarro e, todavia, desprovido de qualquer 
mistrio inquietante: o outro como teatro absurdo. A coexistncia humorstica, eis ao que nos fora um universo personalizado; outrm j no consegue chocar, a originalidade 
perdeu a sua fora de provocao, resta apenas a estranheza irrisria de um mundo em que tudo  permitido, em que se v de tudo e em que nada suscita mais do que 
um sorriso passageiro. Actualmente os adultos vivem, vestem-se, "ba tem-se" como os cow-boys e os ndios da grande poca durante os seus me ses de frias; outros 
"adoptam" e acarinham bonecas como se fossem crian as, deambulam de patins, exibem com vigor e pormenor os seus problemas sexuais nas ondas da rdio; as crenas 
e seitas, as prticas e modas mais ini maginveis descobrem acto contnuo adeptos em massa; o outro entrou na fase do "tanto faz", do desalinhamento burlesco. A 
partir daqui, o modo de apreenso de outrm no  nem a igualdade nem a desigualdade,  a curio sidade divertida, estando cada um de ns condenado a aparecer a maior 
ou
A Era do Vazio
menor prazo como curioso, excntrico, aos olhos dos outros. ltima dessa cralizao, a relao inter-humana  aqui expurgada da sua gravidade ime morial no mesmo 
movimento que leva  queda dos idolos e grandes deste mundo; ltima expropriao a imagem que oferecemos a outrm v-se vota da ao cmico. DesapoSSamento correspondente 
ao institudo pelo inconscien te e pelo recalcamento: tanto na ordem subjectiva como j o in divduo conhece uma mesma espoliao na sua representao. Com o in consciente, 
o ego perde o domnio e a verdade sobre si prprio; com o pro cesso humorstico o Eu degradase em fantoche ectoplSmico. Por isso no devemos ignorar o preo e a 
parada da era hedonista que dessubStaflcializ0I tanto a representao como a prpria unidade do indivduo. O processo de personalizao no se contentou com quebrar 
desvalorizar, para falarmos como Nietzsche, a representao do ego por meio do psicanaliSmO ao mes mo tempo degradou a representao inter fazendo de outrm um ser 
do "terceiro tipo", um gadget bizarro.
Com o devir humorstico das significaes sociais e dos seres,  a ltima fase da revoluo democrtica que ganha corpo. Se esta se define por um trabalho de rradica0 
progressiva de todas as formas de hierarquia subs tancial e se aplica a produzir uma sociedade sem jssernelha1las de essn cia, sem elevao nem profundidades o 
processo humorstico que faz com que jnstituies e grupos percam definitivamente a sua majestade prolonga de facto a meta secular da modernidade democrtica, ainda 
que com instru mentos diferentes dos da ideologia igualitria. Com a era humorstica que diminui as distncias, O social torna-se definitivamente adequado a si pr 
prio, j nada exige yenerao, o sentimento das alturas pulveriza-se numa desenvoltura generalizada o social fecha-se na sua plena autonomia de acor do com a essncia 
do projecto democrtico. Mas simultafleamente a era hu morstica e personalizada introduz efeitos to inditos no regime do disposi tivo igualitrio que temos o 
direito de perguntar se no teremos j encontra do em sociedades de algum modo "ps Com efeito, a sociedade que o trabalho da igualdade se preparava para organizar 
sem terogeneida de nem j est em vias de metamOrf05e outrm num estranho radical, num verdadeiro mutante incongruente; a sociedade baseada no princpio do valor 
absoluto de cada pessoa  a mesma em que os seres ten dem a tornar-se uns para os outros zombies inconsistentes ou desopilafltes a sociedade em que se manifesta 
o direito de todos ao reconhecimento social  tambm a sociedade em que os indivdUoS deixam de se reconhecer como
f

absolutamente da mesma natureza  fora de hipertrofia individualista. Quanto maior  o reconhecimento igualitrio, maior tambm a diferenciao minoritria, enquanto 
o encontro inter-humano adquire uma estranheza ridcula. Estamos destinados a afirmar cada vez mais igualdade "ideolgica" e simultaneamente a sentir heterogeneidades 
psicolgicas crescentes. Depois da fase herica e universalista da igualdade, ainda que evidentemente limita da por acentuadas diferenas de classe, a fase humorstica 
e particularista das democracias em que a igualdade troa da igualdade.
Microtecaologia e sexo pomo
A fragmentao extrema da diviso social corresponde de certo modo  nova tendncia tecnolgica para o "ligeiro":  hiperpersonalizao dos indiv duos e dos grupos 
corresponde a corrida  miniaturizao, acessvel a um pblico cada vez mais amplo. Tm-se apontado desde h muito os aspectos risveis das inovaes tecnolgicas 
modernas, a sua proliferao de acess rios, as suas aberraes de funcionalidade absoluta (OS filmes de J. Tati, por exemplo); mas na poca da hi-fi, do vdeo, 
do "mmi", surgiu uma nova di menso que deixa muito para trs o ridculo dos automatismos "inteis". Ac tualmente, a apreenso humorstica procede no da excrescncia 
gratuita, mas da capacidade tecnolgica de ocupar cada vez menos espao. Cada vez mais pequeno: Ultra Com pact Machine, tal como o outro se tornou poten cialmente 
um gad  fora de desestandardizao, a tecnologia torna-se humorstica  fora de "compacto", de dimenses reduzidas: niini-aparelha gem, micro-televiso, walkman, 
jogos electrnicos em miniatura, computa dor de bolso. Efeito cuja graa reside no facto de o mais pequeno se ligar ao mais complexo; o interminvel processo de 
reduo suscita o divertimento maravilhado, comovido, do profano: chegmos j .s mquinas subminiaturi zadas,  caneta electrnica,  mini-tradutora de resposta 
vocal,  televiso de pulso,flat-TV. Neste exasperar da miniaturizao, o funcional e o ldico distribuem-se de maneira indita; uma segunda gerao de gadgets (mas 
 evidente que esta palavra j no  a mais adequada) surgiu, para l da fun o decorativa, para l dos mecanismos meta-funcionais. Actualmente os ro bota, os microcomputadores 
so frios, "inteligentes", econmicos: o compu tador domstico gere o oramento, compe as ementas em funo das esta es do ano e dos gostos da famlia, substitui-se 
 baby-sitter, previne a pol
cia ou os bombeiros se disso for caso. O cmico grotesco-surrealista dos gad gets deu lugar a uma fico cientfica soft. Fim da ridicularizao: com a rniniaturizao 
informtica, o cmico dos objectos moderou-se no momento em que o jogo se torna precisamente um alvo visado pelas tecnologias de ponta (jogos de vdeo); small is 
beautiful:  semelhana do que se verificou com os costumes, o impacto humorstico das tcnicas perdeu-se na vaga dos microprocessadores. Teremos talvez cada vez 
menos ocasio de troar dos produtos da tcnica, hoje  a tcnica que anexa o sector do humor: no Japo tornaram-se correntes robots domsticos de aparncia humana, 
verdadeiras imitaes programadas, que se destinam nomeadamente a rir e a fazer rir.
O tecnolgico tornou-se pomo: o objecto e o sexo entraram, com efeito, no mesmo ciclo ilimitado da manipulao sofisticada, da exibio e da proe za, dos comandos 
 distncia, das interconexes e comutaes de circuitos, de "teclas sensitivas", de combinatrias livres de programas, de existncia vi sual absoluta. E  isso 
que impede que se leve a pornografia completamente a srio. No seu estdio supremo, o pomo  engraado, o erotismo de massa inverte-se em pardia do sexo. Quem no 
se surpreendeu a sorrir ou a rir francamente numa sex-shop ou durante uma projeco X? Passado um certo limiar, o excesso "tecnolgico  burlesco. Cmico que vai 
muito para alm do prazer da transgresso ou do levantar do recalcamento: o sexo-mquina, o sexo entregue ao jogo do "tanto faz", o sexo alta-fidelidade,  assim 
o vec tor humorstico. O pomo como sexo tecnolgico, o objecto como tecnologia pomo. Como sempre, o estdio humorstico designa o estdio ltimo do pro cesso de 
dessubstancializao: o pomo liquida a profundidade do espao ertico, a sua conexo com o mundo da lei, do sangue, do pecado e meta morfoseia o sexo em tecnologia-espectculo, 
em teatro indissociavelmente hard e humorstico.
Narcisismo enlatado *
Quando o social entra na fase humorstica, comea o neo-narcisismo, l timo refgio cerimonial de um mundo sem potncia superior.  desvaloriza o pardica do social 
corresponde o sobre-investimento litrgico do Eu:
No original, narc,ssis en bofte: o autor Joga com o duplo sentido da expresso "en boi te", que significa, ao mesmo tempo, "enlatado" e "na discoteca" (a ltima 
pai-te do capitulo descreve uma discoteca parisiense) (NT.).
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mais ainda, o devir humorstico do social  uma pea essencial na emergn cia do narcisismo.  medida que as instituies e valores sociais se rendem  imanncia 
humorstica, o Eu ascende e torna-se o grande objecto de culto da ps-modernidade. De que nos podemos ocupar seriamente hoje a no ser do nosso equilbrio psquico 
e fsico? Quando os ritos, costumes e tradies ago nizam, quando tudo flutua num espao pardico, aumentam a obsesso e as prticas narcsicas, as nicas a serem 
ainda investidas de uma dignidade ce rimonial. J tudo foi dito acerca do ritual psi, da codificao estrita das ses ses, da aura da anlise, etc.; tem-se observado 
menos que hoje o prprio desporto - embora malevel e independente - se tornou de igual modo uma prtica inicitica de um gnero novo. E j conhecido o progresso 
fulgu rante da prtica desportiva, e muito particularmente dos desportos indivi duais mais interessante ainda  o desenvolvimento das actividades despor tivas chamadas 
"livres", sem preocupao competitiva, fora da rede das fede raes, longe dos estdios e dos ginsios. Jogging, bicicleta, ski de fundo, rolling. waiking, skate, 
prancha de vento - aqui os novos oficiantes procu ram menos a proeza, a fora, o reconhecimento, do que a forma e a sade, a liberdade e a elegncia de movimentos, 
o xtase do corpo. Cerimnia da sensao redobrada por uma cerimnia do material tcnico: para experimen tar o corpo, convm que o indivduo se informe de todas 
as inovaes, que adquira e domine as prteses mais sofisticadas, que mude regularmente de material. Narciso surge assim ajaezado. De tal modo que, tornando flexveis 
os quadros desportivos, promovendo o desporto "aberto", o processo de per sonalizao s  superfcie descontraiu o desporto; pelo contrrio, ao genera lizar-se, 
este limitou-se a metamorfosear-se numa liturgia cada vez mais ab sorvente nos antpodas do cdigo humorstico. J ningum brinca nem com o prprio corpo nem com 
a sade. Na esteira da anlise, o desporto trans formou-se num trabalho, num investimento permanente a gerir com mtodo, escrupulosamente, e, de alguma maneira, 
"profissionalmente". A nica des 1 "Em Frana, o nmero dos filiados em clubes de tnis passa de 50 000 em 1950 para
125 000, em 1968, atingindo mais de 500 000 em 1977, tendo quadruplicado assim em menos de oito anos. O dos praticantes de ski triplica entre 1958 e 1978 para atingir 
hoje mais ou me nos - o que no  inteiramente por acaso - 600 000. Simultaneamente, o nmero dos que jo gam futebol permanece mais ou menos estvel (cerca de 1 
300 000), bem como o dos adeptos do rguebi (47 000). A preferncia pelo tipo individual de prtica afirma-se tambm nos des portos populares. Os judocas triplicam 
em dez anos (200 000 em 1966 e 600 000 em 1977). Se acompanharmos a anlise dos contedos da evoluo a partir de 1973, verificamos que o ms culo recua por toda 
a parte." (A. Cotta, La Socit ludique, Grasset, 1980, pp. 102-103.)
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forra do processo humorstico  que aquilo que se mostra capaz de mobilizar e apaixonar intensamente o indivduo desportivo, o que galvaniza todas as suas energias, 
se v de seis em seis meses, ou de dois em dois anos, abando nado. Uma nova atraco aparece: depois da bicicleta o wind surf, com a mesma seriedade, o mesmo culto 
definitivo. A moda e os seus ciclos investi ram o prprio narcisismo.
Certos locais tm o poder de se darem como smbolo puro do tempo atravs da condensao e da integrao que operam dos traos caractersti cos da modernidade: assim 
Le Pa/ace, onde processo humorstico e narcisis mo se afirmam de peito aberto, sem contradio. Neo-narcisismo dos jovens mais preocupados com electrizarem-se, sentirem 
o prprio corpo na dana do que com comunicarem com o outro - o facto  j bem conhecido. Mas tambm desvio extravagante do Palace. Desvio do espao: a "botte" investe 
um teatro desafectado, respeita-lhe a arquitectura vetusta, ao mesmo tempo que introduz a as tcnicas audiovisuais mais sofisticadas: loft de massa. Desvio do night-club: 
aqui no h nada da bote resguardada e da sua fun o confessa de lugar de engate; a boite  agora simultaneamente um lugar de concertos, um espectculo totl, 
uma animao visual electroacstica fei ta de "efeitos especiais", de /asers, de projeces de filmes, de robots electr nicos, etc. O espectculo est por todo 
o lado: na prpria msica, na multi do, no exibicionismo in, nos shows lumino-cinticos, na exasperao de /ooks, de sons, de jogos de luzes.  precisamente esta 
hiperteatralizao que esvazia Le Pa/ace de toda a gravidade, faz dele um lugar flutuante e poliva lente, um lugar neo-barroco afectado de "delrio". Excesso de 
representaes que por certo desorienta, fascina, no sem efeitos humorsticos, de tal modo o espectacular surge sem freio, desproporcionado, em rbita sobre si 
pr prio. Fascinao humorstica, caleidoscpio new-wave. Desvio do prprio es pectculo: todo este luxo de demonstraes no se destina, no fundo, a ser olhado 
ou admirado, mas a "brilhar", a esquecer e sentir. O espectacular, condio do narcisismo; o fausto do exterior, condio do investimento do interior, a lgica paradoxal 
do Pa/ace  humorstica. Tudo  excessivo, o som, os light shows, a rtmica musical, a gente que circula e se apinha, o frenesim das singularidades: inflao psicadlica, 
feira de signos e de indiv duos, necessria  atomizao narcsica, mas tambm  banalizao irreal do lugar. Circulamos como entre os dez mil produtos de um hipcrmercado:
j nada tem lugar certo, nada tem designao slida, a superproduo noc turna esvazia da sua substncia tudo o que anexa. O Pa/ace como ponto de

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aglomerao-gadget, tecnologia-gadget, botte-gadget. Espectculo ou disco teca, concerto ou teatro, happening ou representao, dinmica de grupo ou narcisismo, 
febre disco ou distncia cool, estas distines aqui vacilam, cada uma anulando ou sobredeterminando a outra, cada uma tornando a outra humorstica num espao multifuncional 
e indeterminado. Tudo est ali ao mesmo tempo, indecidivelmente, todas as dimenses, todas as categorias se cruzam numa coexistncia cuja graa resulta da exasperao 
pela exaspera o: o humor do Palace emana de um processo hiperblico vazio e generali zado. Assim, correndo o risco de contradizer o seu promotor, Le Palace no 
tem o seu modelo na festa, ainda que adaptada  sociedade ps-moderna. Ao contrrio de toda a transgresso, de toda a violncia simblica, Le Pala ce funciona segundo 
uma lgica da acumulao e do espectacular; o sagra do, o estar em conjunto, a revivescncia do sol so aqui definitivamente abo udos em proveito de um narcisismo 
colectivo. Primeira botte humorstica - em Paris, entenda-se -, Le Palace  a rplica de Beaubourg, primeiro gran de museu humorstico, aberto e descompartimentado, 
onde tudo circula sem interrupo, indivduos, grupos, escadas, exposies, onde as obras e o prprio museu assumem uma colorao de gadgets. Do mesmo modo que a 
moda vestimentar se descrispou imitando as roupas de trabalho, tambm Beaubourg tomou como modelo a fbrica e a refinao. Democratizando-se, o museu perde a sua 
austeridade e, dotado dos seus tubos polcromos, tor na-se ele prprio uma curiosidade humorstica. Beaubourg, Le Palace: o processo humorstico no poupou, no seu 
trabalho inexorvel, nem os locais da cultura nem os locais da noite.



Guies Lipovetaky






CAPTULO 6
Violncias selvagens, violncias modernas
A violncia no conseguiu, ou s em escassa medida, conquistar os favo res da investigao histrica, pelo menos daquela que, por trs da espuma dos acontecimentos 
mais ou menos contingentes, se esfora por teorizar os movimentos de dimenso maior, as grandes continuidades e descontinuida des que escandem o devir humano. A 
questo, no entanto, convida a uma conceptualizao no plano da longa durao: durante milnios, atravs de formaes sociais bem distintas, a violncia e a guerra 
foram valores domi nantes, a crueldade manteve-se com uma legitimidade tal que pde funcio nar como "ingrediente" dos prazeres mais requintados. O que  que nos 
transformou tanto? Como  que as sociedades de sangue puderam dar lugar a sociedades suaves, em que a violncia inter-individual j no passa de um comportamento 
anmico e degradante, nem a crueldade de um estado pato lgico? Estas questes no tm hoje grande prestgio frente s que suscitam a fora desmultiplicada dos Estados 
modernos, o equilbrio do terror e a corrida aos armamentos: tudo se passa corno se depois do momento omnie conmico e do momento omnipoder, a revoluo das relaes 
de homem a homem nascida com a sociedade individualista tivesse que continuar a ser
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um tema menor, privado de qualquer eficcia especfica, no merecendo no vos desenvolvimentos. Tudo se passa como se, sob o choque das duas guer ras mundiais, dos 
campos nazis e estalinianos, da generalizao da tortura e actualmente do recrudescimento da criminalidade violenta ou do terrorismo, os nossos contemporneos se 
recusassem a tomar nota desta mutao j multissecular e recusassem perante a tarefa de interpretar o irresistvel movi mento de pacificao da sociedade, ao mesmo 
tempo que a hiptese da pul so de morte e a da luta de classes contribuem em grande medida para con firmar o imaginrio de um princpio de conservao da violncia, 
retardando a interrogao sobre o seu destino.
Os grandes espritos do sculo XIX no recorriam a este subterfgio, e Tocqueville e Nietzsche, para citar dois pensamentos sem dvida estranhos um ao outro, embora 
igualmente fascinados pela asceno do fenmeno de mocrtico, no hesitavam em pr o problema em toda a sua brutal clareza, to insuportvel ao pensamento-spot dos 
dias de hoje. Mais perto de ns, os trabalhos de N. Elas e depois de P. Clastres contriburam, a nveis diferen tes, para revitalizar a interrogao. Torna-se necessrio 
continu-la, prolon g-la analisando a violncia e a sua evoluo, nas suas relaes com os trs eixos maiores que so o Estado, a economia, a estrutura social. 
Conceptuali zar a violncia: longe das leituras mecanicistas, sejam estas polticas, econ micas ou psicolgicas,  por estabelecer a violncia como comportamento 
do tado de sentido e em articulao com o todo social que devemos esforar- nos. Violncia e histria: para alm do cepticismo erudito e do alarmismo estatstico 
jornalstico, precisamos de recuar at ao tempo mais distante, tra zer  luz do dia as lgicas da violncia, e tudo isto para, tanto quanto poss vel, captarmos 
o presente de onde falamos, neste momento em que, por to dos os lados, se ouve clamar com maior ou menor pertinncia a entrada das sociedades ocidentais numa era 
radicalmente nova.
Honra e vingana: violncias selvagens
Ao longo de todos os milnios que viram as sociedades funcionar de mo do selvagem, a violncia dos homens, longe de se explicar a partir de consi deraes utilitrias, 
ideolgicas ou econmicas, organizou- se essencialmente em funo de dois cdigos estritamente corolrios um do outro, a honra e a vingana, cuja significao exacta 
temos dificuldade em compreender, de tal
modo foram eliminados inexoravelmente da lgica do mundo moderno. Hon ra, vingana, dois imperativos imemoriais, inseparveis das sociedades pri mitivas, sociedades 
"holistas" embora igualitrias, em que os agentes indivi duais esto subordinados  ordem colectiva e em que simultaneamente "as relaes entre homens so mais importantes, 
mais altamente valorizadas do que as relaes entre homens e coisas" Quando o indivduo e a esfera eco nmica no tm existncia autnoma e se encontram submetidos 
 lgica do estatuto social, reina o cdigo de honra, o primado absoluto do prestgio e da estima social, bem como o cdigo da vingana, significando este, com efeito, 
a subordinao do interesse pessoal ao interesse do grupo, a impossi bilidade de romper a cadeia das alianas e das geraes, dos vivos e dos mortos, a obrigao 
de pr em jogo a prpria vida em nome do interesse su perior do cl ou da linhagem. A honra e a vingana exprimem directamente a prioridade do conjunto colectivo 
sobre o agente individual.
Estruturas elementares das sociedades selvagens, a honra e a vingana so cdigos de sangue. Onde a honra predomina, a vida tem pequeno preo, comparada com a estima 
pblica; a coragem, o desprezo da morte, o desafio so virtudes altamente valorizadas, a cobardia  desprezada por toda a par te. O cdigo da honra adestra os homens 
no sentido de se afirmarem pela fora, de conquistarem o reconhecimento dos outros antes de assegurarem a sua segurana, de lutarem at  morte para serem respeitados. 
No universo primitivo, o ponto de honra  o que ordena a violncia, ningum pode, sob pena de se ver desrespeitado, suportar uma afronta ou uma injria; quere las, 
insultos, dios e invejas conhecem, mais facilmente do que nas socieda des modernas, um desfecho sangrento. Longe de manifestar qualquer impul sividade incontrolada, 
a belicosidade primitiva  uma lgica social, um mo do de socializao consubstancial ao cdigo da honra.
A prpria guerra primitiva no pode ser separada da honra. E em fun o do cdigo da honra que cada homem adulto tem o dever de ser um guerreiro, de ser valente 
e bravo perante a morte. Mais ainda, o cdigo da honra fornece o motor, o estmulo social p os empreendimentos guerrei ros; sem ter de modo algum uma finalidade 
econmica, a violncia primitiva , em numerosos casos, guerra pelo prestgio, puro meio de adquirir glria e renome, sendo estes conferidos pela captura de signos 
e presas, escalpes, ca valos, prisioneiros. O primado da honra pode assim dar nascimento, como
1 Louis Dumont, Homo aequalis. Gailimard, 1977, p. 13.
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P. Clastres demonstrou, a confrarias de guerreiros inteiramente consagradas s faanhas de armas, obrigadas ao desafio permanente da morte,  escala da de bravura 
que lana os seus membros em expedies cada vez mais au daciosas e conduzindo  morte de modo inelutvel)
Se a guerra primitiva est estreitamente ligada  honra, est-o na mesma medida ao cdigo da vingana: a violncia visa o prestgio ou a vingana. Os conflitos armados 
so deste modo desencadeados para vingar um ultraje, um morto ou at um acidente, um ferimento, uma doena atribuda s foras malficas de um feiticeiro inimigo. 
 a vingana que exige que o sangue ini migo seja derramado, que os prisioneiros sejam torturados, mutilados ou de vorados ritualmente,  sempre ela que manda em 
ltima instncia que um prisioneiro no deva tentar evadir-se, como se os parentes e o seu grupo no tivessem coragem suficiente para vingar a sua morte. Do mesmo 
modo,  o medo da vingana dos espritos dos inimigos sacrificados que impe os ri tuais de purificao do carrasco e do seu grupo. Mais ainda: a vingana no se 
exerce unicamente contra as tribos inimigas, exige igualmente o sacrifcio de mulheres ou crianas da comunidade  laia de reparao do desequilbrio ocasionado, 
por exemplo, pela morte de um adulto na fora da idade. E preciso despsicologizar a vingana primitiva que nada tem a ver com a hosti lidade acumulada internamente: 
entre os Tupinambas, um prisioneiro vivia por vezes dezenas de anos no grupo que o capturara, gozava de grande li berdade, podia casar e muitas vezes era amado e 
bem tratado pelos seus amos e mulheres, como se de um homem da aldeia se tratasse; isso no im pedia que a sua execuo sacrificial fosse inelutvel A vingana  
um im perativo social, independente dos sentimentos experimentados pelos indiv duos e grupos, independente das noes de culpabilidade ou responsabilida de individuais 
e que fundamentalmente manifesta a exigncia de ordem e de simetria do pensamento selvagem. A vingana  "o contra-peso das coisas, o restabelecimento de um equilbrio 
provisoriamente quebrado, a garantia de que a ordem do mundo no sofrer alterao" ou seja, a exigncia de que em parte alguma se estabelea duradouramente um excesso 
ou um defeito. Se h uma idade de ouro da vingana,  entre os selvagens que a encontra Pierre Clastres, "Malheur du guerrier sauvage", in Libre, 1977, n. 2.
2 Alfred Mtraux, Religions e! tnagies indiennes, Gallimard, 1967, pp. 49-53.
P. Clastres, Chronique des Indiens Guayaki. PIon, 1972, p. 164.
mos: constitutiva de um extremo a outro do universo primitivo, a vingana impregna todas as grandes aces individuais e colectivas, est para a violn cia como 
os mitos e sistemas de classificao esto para o pensamento "espe culativo", tem por toda a parte a mesma funo de ordenao do cosmos e da vida colectiva, que 
se realiza em benefcio da negao da historicidadC.
 por isso que as recentes teorias de R. Girard a respeito da violn cia nos parecem assentar num contra-senso radical: dizer, com efeito, que o sacrifcio  um 
instrumento de preveno contra o processo interminvel da vingana, um meio de proteco a que a comunidade inteira recorre contra o ciclo infinito das represlias 
e contra-represlias, equivale a omitir essa realidade primeira do mundo primitivo em que a vingana, longe de ser o que  preciso dominar,  algo em que se torna 
necessrio adestrar imperati vamente os homens. A vingana no  uma ameaa, um terror a contornar, do mesmo modo que o sacrifcio no  um meio de pr termo  violncia 
pretensamente dissolvente das vinganas intestinas por meio de substitutos indiferentes. A esta viso-pnico da vingana, devemos opor a dos selvagens para quem 
a vingana  um instrumento de socializao, um valor to indis cutvel como a generosidade. Inculcar o cdigo da vingana, ripostar golpe por golpe, eis a regra 
fundamental: entre os Yanomami, "se um rapazinho derrubar outro por descuido, a me deste ltimo intima o seu rebento a ata car o desajeitado. Grita-lhe de longe: 
vinga-te, vinga-te, ento!" Longe de ser, como pensa R. Girard uma manifestao no-histrica, bio-antro polgica, a violncia vingadora  uma instituio social; 
longe de ser um processo "apocalptico", a vingana  uma violncia limitada que visa equi librar o mundo, instituir uma simetria entre os vivos e os mortos. No 
deve mos conceber as instituies primitivas como mquinas de recalcamento ou de desvio de uma violncia trans-histrica, mas como mquinas destinadas a produzir 
e a normalizar a violncia. Nestas condies, o sacrficio  uma ma nifestao do cdigo da vingana e no algo que impede a sua afirmao:
nem substituio nem deslocamento, o sacrifcio  efeito directo do princpio da vingana, uma exigncia de sangue sem disfarce, uma violncia ao servi o do equilbrio, 
da perenidade do cosmos e do social.
1 Ren Girard, La Violence e! le sacr, Grasset. 1972.
2 Jacques Lizot, Le Cercie des jeux, Ed. du Seuil, 1976, p. 102.
A perspectiva clssica da vingana, tal como a vemos expressar-se em M.
R. Davie, por exemplo, tambm no  mais satisfatria: os grupos primiti vos "no possuem nem sistema desenvolvido de legislao, nem juzes ou tri bunais para a 
punio dos crimes e, no entanto, os seus membros vivem de um modo geral em paz e segurana. No seu caso, o que  que faz ento as vezes do procedimento judicial 
dos civilizados? Descobriremos a resposta a esta pergunta na prtica da justia pessoal ou da vingana privada" 1 A vingana, condio da paz interna, equivalente 
da justia? Concepo muito discutvel uma vez que a vingana ensina a violncia, legitima as represlias, arma os indivduos, enquanto que a instituio judiciria 
tem como meta in terditar o recurso s violncias privadas. A vingana  um dispositivo que so cializa por meio da violncia, no registo desta, que faz com que ningum 
possa deixar o crime ou a ofensa por punir: ningum detm assim o mono plio da fora fsica, ningum pode renunciar ao imperativo de derramar o sangue inimigo, 
ningum pode confiar a outra pessoa a garantia da sua se gurana. Que quer isto dizer seno que a vingana primitiva se afirma con tra o Estado, que a sua aco 
visa impedir a constituio de sistemas de do minao poltica? Tornando-se a vingana um dever imprescritvel, todos os homens so iguais perante a violncia, nenhum 
pode monopolizar ou renun ciar a ela, nenhum ser protegido por uma instncia especializada. Deste modo no  apenas atravs da guerra e da sua aco centrfuga 
de disperso que a sociedade primitiva logra esconjurar o advento do dispositivo estatal consegue-o tambm por dentro, por meio do cdigo da honra e da vingana, 
que contrariam o desenvolvimento do desejo de submisso e de proteco e impedem a emergncia de uma instncia que aambarque o poder e o direi to de morte.
Simultaneamente,  a impedir o aparecimento do indivduo independen te, fechado no seu interesse prprio, que se aplica o cdigo da vingana. Aqui, a prioridade 
do todo social sobre as vontades individuais torna-se ac to, os vivos tm o encargo de afirmar atravs do sangue a sua solidariedade com os mortos, de fazerem corpo 
com o grupo. A vingana de sangue  contra a diviso dos vivos e dos mortos, contra o indivduo separado, e por isso  um instrumento de socializao holista, do 
mesmo modo que a regra
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da dvida, que institui menos a passagem da natureza  cultura do que o funcionamento holista das sociedades, a preeminncia do colectivo sobre o individual atravs 
da obrigao da generosidade, da dvida das filhas e ir ms e pela proibio da acumulao e do incesto.
A comparao pode ser continuada relativamente a uma outra institui o, desta feita de tipo violento: as cerimnias iniciticas que assinalam a passagem dos jovens 
do sexo masculino  idade adulta e que so acompa nhadas por torturas rituais intensas. Fazer sofrer, torturar,  algo que proce de da ordem holista primitiva, porque 
o que interessa manifestar aqui de maneira ostensiva, no profrio corpo,  a subordinao extrema do agente in dividual ao conjunto colectivo, de todos os homens 
sem distino a uma lei superior intangvel. A dor ritual, meio ltimo de significar que a lei no  humana, que tem que ser recebida, e no deliberada ou alterada, 
meio de assinalar a superioridade ontolgica de uma ordem vinda de alhures e como tal subtrada s iniciativas humanas que visem transform-la. Pelo esmaga mento 
do iniciado sob a prova da dor, trata-se de inscrever no corpo a hete ronomia das regras sociais, a sua preeminncia implacvel e, portanto, de proibir o nascimento 
de uma instncia separada de poder que se atribua o direito de introduzir a transformao histrica A crueldade primitiva , como a vingana, uma instituio holista, 
contra a auto-determinao do in divduo, contra a diviso poltica, contra a histria: do mesmo modo que o cdigo da vingana exige dos homens que estes arrisquem 
a vida em nome da solidariedade e da honra do grupo, a mesma iniciao exige dos homens uma submisso muda dos seus corpos s regras transcendentes da comuni dade.
Tal como a iniciao, a prtica de suplcios revela a significao profun da da crueldade primitiva. A guerra selvagem no consistia unicamente na organizao de 
incurses e massacres; tratava-se, alm disso, de capturar inimigos aos quais eram depois infligidos ora pelos homens, ora pelos jovens e pelas mulheres, suplcios 
de uma ferocidade inaudita que, no entanto, no inspiravam qualquer horror ou indignao. Esta atrocidade dos costumes foi desde h muito assinalada, mas, depois 
de Nietzche, que reconhecia nela uma festa das pulses agressivas e de Bataille que a considerava uma forma de dispndio improdutivo, a lgica social e poltica 
da violncia foi duradou ramente ocultada pelas problemticas "energticas". A crueldade primitiva
M. R. Davie, La Guerre dans les socits primitives. Payot, 1931, p. 188.
2 P. Clastres, "Archologie dela violence", in Libre, 1977, n. l,p. 171.
1 Cf. P. Clastres, La Socit contre l'tat, d. de Minuit, 1974, pp. 152-160.
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nada tem a ver com o "gozo de fazer sofrer", no pode ser assimilada a um equivalente pulsional de um dano sofrido: "Fazer sofrer causava um prazer infinito; como 
compensao do dano e dos aborrecimentos do dano propor cionava s partes lesadas um contra-gozo extraordinrio" Independente dos sentimentos e das emoes, o suplcio 
selvagem  uma prtica ritual exi gida pelo cdigo da vingana a fim de estabelecer o equilbrio entre os vivos e os mortos: a crueldade  uma lgica social, no 
uma lgica do desejo. Dito isto, Nietzsche entrevira, apesar de tudo, o essencial do problema ao ligar a crueldade  dvida, ainda que a tenha carregado de uma significao 
mate rialista, moderna, baseada na troca econmica De facto, a atrocidade das torturas selvagens s tem sentido quando referida a essa dvida especfica e extrema 
que liga os vivos aos mortos: dvida extrema, em primeiro lugar porque os vivos no podem prosperar sem obterem a proteco ou a neutra lidade dos seus mortos sempre 
dotados de uma fora particular, represen tando uma das maiores ameaas concebveis; em segundo lugar, porque a dvida se refere a dois universos constantemente 
ameaados de disjuno ra dical, o visvel e o invisvel. E, por conseguinte, necessrio um excesso para preencher o dfice da morte;  necessrio um excesso de 
dor, de sangue ou de carne (no festim antropfago) para se cumprir o cdigo da vingana, quer dizer para transformar a disjuno em conjuno, para restabelecer 
a paz e a aliana com os mortos. Vingana primitiva e sistemas de crueldade so inseparveis enquanto meios de reproduo de uma ordem social imut vel.
Decorre daqui que o excesso dos suplcios no  estranho  lgica da tro ca, pelo menos da que pe em relao os vivos e os mortos. Sem dvida, te remos que seguir 
as anlises de P. Clastres, que soube mostrar como a guer ra no era de maneira alguma um malogro acidental da troca, mas uma es trutura primeira, uma finalidade 
central do ser social primitivo, sendo ela a determinar a necessidade da troca e da aliana todavia, uma vez "reabili tada" a significao poltica da violncia, 
devemos ter cuidado e no trans formar a troca em instrumento indiferente da guerra, em simples efeito tc- tico da guerra. A inverso das prioridades no deve ocultar 
o que a violncia deve ainda  troca e a troca  violncia. Na sociedade primitiva, guerra e
1 Nietzsche, A Genealogia da Moral: segunda dissertao.  6.
2 Ibid.  4.
P. Clastres, "Archologie de la violence", pp. 162-167.
troca encontram-se em consonncia: a guerra  inseparvel da regra da d diva e esta  apropriada ao estado de guerra permanente. -
Na medida em que a violncia primitiva caminha a par da vingana, os laos que a unem  lgica reciprocitria so imediatos. Do mesmo modo que existe a obrigao 
de se ser generoso, de oferecer bens, mulheres, alimento, existe tambm a obrigao de se ser generoso nos termos da prpria vida, de se dar a vida de acordo com 
o imperativo da vingana; do mesmo modo que qualquer bem tem que ser devolvido, tambm a morte deve ser paga e com pensada; o sangue exige,  semelhana das ddivas, 
a sua contrapartida.  simetria das transaces corresponde a simetria da vingana. A solidarieda de de grupo, que se manifesta pela circulao das riquezas, revela-se 
igual mente atravs da violncia vingadora. De modo que a violncia no  antin mica em relao ao quadro da troca; a ruptura da reciprocidade articula-se ainda 
no quadro da troca recproca entre os vivos e os mortos.
Mas se a violncia apresenta parentesco de estrutura com a troca, esta, pelo seu lado, no pode ser pura e simplesmente assimilada a uma institui o de paz. Sem 
dvida,  de facto atravs da regra da ddiva e da dvida dela decorrente que os primitivos instituem a aliana mas isso no quer di zer que a troca nada tenha a 
ver com a guerra. Mauss sublinhou com insis tncia em pginas hoje clebres a violncia constitutiva da reciprocidade atravs dessa "guerra de propriedade" que  
o potlatch. Mesmo quando o desafio e a rivalidade no atingem tais dimenses, Mauss observa o seguinte facto capital, insuficientemente analisado, de que a troca 
"conduz a querelas sbitas quando frequentemente tinha por fim apag-las" Que quer isto dizer seno que a troca produz uma paz instvel, frgil, sempre  beira da 
ruptu ra? O problema consiste assim em compreender porque  que a troca, cujo objectivo  estabelecer relaes pacificas, falha de tal maneira nos seus pro psitos. 
Deveremos regressar  interpretao de Lvi-Strauss, segundo a qual a guerra no passa de um malogro contingente, de uma transaco in feliz, ou deveremos antes 
ver na reciprocidade uma instituio que a sua prpria forma torna propcia  violncia? E esta segunda hiptese que nos parece justa: s h malogro na aparncia, 
a ddiva participa estruturalmen te na lgica da guerra, pois que institui a aliana numa base necessariamen te precria. A regra de reciprocidade, porque funciona 
como uma luta sim 1 Marshall Sahlins, ge de pierre. ge dabondance, Gallimard, 1976, pp. 221-236.
2 Marcel Mauss, Essai sur le doo, in Sociologie ef anthropologie. PUF, 1960, p. 173, nota
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blica ou de prestgio e no como meio de acumulao, instaura um frente- a-frente sempre  beira do conflito e do confronto: nas trocas econmicas e matrimoniais 
que presidem s alianas das comunidades Yanomano, "os parceiros mantm-se no extremo limite do ponto de ruptura, mas  justa mente esse jogo arriscado, esse gosto 
pelo confronto o motivo de agrado" Pouco  preciso para que os amigos se tornem inimigos, para que um pacto de aliana degenere em guerra: a ddiva  uma estrutura 
potencialmente violenta porque basta que o parceiro se recuse a entrar no ciclo das presta es para que isso se identifique com uma ofensa, com um acto de guerra. 
Enquanto estrutura assente no desafio, a troca probe as amizades duradou ras, a emergncia de laos permanentes que ligariam indissoluvelmente a co munidade a este 
ou quele dos seus vizinhos, levando-a a perder a prazo a sua autonomia. Se h uma inconstncia na vida internacional dos selvagens, se as alianas se fazem e desfazem 
de modo to sistemtico, isso no se deve apenas ao imperativo da guerra, mas igualmente aos tipos de relaes man tidas atravs da troca. Ligando os grupos no 
pelo interesse, mas por meio de uma lgica simblica, a reciprocidade quebra as amizades com a mesma facilidade com que as faz, nenhuma comunidade est ao abrigo 
do desenca dear das hostilidades. Longe de se identificar a uma tctica de guerra, a re gra da reciprocidade  a condio social da guerra primitiva permanente.
Mais indirectamente, a troca participa ainda da violncia primitiva na medida em que ensina aos homens o cdigo da honra, prescrevendo a ddi va e o dever de generosidade. 
Da mesma maneira que o imperativo da guer ra, a regra da reciprocidade socializa por meio da honra e da violncia cor respondente. Guerra e troca so paralelas; 
a sociedade selvagem  realmen te, como dizia P. Clastres, uma sociedade "para-a-guerra", e at as institui es que tm como tarefa criar a paz s  conseguem instaurando 
simulta neamente uma belicosidade estrutural.
Por fim, ter-se-o sublinhado o suficiente os laos que unem troca e feiti aria? A sua coexistncia, atestada por toda a parte no mundo selvagem, no  fruto do 
acaso; com efeito, estamos perante duas instituies estrita mente solidrias. Na sociedade primitiva, como sabemos, os acidentes e infe licidades da vida, os infortnios 
dos homens, longe de serem acontecimentos fortuitos, so resultados da feitiaria, quer esta se deva  malevolncia de outrm, quer a uma vontade deliberada de fazer 
o mal. Se um escorpio pi
car uma criana, se a colheita ou a caa forem ms, se uma ferida no ci catrizar, todos estes acontecimentos pouco felizes so atribudos a uma dis posio maligna 
de algum. Sem dvida devemos ver na feitiaria uma das formas dessa "cincia do concreto" que  o pensamento selvagem, um meio de pr ordem no caos das coisas e 
de explicar o melhor possvel as desgraas dos homens; mas no podemos deixar de observar tambm tudo o que esta "filosofia" introduz de animosidade e de violnica 
na representado da rela o interhumana. A feitiaria  a prossecuo do imperativo de guerra por outros meios; do mesmo modo que cada comunidade local tem inimigos, 
as sim cada indivduo tem inimigos pessoais, responsveis pelos seus males. To da a desgraa provm de uma violncia mgica, de uma guerra perniciosa, de tal maneira 
que aqui o outro s pode ser amigo ou inimigo segundo um esquema semelhante ao institudo pela guerra e pela troca. Com a regra de reciprocidade com efeito, ou os 
homens trocam presentes e so aliados, ou se interrompe o ciclo dos presentes e os homens tornam-se inimigos. A socie dade primitiva que, por um lado, impede o aparecimento 
da diviso poltica, gera, por outro lado, a diviso antagnica na representao da relao de homem a homem. No h indiferena, no h relaes neutras como as 
que iro prevalecer na sociedade individualista: com a guerras a troca, a feitia ria, a apercepo do mundo humano  inseparvel do conflito e da violncia.
Para alm deste paralelismo a feitiaria descobre na troca recproca a condio social caracterstica do seu funcionamento. Atravs da regra da d diva, os seres 
so obrigados a existir e a definir-se uns por referncia aos outros; os homens no podem conceber-se separadamente uns dos outros
ora  exactamente este esquema que se reproduz, de maneira negativa, na feitiaria, uma vez que tudo o que de funesto acontece ao ego se liga neces sariamente a 
um outro. Nos dois casos, os homens no podem pensar-se in dependentemente uns dos outros; o sortilgio no passa da traduo inverti da da ddiva de acordo com 
a qual o homem s existe numa relao social- mente pr-determinada com o outro. E este contexto de troca obrigatria que torna possvel a interpretao dos acontecimentos 
nefastos em termos de malefcios: a feitiaria no  a afirmao livre de um pensamento no do mesticado,  ainda a regra de reciprocidade, a ncrma holista do primado 
re lacional que constitui o seu enquadramento social necessrio. A contrario. no h feitiaria na sociedade em que o indivduo s existe para si prprio;
J. Lizot, op. cit. p. 239.
M. Gauchet e G. Swain, La Pratique de l'esprit humain. Gailimard, 1980, p. 391.
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o desaparecimento da feitiaria na vida moderna no pode ser separado de um novo tipo de sociedade em que o outro se torna a pouco e pouco um des conhecido, um estranho 
 verdade intrnseca do ego.
Regime da barbrie
Com o advento do Estado, a guerra muda radicalmente de funo, j que de instrumento de equilbrio ou de conservadorismo social que era na ordem primitiva se transforma 
num meio de conquista, de expanso ou de captura. E  ao dissociar-se do cdigo da vingana, quebrando a preeminn cia da troca com os mortos, que a guerra se pode 
abrir ao espao da domi nao. Enquanto a dvida para com os mortos  um princpio supremo para o todo social, a guerra permanece circunscrita a uma ordem territorial 
e sa grada que se trata, precisamente atravs do emprego da violncia, de repro duzir sem mudana, tal como os antepassados a legaram. Mas a partir do momento em 
que se institui a diviso poltica, a instncia do poder deixa de se definir em funo deste primado da relao com os mortos, que  regula da por uma lgica reciprocitria, 
enquanto o Estado introduz, pela sua prpria dissimetria, um princpio antinmico do do mundo da troca. O Es tado no pde constituir-se seno emancipando-se, ainda 
que parcialmente, do cdigo da vingana, da dvida para com os mortos, e renunciando a iden tificar guerra e vingana. A partir de ento, surge uma violncia conquista 
dora, o Estado apropria-se da guerra, apodera-se de territrios e de escra vos, edifica fortificaes, recruta exrcitos, impe a disciplina e uma condu ta militar; 
a guerra j no  contra o Estado, passa a ser a misso gloriosa do soberano, o seu direito especfico. Comea uma era nova do culto do po der, a barbrie, que designa 
o regime da violncia nas sociedades estatais pr-modernas.
Sem dvida, as primeiras formas do Estado no se emancipam por completo da ordem da dvida, devendo o Dspota a sua funo e a sua legi timidade a um alm transcendente 
ou a uma referncia religiosa de que  ele o representante ou a incarnao; mas constitutivamente o Estado s pode ser devedor e estar subordinado a potncias superiores 
e divinas, e no s almas dos mortos, o que seria lesivo da sua grandeza sobre-eminente, degradando a sua diferena irredutvel relativamente  sociedade que domina.
Desligada do cdigo da vingana, a guerra entra num processo de espe
cializao constituio de exrcitos regulares de recrutas ou de mercenrios, mas tambm castas exclusivamente definidas pelo exerccio das armas, pon do toda a 
sua glria e paixo na conquista militar. Correlativamente, a maioria da populao, os trabalhadores rurais, vo encontrar-se excludos, desapossados da actividade 
nobre por excelncia, a guerra, e consagrar-se-o  tarefa de alimentar os exrcitos profissionais. Este desarmamento de mas sa no significou, todavia, para os 
miserveis, a renncia  violncia,  hon ra e  vingana. Manteve-se, com efeito, sob o Estado, um modo de sociali zao holista que d conta da violncia dos costumes, 
ao mesmo ttulo que a existncia de valores militares e de guerras permanenteS. Para nos atermos  Idade Mdia, o ponto de honra continua a ser responsvel pela 
frequncia da violncia interindividual, pelo seu carcter sangrento, e isto no apenas entre os homens de guerra, mas para o conjunto do povo: at nos claustros, 
entre padres, se descobre uma violncia de sangue 1; os assassnios entre os servos parecem ter sido coisa corrente os burgueses das cidades no hesita vam em puxar 
da faca para ajustarem as suas contas Os registos judici rios da Baixa Idade Mdia confirmam ainda o lugar considervel que as vio lncias, rixas, ferimentos, assassnios, 
ocupavam na vida quotidiana das ci dades Com a instalao do princpio hierrquico que distribui os homens em ordens heterogneas, em especialistas da guerra e produtores, 
surgiu,  certo, uma distino radical entre honra nobre e honra plebeia, tendo cada uma delas o seu cdigo, mas continuando ambas a gerar uma belicosidade mortfera.
O mesmo acontece com a vingana. Se a guerra e o Estado j no se or denam a partir da dvida para com os mortos, isso no significa de modo nenhum que a sociedade 
tenha renunciado  vingana.  verdade que, a partir da altura em que o Estado comeou a afirmar a sua autoridade, ele se esforou tambm por limitar a prtica da 
vingana privada, substituindo-lhe o princpio de uma justia pblica e editando leis destinadas a moderar os excessos da vingana: lei de talio, abandono noxal, 
tarifas legais de compo sio. J o dissemos, a vingana , no seu princpio, hostil ao Estado, pelo menos  sua plena realizao, e  por isso que o nascimento 
deste coincidiu
1 Marc Bloch, La Socitfodale, Albin Michel, co!. "volution de I'humanit', p. 416.
2 Ibid, p. 568.
Norbert Elias, La Civilisation des moeurs, col. "Pluriel", pp. 331-335.
Bronislaw Geremek, Truands et ,nisrabels Gailimard, co!. "Archives", 1980, pp. 16-22.
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com a instaurao de sistemas judicirios e penais, representando a autori dade suprema, destinados nomeadamente a temperar as vinganas intestinas em proveito da 
lei do soberano. Apesar disto, a despeito do poder e da lei, a vingana familiar manteve-se muito amplamente, por um lado em razo da fraqueza da fora pblica, 
por outro lado em razo da legitimidade imemo rial associada  vingana nas sociedades holistas. Na Idade Mdia, e parti cularmente durante a poca feudal, a faide 
(vingana privada) continua a impor-se como obrigao moral sagrada do topo  base da sociedade, tanto para as grandes linhagens como para os rsticos; a faide ordena 
ao grupo dos parentes que punam pelo sangue o assassnio de um dos seus ou uma in jria sofrida. Vendettas interminveis, por vezes originadas por questes andinas, 
podiam prolongar-se durante dcadas e ter como saldo dezenas de mortos. A vingana e a ordem social holista so a tal ponto consubstanciais que as prprias leis 
penais se limitam muitas vezes a reproduzir a sua for ma: assim o direito grego ou a lei das Doze Tbuas de Roma proibiam efec tivamente o princpio das vendettas 
e o direito de fazer justia pelas prprias mos, mas as aces por motivo de assasnio eram, em contrapartida, deixa das a cargo do interessado mais prximo; o 
mesmo dispositivo legal surge em certas regies, no sculo XIII, quando em caso de homicdio voluntrio o corpo do culpado era atribudo aos parentes da vtima, 
de acordo com a lei de talio. Assim, enquanto as sociedades, com ou sem Estado, funcionaram segundo as normas holistas que impunham a solidariedade da linhagem, 
a vingana continuou a ser mais ou menos um dever; a sua legitimidade s de saparecer com a entrada em cena das sociedades de ordem individualista e do Estado moderno 
que lhes corresponde, definindo-se este precisamente pe lo monoplio da fora fsica legtima, pela penetrao e pela proteco cons tante e regular da sociedade.
A honra e a vingana perduraram sob o Estado, do mesmo modo que a crueldade dos costumes. Sem dvida, a emergncia do Estado e da sua or dem hierrquica transformou 
radicalmente a relao com a crueldade que prevalecia na sociedade primitiva. De ritual sagrado que era, a crueldade tornou-se uma prtica brbara, uma demonstrao 
ostentatria de fora, um festejo pblico: lembremos o gosto muito vivo dos Romanos pelos espectcu los sangrentos de combates de animais e de gladiadores; lembremos 
a paixo guerrreira dos cavaleiros, o massacre dos prisioneiros e dos feridos, o as sassnio das crianas, a legitimidade da pilhagem ou da mutilao dos venci dos. 
Como dar conta da persistncia durante milnios, da Antiguidade 
Idade Mdia, de costumes ferozes que hoje por certo no desapareceram. mas que, quando se verificam, suscitam uma indignao colectiva? No po demos deixar de observar 
a correlao perfeita que existe entre crueldade dos costumes e sociedades holistas, ao mesmo tempo que se verifica o anta gonismo entre a crueldade e o individualismo. 
Todas as sociedades que con ferem prioridade  organizao do conjunto so, numa medida ou noutra, sistemas de crueldade. E que, com efeito, a preponderncia da 
ordem colec tiva impede que se concedam  vida e ao sofrimento pessoais o valor que lhes atribumos. A crueldade brbara no resulta de uma ausncia de recal camento 
ou de represso social,  o efeito directo de uma sociedade em que o elemento individual, subordinado s normas colectivas, no v reconhecida a sua existncia autnoma.
Crueldade, holismo e sociedades guerreiras caminham a par: a crueldade s  possvel como habitus socialniente dominante quando reina a suprema cia dos valores guerreiros, 
direito incontestado da fora e do vencedor, des prezo pela morte, bravura e persistncia, ausncia de campaixo pelo inimi go - valores que tm em comum o facto 
de suscitarem a ostentao e o ex cesso nos signos da fora fsica, desvalorizarem o vivido propriamente ntimo tanto de si como do outro, considerarem pouca coisa 
a vida individual quan do comparada  glria do sangue, ao prestgio social conferido pelos signos da morte- A crueldade  uni dispositivo histrico que no pode 
desligar-se das significaes sociais que erigem a guerra em actividade soberana: a crueldade brbara, filha de Polemos, emblema enftico da grandeza da or dem guerreira 
conquistadora, instrumento sangrento da sua identidade, meio extremo de unificar na carne a lgica holista e a lgica militar.
Um lao indissolvel une a guerra concebida como comportamento supe rior e o modelo tradicional das sociedades. As sociedades anteriores ao indi vidualismo s puderam 
reproduzir-se conferindo  guerra um estatuto supre mo. Devemos desconfiar do nosso reflexo econmico moderno: as guerras imperiais, brbaras ou feudais, embora 
permitissem a aquisio de riquezas, escravos ou territrios, raramente eram empreendidas com um objectivo ex clusivamente econmico. A guerra e os valores guerreiros 
contribuiram mui to mais para contrariar o desenvolvimento do mercado e dos valores estrita mente econmicos. Desvalorizando as actividades comerciais que tinham 
por finalidade o lucro, legitimando a pilhagem e a aquisio das riquezas pela fora, a guerra esconjurava a generalizao do valor de troca e a constitui o de 
uma esfera separada da economia. Fazer da guerra um fim suprema
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mente valorizado no impede o comrcio, mas circunscreve o espao mer cantil e os fluxos de moeda, tornando-se secundria a aquisio por via das trocas. Por fim, 
proibindo a autonomizao da economia, a guerra impedia igualmente o advento do indivduo livre por si prprio, que justamente cor responde a uma esfera econmica 
independente, e revelou-se uma pea in dispensvel  reproduo da ordem holista.
O processo de civilizao
A linha da evoluo histrica  conhecida: no espao de alguns sculos, as sociedades de sangue regidas pela honra, a vingana, a crueldade deram pouco a pouco lugar 
a sociedades profundamente (<policiadas", em que os actos de violncia interindividual no param de diminuir, em que o uso da fora desconsidera aquele que se lhe 
entrega, em que a cureldade e as bruta lidades suscitam a indignao e o horror, em que o prazer e a violncia se dissociam. A partir do sculo XVIII aproximadamente, 
o Ocidente passa a ser governado por um processo de civilizao ou de suavizao dos costumes de que somos ainda herdeiros e continuadores: confirma-o, a partir 
do scu lo XVIII, a forte diminuio dos crimes de sangue, homicdios, rixas, golpes e ferimentos confirmam-no o desaparecimento da prtica do duelo e a queda do 
infanticdio, que, ainda no sculo XVI, era muito frequente; con firmam-no por fim, na viragem do sculo XVIII para o XIX, a renncia  atrocidade dos suplcios 
corporais e, a partir do incio do sculo XIX, a que da do nmero das condenaes  morte e das execues capitais.
A tese de N. Elias a propsito da humanizao dos comportamentos  hoje famosa: de sociedades em que a belicosidade, a violncia para com o outro se afirmavam livremente, 
passamos a sociedades em que as impulses
1 Limitando-nos aos crimes cometidos em Paris e nos seus arredores entre 1755 e 1785, e julgados pelo Chtelet, as violncias no representavam mais de 2,4 por cento 
das condenaes, os homicdios, 3,1 por cento, enquanto os roubos atingiam quase 87 por cento dos delitos julga dos. "O lugar macio ocupado pelos crimes contra 
os bens situa decididamente Paris, nos anos 1750-1790, num tipo de criminalidade caracterstico das grandes metrpoles modernas" (P. Pe trovitch, in Crime ei criminalit 
en France aux XVIIe ei XVJII .si A. Colin, 1971, p. 208). Esta deslocao de uma criminalidade de violncia a uma criminalidade de fraude parece con firmar-se igualmente, 
no que que se refere  regio normanda, pelos trabalhos dirgidos por P. Cheunu.
A Era do Vazio
agressivas se encontram recalcadas, refreadas, por se terem tornado incom patveis com a "diferenciao" cada vez maior das funes sociais, por um lado, e com a 
monopolizao da coaco fsica pelo Estado moderno, por outro Quando no existe qualquer monoplio militar e policial e quando, por conseguinte, a insegurana  
constante, a violncia individual, a agressi vidade  uma necessidade vital. Em compensao,  medida que se desen volve a diviso das funes sociais e que, sob 
a aco dos rgos centrais que monopolizam a fora fsica, se institui uma ampla segurana quotidia na, o uso da violncia individual revela-se excepcional, no 
sendo j "nem necessrio, nem til, nem mesmo possvel".  impulsividade extrema e de senfreada dos homens, correlativas das sociedades que precederam o Estado absolutista, 
substituiu-se uma regulao dos comportamentos, um "auto- controlo" do indivduo; em suma, o processo de civilizao que acompanha a pacificao do territrio realizada 
pelo Estado moderno.
Sem dvida, o fenmeno da suavizao dos costumes  inseparvel da centralizao estatal; sendo assim, o risco  concebermos esta ltima como efeito directo e mecnico 
da pacificao poltica. No  aceitvel dizer que os homens "recalcam" as suas pulses agressivas pelo facto de a paz civil es tar garantida e as redes de interdependncia 
no pararem de se ampliar, co mo se a violncia no fosse mais do que um instrumento til  conservao da vida, um meio vazio de sentido, como se os homens renunciassem 
"racio nalmente" ao uso da violncia a partir do momento em que a sua segurana est garantida.  esquecer que a violncia foi, desde as pocas mais remo tas, um 
imperativo determinado pela organizao holista da sociedade, um comportamento de honra e de desafio, no de utilidade. Enquanto as nor mas prioritrias tiverem 
prioridade sobre as vontades particulares, enquanto a honra e a vingana continuarem a prevalecer, o desenvolvimento do apa relho policial, o aperfeioamento das 
tcnicas de vigilncia e a intensificao da justia, ainda quando sensveis, tero apenas um efeito limitado sobre as violncias privadas: temos como prova a questo 
do duelo, que sabemos ter sido definido, com os ditos reais do incio do sculo XVII, como um delito passvel oficialmente de acarretar a perda dos direitos e ttulos 
dos infracto res, para alm de morte infamante. Ora, no con.eo do sculo XVIII, a des peito de uma justia mais rpida, mais vigilante, mais escrupulosa, o duelo
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N. Elias, La Dynamique de 1Occident, Calmann-Lvy, 1975, p. 195.
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ainda no desaparecera, nem perto disso; parece mesmo que h ento um maior nmero de processos por duelo do que uni sculo antes O desenvol vimento repressivo do 
aparelho de Estado s pde desempenhar o seu papel de pacificao social na medida em que, paralelamente, se instaurava uma nova economia da relao interindividual 
e, assim, tambm uma nova signi ficao da violncia. O processo de civilizao no pode ser entendido nem como um recalcamento nem como uma adaptao mecnica das 
pulses ao estado de paz civil: a esta verso objectivista, funcional e utilitarista, deve mos substituir uma problemtica que reconhea, no declnio das violncias 
privadas, o advento de uma nova lgica social, de um frente a frente carre gado de um sentido radicalmente indito na histria.
A explicao econmica do fenmeno continua a ser igualmente parcial, porque no menos objectivista e mecanicista: dizer que sob o efeito do au mento das riquezas, 
do recuo da misria, da elevao do nvel de vida, os costumes se moderam,  omitir o facto historicamente decisivo de que a prosperidade enquanto tal jamais foi 
um obstculo  violncia, nomeada mente nas classes superiores que souberam conciliar na perfeio o seu gosto do fausto com o da guerra e da crueldade. No est 
na nossa inteno negar o papel dos factores polticos e econmicos que, seguramente, contribuiram de maneira decisiva para o advento do processo de civilizao: 
queremos di zer que a sua aco  ininteligvel independentemente das significaes so ciais histricas que permitiram instaurar. A monopolizao da violncia leg 
tima em si ou o nvel de vida quantitativamente determinado, por si ss, no podem explicar directamente o fenmeno plurissecular da suavizao dos comportamentos. 
No entanto, foram realmente o Estado moderno e o seu complemento, o mercado, que, de maneira convergente e indissocivel, con tribuiram para a emergncia de uma 
nova lgica social, de uma nova signifi-. cao da relao inter-humana, tornando-se inelutvel, no tempo longo, o declnio da violncia privada. Foi, com efeito, 
a aco conjugada do Estado moderno e do mercado que possibilitou a grande fractura que actualmente nos separa para sempre das sociedades tradicionais, o aparecimento 
de um tipo de sociedade em que o homem individual se toma como fim ltimo e existe apenas para si prprio.
Pela centralizao efectiva e simblica que operou, o Estado moderno, a
partir do absolutismo, desempenhou um papel determinante na dissoluo, na desvalorizao dos anteriores laos de dependncia pessoal e, com isso, no advento do 
indivduo autnomo, livre, desligado dos laos feudais de ho mem a homem e progressivamente de todas as inrcias tradicionais. Mas foi igualmente a extenso da economia 
de mercado, a generalizao do sistema do valor de troca, que permitiu o nascimento do indivduo atomizado tendo como finalidade uma busca cada vez mais afirmada 
como tal do seu interes se privado  medida que as terras se compram e se vendem, que a pro priedade fundiria se torna uma realidade social largamente difundida, 
que as trocas mercantis, o salariato, a industrializao e as deslocaes popula cionais se desenvolvem, produz-se uma transformao das relaes do ho mem com a 
comunidade que o enquadra, uma mutao que se pode resumir numa palavra, individualismo, caminhando a par de uma aspirao sem precedentes pelo dinheiro, a intimidade, 
o bem-estar, a propriedade, a segu rana, e subvertendo inconstestavelmente a organizao social tradicional. Com o Estado centralizado e o mercado, surge o indivduo 
moderno, consi derando-se a si prprio isoladamente, absorvendo-se na dimenso privada, recusando a submeter-se s regras ancestrais exteriores  sua vontade nti 
ma, no reconhecendo j como lei fundamental seno a sua sobrevivncia e o seu interesse prprio.
E  precisamente esta transformao da relao imemorial do homem com a comunidade que vai funcionar como o agente por excelncia da paci ficao dos comportamentos. 
A partir de ento, a prioridade do conjunto oficial apaga-se em benefcio do interesse e das vontades das partes indivi duais, os cdigos sociais que fixavam o homem 
s solidariedades de grupo j no podem subsistir: cada vez mais independente em relao s imposies colectivas, o indivduo j no reconhece como dever sagrado 
a vingana de sangue que, durante milnios, permitiu soldar o homem  sua linhagem. No foi apenas atravs da lei e da ordem pblica que o Estado conseguiu eliminar 
o cdigo da vingana; de modo igualmente radical, foi o processo individualista que, pouco a pouco, minou a solidariedade vingadora. En quanto nos anos 1875-1885, 
a taxa mdia de homicdio para cem mil habi Sobre as correlaes entre Estado, mercado e indivduo, ver Marce Gauchet e Gladys
Swain, La Pratique de lespri! humain, op. cit., pp. 387-396, e M. Gauchet ' !'Amrique et nous", in Libre, 1980, n'o 7, pp. 104i06 Ver tambm Pierre Rosauvailon, 
Le Capitalisme Utopique. Ed. du Seuil, 1979, pp. 113-124.
a. F. Biltacois, "Le Pariement de Paris et es duek au XVII sicle, in Crime et crimina Iit en France aux XVIP' e XVHfr sicle
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tante, em Frana, se fixava  volta de um, na Crsega era quatro vezes su perior; a mesma distncia acentuada se registava em Itlia entre o Norte e o Sul, este 
ltimo com uma taxa muito elevada de homicdios: onde a famlia conserva a sua fora antiga, a prtica da vendetta continua a ser mortfera a despeito da importncia 
dos aparelhos repressivos do Estado.
Atravs do mesmo processo, o cdigo de honra sofre uma mutao deci siva: quando o ser individual se define cada vez mais pela relao com as coisas, quando a busca 
de dinheiro, a paixo do bem-estar e da propriedade levam a melhor sobre o estatuto e o prestgio social, o ponto de honra e a susceptibilidade agressiva atenuam-se: 
a vida torna-se valor supremo e o im perativo de no perder a cara torna-se fraco. J no  vergonhoso no res ponder  ofensa ou  injria: a uma moral da honra, 
fonte de duelos, de be licosidade permanente e sangrenta, substituu-se uma moral da utilidade prpria, da prudncia, em que o encontro do homem com o homem se faz 
essencialmente sob o signo da indiferena. Se, na sociedade tradicional, o outro surge imediatamente ,como amigo ou inimigo, na sociedade moderna, indentifica-se 
geralmente com um estranho annimo que no merece sequer o risco da violncia. "Domnio de si prprio: evita os extremos; evita levar muito a peito as ofensas, porque 
estas nunca so o que parecem  primeira vista", escrevia Benjamin Franklin: o cdigo da honra deu lugar ao cdigo pacfico da "respeitabilidade"; pela primeira 
vez na histria, instaura-se uma civilizao em que j no  de rigor responder aos desafios, em que o juzo do outro importa menos do que o meu interesse estritamente 
pessoal, em que o reconhecimento social se dissocia da fora, do sangue e da morte, da violncia e do desafio. Mas geralmente,  a uma reduo da dimenso do desafio 
interpessoal que se aplica o processo individualista: a lgica do desa fio, que  inseparvel do primado holista e que, durante milnios, socializou os indivduos 
e os grupos num frente a frente antagnico, sucumbe a pouco e pouco, tronando-se uma relao anti-social. Provocar o outro, esclarec-lo, esmag-lo simbolicamente, 
este tipo de relao est destinado a desaparecer quando o cdigo da honra d lugar ao culto do interesse individual e da pri vacy.  medida que se eclipsa o cdigo 
da honra, a vida e a sua conservao afirmam-se como ideais primeiros, enquanto o risco da morte deixa de ser um valor, bater-se deixa de ser uma glria, e o indivduo 
atomizado se em penha cada vez menos em discusses, rixas, confrontos sangrentos, no por ser "auto-controlado", mais disciplinado do que os seus avs, mas porque 
a violncia j no tem sentido social, j no  meio de afirmao e de reconhe
cimento do indivduo num tempo em que a sacralizao investiu a longevida de, a poupana, o trabalho, a prudncia, a medida. O processo de civiliza o no  efeito 
mecnico do poder ou da economia, coincide com a emer gncia de finalidades sociais inditas, com a desagregao individualista do corpo social e com a nova significao 
da relao interhumana baseada na indiferena.
Com a ordem individualista, os cdigos de sangue so desinvestidos, a violncia perde toda a dignidade ou legitimidade social, os homens renun ciam maciamente a 
usar da sua fora privada para resolverem os seus dife rendos. Deste modo, esclarece-se a verdadeira funo do processo de civiliza o: como Tocqueville j mostrara, 
 medida que os homens se retiram para a sua esfera privada e s a si prprios se tm em vista, no param de recor rer ao Estado a fim de este garantir uma proteco 
mais vigilante, mais constante da sua existncia.  essencialmente no sentido de aumentar as prer rogativas e o poder do Estado que o processo de civilizao opera: 
o Estado policial no  apenas efeito de uma dinmica autnoma do "monstro frio",  desejado pelos indivduos doravante isolados e pacficos, ainda que estes de 
nunciem regularmente a sua natureza repressiva e os seus excessos. Multipli cao das leis penais, aumento dos efectivos e dos poderes da polcia, vigi lncia sistemtica 
das populaes, so os efeitos inelutveis de uma socieda de em que a violncia  desvalorizada e em que simultaneamente aumenta a necessidade de segurana pblica. 
O Estado moderno criou o indivduo so cialmente desligado dos seus semelhantes, mas este cria, em contrapartida, pelo seu isolamento, a sua ausncia de belicosidade, 
o seu medo da violn cia, as condies constantes de desenvolvimento da fora pblica. Quanto mais os indivduos se sentem livres, mais pedem uma proteco regular 
e sem falhas por parte dos rgos estatais; quanto mais abominam a brutali dade, mais necessrio se torna o aumento das foras de segurana: a huma nizao dos costumes 
pode assim interpretar-se como um processo visando desapossar o indivduo dos princpios refractrios  hegemonia do poder to tal, ao projecto de colocar a sociedade 
inteira sob a tutela do Estado.
Inseparvel do individualismo moderno, o processo de civilizao no de ve, no entanto, ser atribudo  revoluo democrtica concebida como disso luo do universo 
hierrquico e advento do reino da igualdade. Sabe-se que na problemtica tocquevilliana,  a "igualdade das condies" que, reduzin do as dissemelhanas ditas de 
natureza entre os homens, instituindo uma identidade antropolgica universal, explica a suavizao dos costumes, a re
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gresso do emprego da violncia interpessoal. Em sculos de desigualdade, no existindo a ideia de semelhana entre os homens, a compaixo, a aten o para com os 
que pertencem a uma casta consderada heterognea, tm poucas probabilidades de se desenvolver; em compensao, a dinmica igua litria, produzindo uma identidade 
profunda entre todos os seres, tornados doravante membros iguais de uma mesma humanidade homognea, favorece a identificao com a infelicidade ou a dor do outro 
e, desse modo, ope-se aos excessos da violncia e da crueldade A esta interpretao, que tem o mrito de analisar a violncia em termos de lgicas e significaes 
sociais histricas, devemos, contudo, objectar que a crueldade e a violncia dos tempos hierrquicos no se afirmava apenas entre indivduos de ordens dife rentes: 
os "iguais" eram tambm vtimas de uma violncia no menos cruel. Os dios de sangue no eram tanto mais fortes quanto mais prximos e se melhantes eram os seres 
humanos neles envolvidos? Assim as denncias por feitiaria dos sculos XVI e XVII incidiam quase exclusivamente sobre pes soas que os acusadores conheciam bem, 
vizinhos e iguais; os duelos e ven dettas desenrolavam-se essencialmente entre pessoas da mesma condio. Se, entre iguais, a violncia e a crueldade no eram menores, 
isso significa que no  da igualdade, concebida como estrutura moderna de apercepo do outro enquanto "mesmo", que devemos partir para tornarmos inteligvel a 
pacificao dos indivduos. A civilizao dos comportamentos no surge com a igualdade, mas com a atomizao social, com a emergncia de novos valo res privilegiando 
a relao com as coisas e a desafeco concomitante dos cdigos da honra e da vingana. No  o sentimento de semelhana entre os seres que explica o declnio das 
violncias privadas; a crueldade comea a causar horror, as rixas tornam-se sinal de selvajaria quando o culto da vida privada suplanta as prescries holistas, 
quando o indivduo se retrai e fecha em si prprio, cada vez mais indiferente aos juzos dos outros. A este ttulo, a humanizao da sociedade no passa de uma das 
expresses do processo de dessocializao caracterstico dos tempos modernos.
Apesar de tudo, tendo ligado a moderao dos comportamentos moder nos  promoo democrtica da iden4ficao entre os seres, Tocqueville sou be conduzir-nos ao corao 
do problema. Num povo democrtico, cada in divduo sente espontaneamente a misria do outro: "Pouco importar que se
A. de Tocqueville, De la dmocratie en Amrique, Gaflimard, 1961, t. 1, vol. II, pp. 171-175, e o comentrio de M. Gauchet, art. citado, sobretudo pp. 95-96.
trate de estrangeiros ou inimigos: a imaginao pe-no imediatamente no seu lugar. Mistura qualquer coisa de pessoal  sua piedade e f-lo sofrer en quanto o corpo 
do seu semelhante  dilacerado" Contrariamente ao que pensava Rousseau, a "piedade" no ficou para trs de ns no passado;  obra daquilo que, segundo ele pensava, 
a excluia, a saber, a atomizao in dividualista. O retraimento do indivduo em si prprio, a privatizao da vi da, longe de abafarem a identificao do outro, 
estimulam-na. Temos que pensar conjuntamente o indivduo moderno e o processo de identificao, e este s tem verdadeiro sentido onde a dessocializao libertou 
j o indivduo dos seus laos colectivos e rituais, onde o sujeito e o outro podem encontrar- se como indivduos autnomos num frente a frente independente dos mode 
los sociais pr-estabelecidos. Inversamente, pela preeminncia atribuida ao todo social, a organizao holista constitui um obstculo  identificao in tersubjectiva. 
Enquanto a relao interpessoal no consegue emancipar-se das representaes colectivas, a identificao no se opera entre mim e ou trm, mas entre mim e uma imagem 
de grupo ou modelo tradicional. Nada de semelhante encontramos na sociedade individualista que tem como conse quncia tornar possvel uma identificao estritamente 
psicolgica, quer di zer, implicando pessoas ou imagens privadas, uma vez que j nada dita im perativamente e desde sempre o que deve ser feito, dito, acreditado. 
Parado xalmente,   fora de se considerar de modo isolado, de viver para si pr prio, que o indivduo se abre  infelicidade do outro. Quanto mais o indiv duo 
existe como pessoa privada, mais sente a aflio ou a dor do outro; o sangue, os ataques  integridade do corpo tornam-se espectculos insuport veis, a dor surge 
como uma aberrao catica e escandalosa, a sensibilidade tornou-se uma caracterstica permanente do homo clausus. O individualismo produz, por conseguinte, dois 
efeitos inversos e, todavia, complementares: a indiferena ao outro e a sensibilidade  dor do outro: "Nos sculos democr ticos, os homens raramente se dedicam 
uns aos outros, mas mostram uma compaixo geral por todos os membros da espcie humana"
Poderemos ignorar esta nova lgica social quando queremos compreender o processo de humanizao dos castigos que se inicia na charneira entre o sculo XVIII e o 
sculo XIX? Sem dvida, temos que ligar esta mutao pe nal ao advento de uni novo dispositivo do poder cuja vocao j no , como
1 A. de Tocqueville, ibid., p. 174.
2 Michel Foucault, Surveiller et punir, Gailimard, 1975.
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foi o caso desde a origem dos Estados, afirmar na violncia inumana dos suplcios a sua superioridade eminente, a sua fora soberana e desmedida, mas, pelo contrrio, 
administrar e penetrar lentamente a sociedade, quadri culando-a de forma contnua, comedida, homognea, regular, at aos seus pontos mais recnditos'. Mas a reforma 
penal no teria sido possvel sem a deslocao profunda da relao com o outro suscitada pela revoluo indivi dualista, correlativa do Estado moderno. Um pouco 
por todo o lado, na se gunda metade do sculo XVIII, elevam-se protestos contra a atrocidade dos castigos corporais, estes comeam a tornar-se socialmente ilegtimos, 
a ser assimilados  barbrie. Aquilo que desde sempre parecia natural,  agora escandaloso: o mundo individualista e a identificao especfica com o outro que ele 
engendra, constituiu o quadro social adaptado ao abandono das pr ticas legais da crueldade. Precisamos de ter cuidado com o "tudo  poltica", ainda quando se distribui 
por estratgias microscpicas: a humanizao das penas no teria podido adquirir semelhante legitimidade, no teria podido desenvolver-se com uma tal lgica na longa 
durao se no tivesse coincidido ao nvel mais profundo com a nova relao de homem a homem instituda pelo processo individualista. No  necessrio retomar a 
questo das priori dades: o Estado e a sociedade trabalham paralelamente na afirmao do princpio da moderao das penas.
A escalada da pacjficao
Que se passa com o processo de civilizao no momento em que as socie dades ocidentais se vem regidas de maneira preponderante pelo processo de personalizao? 
Apesar do leitmotiv actual do crescimento da insegurana e da violncia,  claro que a poca do consumo e da comunicao apenas continua por outros meios o trabalho 
inaugurado pela lgica estatal-
-individualista precedente. A estatstica criminal, por imperfeita que seja, aponta nesse sentido; na longa e mdia durao, as taxas de homicdio per manecem relativamente 
estveis: memo nos EVA, onde a taxa de homicdio  excepcionalmente elevada - embora muito menos elevada do que em p ses como a Colmbia e a Tailndia -, a taxa 
de 9 vtimas por 100 000 habi tantes atingida em 1930 mal chegou a ser ultrapassada em 1974 com 9,3. Em Frana, a taxa de homicdio oficial (sem tomarmos, portanto, 
em consj
derao os "nmeros negros") era de 0,7 em 1876-1880; de 0,8 em 1972. Em 1900-1910, a taxa de mortalidade por homicdio em Paris era de 3,4 contra
1,1 em 1963-1966. A era do consumo acentua a pacificao dos comporta mentos e, em particular, faz diminuir a frequncia das rixas e da violncia fsica: nos departamentos 
do Sena e do Norte, as taxas das condenaes por pancadas e ferimentos em 1875-1885 elevavam-se respectivamente a 63 e a 110 para 100 000 habitantes; em 1975, fixavam-se 
 volta de 38 e 56. No s culo da industrializao e at uma data recente, tanto em Paris como na provncia, as rixas eram moeda corrente entre a classe operria, 
classe com um sentido da honra susceptvel, fiel ao culto da fora. Mesmo as mulheres, a darmos crdito a certos jaits divers referidos por L. Chevalier e s descri 
es de Valls e de Zola, no hesitavam em recorrer s injrias e s mos para resolverem as suas disputas. Nos nossos dias, a violncia desaparece maciamente da 
paisagem urbana, tornando-se, ao mesmo ttulo e mais ain da do que a morte, o interdito maior das nossas sociedades. As prprias classes populares renunciaram  
tradicional valorizao da fora e adopta ram um estilo coo! de comportamento -  esse o verdadeiro sentido do "aburguesamento" da nossa sociedade. O que nem a educao 
disciplinar nem a autonomia pessoal conseguiram realizar efectivamente, consegue-o a lgica da personalizao ao estimular a comunicao e o consumo, sacrali zando 
o corpo, o equilbrio e a sade, destruindo o culto do heri, desculpa bilizando o medo, em suma instituindo um novo estilo de vida, novos valo res, e levando ao 
seu ponto culminante a individualizao dos seres, a re traco da vida pblica, o desinteresse pelo Outro.
Cada vez mais fechados nas suas preocupaes privadas, os indivduos pacificam-se no por tica, mas por hiper-absoro individualista: em socie dades que promovem 
o bem-estar e a auto-realizao, os indivduos, com to da a evidncia, sentem-se mais desejosos de se descobrirem a si prprios, de se auscultarem, de "descarregarem" 
por meio de viagens, de msicas, de desportos, de espectculos, do que de se confrontarem fisicamente. A repul sa profunda e geral dos nossos contemporneos perante 
os comportamentos violentos  funo desta disseminao hedonista e informacional do corpo social realizada pelo reino do automvel, dos media, dos tempos livres. 
E a poca do consumo e da informao que, alm disso, faz declinar um certo tipo de alcoolismo,os rituais do caf, lugar sem dvida de uma nova sociabi
Michel Foucault, Surveji/er ei punir, Gailimard, 1975.
1 Louis Chevalier, Montmartre du plaisir ei du crime. Laffont, 1980.
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ldade masculina no sculo XIX e at meio do sculo XX, como bem diz Aris, mas igualmente lugar entre todos favorvel ao desencadear da violn cia: na viragem do 
sculo, um delito de agresso em cada dois deve ser atri budo ao estado de embriaguez. Dispersando os indivduos atravs da lgica dos objectos e dos media, levando-os 
a desertar do caf (pensamos evidente- mente aqui no caso francs) em benefcio da existncia consumidora, o pro cesso de personalizao destruiu lentainente as 
normas de uma sociabilidade viril responsvel por um alto nvel de criminalidade violenta.
Paralelamente, a sociedade de consumo completa a neutralizao das re laes inter-humanas; a indiferena pelo destino e pelos juzos do outro ad quire ento toda 
a sua extenso. O indivduo renuncia  violncia no s porque apareceram novos bens e fins privados, mas porque, no mesmo mo vimento, o outro se torna dessubstancialjzado, 
um "figurante" sem importn cia 1, quer seja membro afastado do grupo familiar restrito, vizinho de pata- mar ou colega de trabalho.  este discount da relao inter-humana 
refora do pelo hiper-investimento individualista ou narcsico que se encontra na ori gem do declnio dos actos de violncia. Indiferena pelos outros de um gne 
ro novo, devemos acrescentar, porque simultaneamente as relaes interindi viduais no param de ser reestruturadas, modeladas pelos valores psicologis tas e comunicacionais. 
Tal  o paradoxo da relao interpessoal na socieda de narcsica: cada vez menos interesse e considerao pelo outro e, todavia, cada vez maior desejo de comunicar, 
de deixar de lado a agressividade, de compreender outrm. Convivialidade psi e indiferena pelos outros desenvol vem-se hoje juntamente; nestas condies, como poderia 
a violncia deixar de recuar?
Enquanto a violncia fsica interindiyjduaj regride inelutavelmente, a vio  precisamente onde a relao inter-humana no se institui na base da indiferena, a
saber, no interior do meio familiar ou das pessoas mais chegadas, que a violncia  mais fre quente. Nos EUA, em 1970, um homicdio em cada quatro era de tipo familiar; 
em Inglaterra, no final dos anos sessenta, mais de 46 por cento de todos os homicdios eram assassinatos de ti- po domstico ou visando pessoas chegadas; nos Estados-Unidos, 
o nmero total de vtimas de violncias familiares (mortes, golpes e ferimentos) era em 1975 da ordem de oito milhes (cerca de 4 por cento da populao). Cf. J. 
C. Chesnais, Histoire da la violence, Laffont, col. "Pluriel", 1981, pp. 100-107. A violncia de sangue  tributria da ordem narcsica das nossas sociedades que 
estreitam e intensificam o campo das relaes privadas; nestas condies, desencadeia-se prioritariamente contra aqueles que nos abandonam ou enganam, aqueles que 
ocupam a nossa proximidade mais ntima, aqueles que suportamos quotidianamente na mesma casa.
lncia verbal sofre, tambm ela, o choque narcsico. Deste modo as injrias com um sentido social, to frequentes no sculo xviii (vadio, piolhoso, esfo meado, porco) 
deram lugar a insultos de carcter mais " o mais das vezes de ndole sexual. Da mesma maneira, os insultos como cuspir no rosto ou  passagem de algum desapareceram, 
incompatveis que so com as nos sas sociedades higinicas e indiferentes. De um modo geral, o insulto banali zou-se, perdeu a sua dimenso de desafio e designa 
menos uma vontade de humilhar o outro do que um impulso annimo desprovido de intenes beli cosas e, por isso, raramente seguido de embate fsico: o indivduo que, 
ao volante do seu automvel, injuria um outro condutor, no deseja de maneira nenhuma rebaix-lo, e o indivduo que  objecto do insulto no se sente, no fundo, 
minimamente lesado. Num tempo narcsico, a violncia verbal des substancializou-se, j no tem significao interindividual, tornou-se hard, quer dizer sem fim nem 
sentido, violncia impulsiva e nervosa, dessocializa da.
O processo de personalizao  um operador de pacificao generalizada; de acordo com o seu registo, as crianas, as mulheres, os animais deixam de ser os alvos 
tradicionais da violncia que continuavam ainda a ser no sculo XIX e, por vezes, na primeira metade do sculo XX. Atravs da valorizao sistemtica do dilogo, 
da participao, da escuta do pedido subjectivo, que a seduo ps-moderna pe a funcionar,  o prprio princpio da correco fsica, mantido ou at reforado pela 
era das disciplinas, que se v rejeitado pelo processo educativo, O eclipse dos castigos corporais resulta da promo o de modelos educativos  base de comunicao 
recproca, de psicologiza o das relaes no momento em que os pais justamente deixam de se reco nhecer como modelos a imitar pelos seus filhos. O processo de personaliza 
o dilui todas as grandes figuras da autoridade, mina o princpio de ex emplo, demasiado tributrio de uma era distante e autoritria que sufocava as espontaneidades 
singulares, dissolve por fim as convices em matria de educao: a essubstancializao narcsica manifestava-se no centro da fam lia nuclear como impotncia, 
desapropriaO e demisso educativa. A puni o fsica que, ontem ainda, tinha uma funo positiva na aprendizagem e transmisso das normas, j no passa de um malogro 
vergonhoso e culpabi lizador da comunicao entre pais e filhos, de um ltimo impulso descontro lado, em desespero de autoridade.
A campanha em torno das mulheres espancadas desenvolve-se e encontra o eco que sabemos  medida que a violncia masculina regride nos usos,
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Gil/es Lipovetsky A Era do Vazio
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desqualificada por um tempo "transsexual" em que a virilidade deixa de ser associada  fora e a feminilidade  passividade. A violncia masculina era a actualizao 
e a reafirmao de um cdigo de comportamento que assentava na diviso imemorial dos sexos: este cdigo v-se desafectado quando, sob o efeito do processo de personalizao, 
o masculino e o feminino j no tm nem definies rigorosas nem lugares marcados, quando o esquema da supe rioridade masculina  rejeitado por todos os lados, quando 
o princpio da autoridade musculada d lugar ao imaginrio da livre disposio de si pr prio, do dilogo psi, da vida sem entraves nem compromissos definitivos. 
 verdade que resta a questo da violao: em Frana, 1 600 violaes foram registas em 1978 (3 violaes por 100 000 habitantes), mas  verosmil que tenham sido 
cometidas realmente perto de 8 000 (nmeros negros); nos EUA, com mais de 60 000 violaes, a taxa atinge valores extremos: 29 por 100 000 habitantes. Na maior parte 
dos pases desenvolvidos, regista-se um nmero crescente de violaes sem que seja possvel, porm, determinar se esta elevao resulta de um aumento efectivo das 
agresses sexuais ou de urna desculpabilizao das mulheres violadas, permitindo-lhes declarar mais facilmente as violncias sofridas: na Sucia, o nmero das violaes 
mais que duplicou num quarto de sculo; nos EUA, a sua frecjncia quadrupli cou entre 1957 e 1978. Em contrapartida, desde h um sculo, tudo parece indicar uma 
queda muito sensvel da violncia sexual: a frequncia da viola o em Frana seria cinco vezes menor do que durante a dcada de 1870 1 A despeito do agravamento 
relativo da violncia sexual, o processo coo! de personalizao continua a moderar os comportamentos masculinos, sendo o recrudescjrnento do nmero das violaes 
acompanhado pela sua relegao para uma populao afinal muito circunscrita: por um lado, os acusados recrutam-se em grande nmero nos grupos raciais e culturais 
(nos EUA, quase metade das detenes tm por objecto indivduos negros), por outro lado, no podemos ignorar que pelo menos uma tera parte dos violadores, em Frana, 
so reincidentes.
Por fim, a relao com os animais foi tambm anexada pelo processo de civilizao. Se as leis de 1850 e 1898 permitiam em teoria punir as violncias contra os animais, 
sabe-se que foram letra morta e que, na realidade, esse tipo de crueldade estava longe de ser unanimemente condenado. No sculo
XIX, a brutalidade nos matadouros era coisa corrente; os combates de ani mais eram dos espectculos favoritos dos operrios, "punham-se os pers a danar em cima 
de placas de ferro aquecidas, atiravam-se pedras a pombos fechados em caixas com a cabea de fora a servir de alvo" 1 Todo um mun do nos separa desta sensibilidade; 
nos nossos dias as sevcias sobre os ani mais so maciamente condenadas, de toda a parte se levantam protestos contra a caa e as touradas, contra as condies 
de criao do gado, contra certas normas de experimentao cientfica. Mas em sector algum a humani zao  mais visvel do que entre as crianas, que, facto nico 
na histria, j no tomam prazer em brincadeiras, outrora naturais, que consistiam em tor turar os animais. Se o individualismo moderno foi acompanhado pela liber 
tao do mecanismo da identificao com outrm, o individualismo ps- moderno tem como caracterstica o alargamento desta identificao para l da ordem humana. 
Identificao complexa que deve ser ligada  psicologiza o do indivduo: medida que este se "personaliza", as fronteiras que sepa ram o homem do anin esbatem-se, 
toda a dor, ainda que experimentada por um animal, se torna insuportvel ao indivduo doravante constitutiva- mente frgil, abalado, horrorizado pela simples ideia 
de sofrimento. Organi zando o indivduo como estrutura mole e psi, o narcisismo aumenta a recep tividade relativamente ao exterior; a humanizao dos costumes que, 
de res to,  acompanhada por uma indiferena igualmente sistemtica, como comprovam as vagas de abandonos de animais durante as mgraes de ve ro, deve ser interpretada 
como uma nova vulnerabilidade, uma nova inca pacidade dos homens de se confrontarem com a provao da dor.
Prova de certo modo incontornvel desta moderao sem precedentes da sociedade, em 1976, 95 por cento dos Franceses afirmavam no ter sofrido ao longo do ms no 
termo do qual foram inquiridos qualquer violncia; mais ainda, os interrogados afirmavam que, ao longo desse ms, nenhum membro da sua famlia (87 por cento) ou 
nenhum conhecido (86 por cento) fora vti ma de qualquer agresso. De maneira que nem o aumento de uma nova cri minalidade violenta, nem os tumultos nos estdios 
ou nos bailes de sbado  noite devem ocultar-nos o pano de fundo sobre o qual se destacam: a violn cia fsica entre indivduos torna-se cada vez mais invisvel, 
transformou-se numa coleco defait divers traumatizantes. Isto no impedia que, no mes mo momento, dois indivduos em cada trs pensassem que os comportamen
J.-C. Chesnais, ibid., pp. 181-188.
Thodore Zeldin, Histoire des passions franaises, Ed. Recherches, 1979, t. V, p. 180.
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Guies Lipovetsky A Era do Vazio
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tos violentos eram hoje mais comuns que num passado prximo ou no come o do sculo. Sabe-se que, em todos os pases desenvolvidos, o sentimento de insegurana aumenta; 
em Frana, 80 por cento da populao sente aguda- mente um acrscimo de violncia; 73 por cento reconhecem ter medo de vol tar a p  noite para casa; um indivduo 
em cada dois receia andar  noite de carro numa estrada secundria. Na Europa, como nos EUA, a luta con tra a criminalidade ocupa o primeiro lugar entre as preocupaes 
e priorida de do pblico. Deveremos ento, dado este divrcio entre os factos e o vivi do, considerar a insegurana actual como uma iluso, uma maquinao do poder 
servindo-se dos media como intermedirios, exportando uma falsa conscincia a fim de assegurar o seu controlo social num perodo de crise e de decomposio ideolgica? 
Mas como e porque  que esta "ideologia" con segue introduzir-se na sociedade?  levar em pouca conta as transformaes profundas da sociedade civil e da relao 
com a violncia delas decorrente. De facto, o sentimento de insegurana cresce, alimentando-se do mais pe quenofait divers e isto independentemente das campanhas 
de intoxicao. A insegurana actual no  uma ideologia, est inelutavelmente correlacionada com um indivduo desestabilizado e desarmado que amplifica todos os 
ris cos, se sente obcecado pelos seus problemas pessoais, exasperado por um sistema repressivo considerado inactivo ou "demasiado" c um indiv duo que se habituou 
a ser protegido e se sente traumatizado por uma violn cia de que nada sabe: a insegurana quotidiana resume sob uma forma an gustiada a dessubstancializao p-moderna. 
O narcisismo, inseparvel de um medo endmico, s se constitui afirmando um exterior exageradamente ameaador, o que, por seu turno, s pode alargar a gama dos reflexos 
indi vidualistas: actos de auto-defesa, indiferena pelo outro, aprisionamento em casa; enquanto um nmero no desprezvel de habitantes das grandes cida des se 
abrigam j por trs da sua porta blindada e renunciam a sair  noite, apenas 6 por cento dos Parisienses interviriam se ouvissem  noite chamar por socorro.
Curiosamente, a representao da violncia torna-se tanto mais exacerba da quanto mais a violncia regride na sociedade civil. No cinema, no teatro, na literatura, 
assistimos, com efeito, a uma profuso de cenas de violncia, a um deboche de horror e atrocidade sem precedentes; nunca a "arte" se em penhou tanto em mostrar de 
to perto a prpria textura da violncia, violn cia hi-fi feita de cenas insuportveis de ossos esmagados, jactos de sangue, gritos, decapitaes, amputaes, castraes. 
Deste modo, a sociedade coo! 
acompanhada pelo estilo hard, pelo espectculo em trompe !'oei! de uma violncia hiper-realista. No daremos conta desta pornografia do atroz a partir de qualquer 
necessidade sdica recalcada pelas nossas sociedades de puradas; mais vale que registemos a radicalidade de representaes doravan te autnomas e, portanto, votadas 
a um puro processo maximalista. A for ma hard no exprime a pulso, no compensa uma falta, como tambm no descreve a natureza intrnseca da violncia ps-moderna; 
quando j no h nenhum cdigo moral a transgredir, resta a fuga para diante, a espiral ex tremista, o requinte do pormenor pelo pormenor, o hiperrealismo da violn 
cia, tendo por nico objectivo a siderao e a sensao instantneas.
E por isso que  possvel identificar a presena do processo hard em to das as esferas, o sexo (a pornografia; a prostituio de crianas cada vez mais jovens: em 
Nova York calcula-se em perto de doze mil o nmero de ra pazes e raparigas com menos de dezasseis anos nas mos dos proxenetas), a informao (o frenesim do "directo"), 
a droga (com a sua escalada de priva o e de doses), os sons (a corrida aos decibis), a "moda" (punks, ski nheads, couro), o ritmo (o rock), o desporto (doping 
e super-preparao dos atletas; ecloso da prtica do karat; body-building feminino com a sua fe bre de msculo); longe de ser uma moda mais ou menos aleatria, 
o efeito hard  correlativo da ordem coo!, da desestabilizao e da dessubstancializa o narcsica, ao mesmo ttulo que o efeito humorstico, que representa a fa 
ce oposta, mas logicamente homloga.  dissoluo gradual dos pontos de referncia maiores, ao vazio do hiper-individualismo, corresponde uma radi calidade sem contedo 
dos comportamentos e representaes, uma subida aos extremos nos signos e habitus do quotidiano; por toda a parte o mesmo processo extremista est em aco, o tempo 
das significaes, dos contedos pesados vacila: vivemos a poca dos efeitos especiais e da performance pura. da exasperao e da amplificao vazias.
Crimes e suicdios: violncias hard
A paisagem da violncia no deixou de se alterar com o advento das so ciedades governadas pelo processo de personalizao. Se, no prolongamento dos sculos XVIII 
e XIX, os crimes contra os bens (assaltos, roubos) e a delin quncia astuciosa (escroquerie...) continuam a levar de longe a melhor, em todos os pases ocidentais, 
sobre os crimes contra as pessoas, resta o facto de
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que a grande criminalidade deu um facto social indito: em Frana, entre 1963 e 1976, os hoid-ups aumentaram 35 vezes; entre 1967 e 1976, 5 vezes mais roubos  mo 
armada e 20 vezes mais hoid-ups foram cometidos. Sem dvida, a partir de 1975, este tipo de criminalidade parece ter encontrado uma espcie de ponto de equilbrio 
e em nmeros absolutos deixa de apre sentar progresses espectaculares; no  menos verdade que o assalto  mo armada representa hoje uma figura maior da violncia 
urbana.
Se o processo de personalizao suaviza os costumes da maioria, inversa mente endurece os comportamentos criminosos dos desqualificados, favorece a emergncia de 
actos energmenos, estimula a subida aos extremos no emprego da violncia. Do desenquadramento individualista e da desestabili zao actual suscitada nomeadamente 
pela solicitao das necessidades e pe la sua frustrao crnica, resulta uma exacerbao cnica da violncia ligada ao ganho, na condio de precisarmos prontamente 
os limites deste fenme no, circunscrito a um nmero em ltima anlise reduzido de indivduos que acumulam as agresses: na capital federal dos Estados Unidos, 7 
por cento dos criminosos detidos num perodo de quatro anos e meio foram presos quatro vezes, e esses 7 por cento eram os presumveis culpados de 24 por cento de 
todos os crimes graves perpetrados ao longo dos mesmos anos.
Outrora, o grande banditismo referia-se sobretudo a uma populao liga da ao proxenetismo, ao racket, ao trfico de armas ee estupefacientes; ho je assistimos a 
uma enchente ou "desprofissionalizao" do crime, quer dizer  emergncia de uma violncia cujos autores, muitas vezes desconhecidos dos servios da polcia, no 
tm qualquer familiaridade com o "meio". A vio lncia criminosa, de acordo com a flutuao generalizada, estende-se, perde as suas fronteiras estritas, incluindo 
no que diz respeito aos grupos etrios:
em Frana, em 1975, em cem pessoas que respondiam perante a justia por actos de criminalidade grave, dezoito eram menores; 24 por cento dos auto res de hoid-ups 
e de roubos  mo armada tinham menos de vinte anos; nos EUA, 57 por cento dos auto.res de crimes violentos tinham, em 1979, menos de vinte e cinco anos e ui em 
cada cinco menos de dezoito anos. A delin quncia juvenil no se desenvolveu muito em volume, mas tornou-se mais violenta. O processo de personalizao que generaliza 
o culto da juventude pacfica os adujtos, mas endurece os mais novos, que, de acordo com a lgi ca hiper-individualista, tendem a afirmar cada vez mais cedo, cada 
vez mais depressa, a sua autonomia, tanto material como psicolgica, mesmo que atravs do emprego da violncia.
A Era do Vazio        193
O mundo hard  jovem e toca em primeira linha os desenrazados cultu rais, as minorias raciais, imigrados e filhos de famlias imigradas. A ordem do consumo pulveriza 
muito mais radicalmente as estruturas e personalidade tradicionais do que o pde fazer a ordem racista colonial: doravante o que caracteriza o retrato do "colonizado" 
 menos a inferiorizao do que uma desorganizao sistemtica da sua identidade, uma desorientao violenta do ego suscitada pela estimulao de modelos individualistas 
eufricos que con vidam a viver intensamente. Por toda a parte, o processo de personalizao desmantela a personalidade; no jardim da fachada, temos a disperso 
narc sica e pacfica; nas traseiras, a exploso energmena e violenta. A sociedade hedonista produz sem dar por isso um composto explosivo quando se imbri ca, como 
 aqui o caso, num universo de honra e de vingana  deriva. A violncia dos jovens excludos em razo da cor ou da cultura  um patch work, resulta do choque entre 
o desenquadramento personalizado e o en quadramento tradicional, entre um sistema  base de desejos individualistas, de profuso, de tolerncia e uma realidade quotidiana 
de ghettos, de de semprego, de desocupao, de indiferena hostil ou racista. A lgica coo! prossegue por outros meios o trabalho plurissecular da excluso e da 
relega o; no j atravs da explorao ou da alienao decorrente da imposio autoritria das normas ocidentais, mas atravs da criminalizao.
Quando, em 1975, no representavam mais de 8 por cento da populao francesa, os estrangeiros eram responsveis por 26 por cento dos roubos acompanhados de violncia, 
23 por cento dos espancamentos e ferimentos, 20 por cento dos homicdios, 27 por cento das violaes, 26 por cento das condenaes por porte de arma indevido. Em 
1980, em Marselha, 32 por cento das agresses e ferimentos e 50 por cento dos roubos acompanhados de violncia foram obra de jovens estrangeiros, o mais das vezes 
maghrebi nos: se observarmos que os jovens nascidos de famlias imigradas, mas eles prprios j de nacionalidade francesa, no figuram nestes nmeros, sendo evidentemente 
contabilizados na estatstica criminal francesa, podemos ima ginar a representao muito forte, no conjunto de todos os grupos, dos imi grados e filhos de imigrados 
nos actos de vio'ncia, proporo que no se ex plica unicamente pelo facto de a polcia ou a justia investigarem, prende rem e condenarem mais facilmente os "estrangeiros" 
do que os autctones. Nos Estados-Unidos, onde de maneira geral a violncia  considervel - h um acto de violncia em cada sete segundos, ao que se diz -, os Negros 
en contram-se igualmente super-representados nos crimes violentos, quer como
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agressores quer como vtimas. Com efeito, em larga medida, os actos violen tos desenrolam-se entre indivduos da mesma cor: h mais crimes entre Ne gros do que de 
Negros contra Brancos e vice-versa. Na populao negra, o homicdio  hoje a primeira causa de morte tanto para os homens como para as mulheres entre os vinte e 
quatro e os trinta e quatro anos, enquanto para a populao branca da mesma idade essa causa so os acidentes de trnsito. Os Negros correm um risco seis vezes maior 
de morrer por homicdio do que os Brancos: se considerarmos apenas o caso dos homens, em 1978 as mortes por homicdio elevavam-se a 78,1 por 100 000 habitantes na 
populao ne gra, sendo de 12,2 para os Brancos. Quase metade dos assassinos presos so Negros. Prova a contrario do processo de civilizao, a violncia  cada 
vez mais o apangio de grupos perifricos; torna-se um facto relativo s mino rias. Apesar disso, no devemos ver nesta violncia de cor nem um habitus arcaico nem 
uma forma de revolta;  o ponto culminante da desestabilizao e da desintegrao ps-moderna, da subida aos extremos, dessocializada e cnica, ligada  liquefaco 
dos princpios, enquadramentos e auto-contro los;  a manifestao hard da ordem coo!.
Desorganizao ou degenerescncia do banditismo que podemos ler so bretudo na prpria "qualidade" dos crimes. Enquanto os vadios profissionais organizam minuciosamente 
os seus golpes, avaliam os ganhos e os riscos, pensam no alibi, os delinquentes da nova vaga lanam-se em operaes fre quentemente improvisadas, sem conhecerem 
o local, os fundos, os sistemas de alarme, em iniciativas de extrema gravidade contrw um ganho mnimo. Num s dia, cinco, seis hol-ups por somas ridculas;  esta 
desproporo entre riscos e ganhos, entre um fim insignificante e meios extremos que ca racteriza a criminalidade hard, sem projecto, sem ambies, sem imagin rio. 
O processo de personalizao que trabalha no sentido de aumentar a responsabilidade dos indivduos favorece, de facto, comportamentos aberran tes, instveis, indiferentes 
de algum modo ao princpio de realidade e por
1 Indiferena igualmente visvel no vandalismo, raiva hard que interpretamos mal vendo nela uma forma desqualificada de reivindicao ou de protesto simblicos. 
O vandalismo d tes temunho dessa desafeco nova que conquista as coisas ao mesmo tempo que os valores e as instituies sociais. Do mesmo modo que os ideais declinam 
e perdem a sua grandeza anterior, tambm os objectos perdem toda a sua "sacralidade" nos sistemas acelerados de consumo: a degradao vandlica tem como condio 
o fim do respeito pelas coisas, a indiferena pelo real doravante vazio de sentido. Tambm aqui, uma vez mais a violncia hard reproduz a ordem social que a torna 
possvel.
isso mesmo em consonncia com o narcisismo dominante e correlativo: o real transformado em espectculo irreal, em expositor de vidro sem espessu ra, pela lgica 
das solicitaes. Consequncia da desafeco das grandes fi nalidades sociais e da preeminncia conferida ao presente, o neo-narcisismo  uma personalidade flutuante, 
sem estrutura nem vontade, sendo a labilida de e a emotividade as suas caractersticas maiores. A este ttulo, a violncia hard, desesperada, sem projecto, sem consistncia, 
incarna a imagem de um tempo sem futuro que valoriza o "tudo, e j"; longe de estar em antinomia relativamente  ordem coo! e narcsica,  a sua expresso exasperada: 
a mes ma indiferena, a mesma dessubstancializao, a mesma desestabilizao, o que se ganhou em individualismo perdeu-se em saber-fazer, em ambio, mas tambm 
em sangue-frio, em controlo de si prprio: ao mesmo tempo que os jovens mafiosi americanos se vo abaixo e quebram j sem grande re sistncia a "lei do silncio", 
vemos aparecer essa figura mista e muito ps- moderna que  o jovem assaltante armado e sob o efeito de tranquilizantes. A dessubstancializao, aqui como noutros 
lugares,  acompanhada pelo flip e pela instabilidade. A violncia contempornea j nada tem a ver com o mundo da crueldade; os nervos so o seu trao dominante, 
no s entre os autores de assaltos, mas tambm entre os criminosos das habitaes econ micas que se enfurecem com os que fazem barulho e at entre a polcia, co 
mo demonstra a multiplicao dos inquietantes casos dos "deslizes" recentes.
O crime quase por nada: certamente, no se trata de coisa nova, as po cas anteriores conheceram igualmente crimes crapulosos por ganhos miser veis. No fim do sculo 
XIX, existe ainda uma criminalidade chamada das barreiras ataca-se um burgus perdido, um transeunte que  atrado aos fossos das fortificaes. Mas estas violncias 
tinham em comum o facto de reafirmarem a conivncia imemorial do crime e da noite, do ilegalismo e do segredo. Hoje, este lao est em vias de ser desfeito; o crime 
hard exibe-se em pleno dia, no corao da cidade, indiferente s cautelas do anonimato, indiferente aos lugares e s horas, como se o crime se esforasse por partici 
par na pornografia do nosso tempo, a da visibilidade total. Na esteira da de sestabilizao geral, a violncia deslastra-se do seu princpio de realidade, os critrios 
do perigo e da prudncia esbatem-se, inicia-se assim uma banaliza o do crime reforada por uma subida descontrolada aos extremos no em prego dos meios violentos.
L. Chevalier, op. cit., p. 196.
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A violncia criminosa no  o nico factor que designa o mundo hard. Menos espectacular, menos submetido ao scoop, o suicdio constitui a sua outra face, interiorizada 
se se quiser, mas regida por uma mesma progresso e uma mesma lgica. Sem dvida, a mar enchente de suicdios no  carac terstica da ps-modernidade; sabe-se, 
com efeito, que ao longo de todo o sculo XIX, na Europa, o suicdio no parou de crescer. Em Frana, de 1826 a 1899, o nmero de suicdios multiplicou-se por cinco 
enquanto a sua taxa por 100 000 habitantes passou de 5,6 a 23; na vspera da Primeira Guerra Mundial, esta taxa, j elevada,  ultrapassada, atingindo 26,2. co mo 
Durkheim analisou correctamente, onde a desinsero individualista to ma maior amplitude, o suicdio agrava-se de maneira considervel. O suic dio que, nas sociedades 
primitivas ou brbaras, era um acto de forte inte grao social efectivamente prescrito pelo cdigo holista da honra, torna-se, nas sociedades individualistas, um 
comportamento "egosta" cujo surto ful gurante no podia, segundo Durkheim, deixar de ser um fenmeno patolgi co e, portanto, evitvel e passageiro, resultando 
menos da natureza da so ciedade moderna do que das condies particulares em que ela se instituira.
A evoluo da curva dos suicdios pde, por um momento, confirmar o "optimismo" de Durkheim, uma vez que a taxa muito elevada do incio do sculo descera para 19,2 
em 1926-1930 e mesmo para 15,4 durante a dcada que se inicia em 1960. Apoiando-se nestes nmeros, houve quem sustentasse que a sociedade contempornea era "tranquila" 
e "equilibrada No entanto, sabemos que no  assim: em primeiro lugar, a partir de 1977, em Frana, com uma taxa prxima dos 20, assistimos de novo a um forte aumento 
do suicdio que restabelece quase o nvel do princpio do sculo ou do perodo entre as duas guerras. Mas, para alm deste agravamento, talvez conjuntu ral, da morte 
por suicdio,  o nmero de tentativas de suicdio no seguidas de morte que nos fora a retomar a questo da natureza suicidognea das nossas sociedades. Se verificarmos 
efectivamente uma queda do nmero de mortes voluntrias, observamos ao mesmo tempo uma elevao contnua das tentativas de suicdio, e isso em todos os pases desenvolvidos. 
Calcula-se
Durkheim, Le Suicide, PUF, pp. 413-424.
2 Emmanuel Todd, Le Fou et le prol Laffont, 1979. Igualmente Herv Le Bras e E.
Todd: "Depois da ruptura, os gneros de vida recompuseram-se e o indivduo integrou-se de outro modo. O suicdio apaga-se porque o mal-estar da civilizao chega 
ao fim". lo L'Inven tion dela France, Laffont, co!. "Pluriel", 1981, p. 296.
que h entre 5 e 9 tentativas por cada suicdio consumado: na Sucia, cerca de 2 000 pessoas se suicidam por ano e 20 000 tentam faz-lo; nos Estados- Unidos, so 
cometidos 25 000 suicdios e 200 000 tentados sem xito. Em Frana, houve, em 1980, 10 500 suicdios consumados e provavelmente cerca de 100 000 tentativas. Ora, 
tudo leva a pensar que o nmero de tentativas no sculo XIX no podia ser equivalente ao que actualmente conhecemos. Em primeiro lugar, porque os modos de preparao 
eram mais "eficazes":
enforcamento, afogamento, armas de fogo eram os trs instrumentos privile giados do suicdio at 1960; depois, porque o estado da medicina no permi tia salvar o 
mesmo nmero de autores de tentativas suicidrias; por fim, da da a proporo muito elevada, na populao suicidante, das pessoas idosas, ou seja, mais resolvidas, 
mais determinadas a morrer. Dada a extenso sem precedentes das tentativas de suicdio, a epidemia do suicdio est longe de ter chegado ao fim: a sociedade ps-moderna, 
acentuando o seu individualis mo, modificando o seu teor por meio da lgica narcsica, multiplicou as ten dncias para a auto-destruio, ainda que transformando 
a sua intensidade; a era narcsica  mais suicidognea do que a era autoritria. Longe de ser um acidente inaugural das sociedades individualistas, o movimento ascensio 
nal dos suicdios  correlativo delas, no plano da longa durao.
Se a distncia entre as tentativas e as mortes por suicdio aumenta, isso liga-se sem dvida aos progressos da medicina em matria de tratamento das intoxicaes 
agudas, mas tambm ao facto de a intoxicao por medica mentos e venenos se ter tornado uma forma largamente predominante de ten tativa ou consumao do suicdio. 
Se encararmos o conjunto dos actos suici drios (tentativas includas), as intoxicaes, medicamentos e gs ocupam actualmente o primeiro lugar entre os meios utilizados, 
sendo escolhidos por quatro quintos dos que se suicidam ou tentam suicidar-se. De algum modo, o suicdio paga o seu tributo  ordem coo/: cada vez menos sangrento 
e do loroso, o suicdio, como os comportamentos inter-individuais, suaviza-se: a violncia auto-destrutiva no desaparece, so os meios que perdem o antigo brilho.
Se as tentativas aumentam, isso liga-se igualmente ao facto de a popula o suicidante ser mais jovem: acontece com o suicdio o mesmo que com a
grande criminalidade, e a violncia hard  jovem. O processo de personaliza o promove um tipo de personalidade cada vez menos capaz de afrontar a
prova do real: a fragilidade, a vulnerabilidade crescem, e isto principalmente
entre a juventude, categoria social mais destituda de pontos de referncia e
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de enrazamento. Os jovens, at h pouco relativamente preservados dos efeitos destrudores do individualismo atravs de uma educao e de um en quadramento estveis 
e autoritrios, sofrem em cheio a desestabijizao narcsica; so eles que hoje representam a figura ltima do indivduo desin sendo, estilhaado, desestabjljzado 
por excesso de proteco ou de derrelio e, por isso, candidato ideal ao suicdio. Na Amrica, os jovens entre quinze e vinte e quatro anos suicidam-se a um ritmo 
duplo do de h dez anos, tri plo do de h vinte anos. O suicdio diminui nas idades em que outrora era mais frequente, mas no deixa de aumentar entre os mais jovens: 
nos EUA, o suicdio  j a segunda causa de morte dos jovens, a par dos acidentes de viao. Talvez estejamos apenas no incio do processo;  o que pensamos quando 
nos damos conta, em toda a sua monstruosidade, do grau ltimo a que chegou a escalada da auto-destruio no Japo: facto inaudito, so ago ra as crianas entre cinco 
e catorze anos que, em grande nmero, se matam
- de 56 em 1965 passaram a 100 em 1975, e a 265 em 1980.
Com a ingesto de barbitrjcos e a taxa considervel das tentativas falha das, o suicdio entra na era de massas, adquire um estatuto banalizado e disco unt, do 
mesmo modo que a depresso e a fadiga. Actualmente o suic dio v-se anexado por um processo de indeterminao em que o desejo de vi ver e desejo de morrer j no 
so antinmicos, mas flutuam entre um plo e outro, quase instantaneamente. Grande nmero de suicidantes, assim, inge rem o contedo da sua farmcia para logo a 
seguir pedirem auxlio mdico; o suicdio perde a radicaljdade, desrealiza-se no momento em que os pontos de referncia individuais e sociais se flexibilizam, em 
que o prprio real se esvazia da sua substncia densa e se identifica com uma encenao progra mada. Esta liquefaco do desejo de aniquilamento  apenas uma das 
faces do neo-narcisismo, da desestruturao do Eu e da dessubstancializao da vontade. Quando o narcisismo  preponderante, o sucdio procede mais de uma espontaneidade 
depressiva, doflip efmero do que de um desespero ex istencial definitivo. Deste modo, nos nossos dias, o suicdio pode verificar-se paradoxalmente sem desejo de 
morte, um pouco como esses crimes entre vi zinhos em que o indivduo mata menos por vontade de morte do que para se desembaraar simplesmente de uma fonte de poluio 
sonora. O indivduo ps-moderno tenta matar-se sem querer morrer, como esses assaltantes que disparam ao acaso e por nervosismo; os indivduos tentam pr termo  
vida por causa de qualquer observao menos lisonjeira, do mesmo modo que outros matam para arranjar um bilhete de cinema; trata-se do efeito hard,
de uma violncia sem projecto, sem vontade afirmada, uma subida aos ex tremos instantnea: neste ponto a violncia hard  veiculada pela lgica cool do processo 
de personalizao.
Individualismo e revoluo
O processo individualista que progride juntamente com a reduo do de safio interpessoal , em contrapartida, acompanhado por um desafio indito, de alcance muito 
mais radical, o da sociedade frente ao Estado. , com efei to, no momento em que a relao de homem a homem se "humaniza" que se abrem o projecto e a aco revolucionrias, 
bem como uma luta de classes declarada, consciente de si prpria, tendo por misso dividir a histria ao meio e abolir a prpria mquina estatal. Processos de civilizao 
e revoluo so concomitantes. Nas sociedades holistas, a violncia dos homens poupava a definio do seu estar-em-conjunto; a despeito dos seus caracteres sangren 
tos, os motins e revoltas tradicionais no visavam destruir a arquitectura do todo social. Pelo contrrio, nas sociedades individualistas, so os fundamen tos da 
sociedade, o teor intrnseco da lei e do poder que se tornam objectos do debate pblico, alvos da luta dos indivduos e das classes. Comea a era moderna da violncia 
social, doravante pea constitutiva da dinmica hist rica, instrumento de transformao e de adaptao da sociedade e do Esta do. A violncia das massas torna-se 
um princpio til e necessrio ao funcio namento, ao crescimento das sociedades modernas, tendo a luta de classes permitido ao capitalismo nomeadamente superar as 
suas crises, reabsorven do o seu desequilbrio crnico entre produo e consumo.
Impossvel compreender a emergncia do fenmeno revolucionrio, bem como a de uma luta de classes permanente e institucionalizada, separando os da sociedade individualista 
que lhes  correlativa, tanto pela sua organi zao econmico-social como nos seus valores. Nas sociedades holistas ou hierrquicas, quer dizer, em sistemas onde 
os seres particulares, secundrios em relao ao conjunto social em que os homens esto integrados assenta num fundamento sagrado e, por isso mesmo, subtrado  
iniciativa revolu cionria. Para que a revoluo se torne uma possibilidade histrica,  preciso que os homens estejam atomizados, desinseridos das suas solidariedades 
tra dicionais;  preciso que a relao com as coisas leve a melhor sobre a rela o entre os seres e que, por fim, predomine uma ideologia do indivduo que
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lhe conceda um estatuto nativo de liberdade e de igualdade. A revoluo e a luta de classes pressupem o universo social e ideolgico do individualismo; a partir 
de ento, j no h organizao em si exterior  vontade dos ho mens, o todo colectivo e a sua supremacia, que anteriormente impediam a violncia de abalar a ordem 
correspondente, perdem o seu princpio de in tangibilidade e j nada, nem o Estado, nem a sociedade, escapam  aco transformadora dos homens. Quando o indivduo 
deixa de ser meio de um fim exterior e passa a ser considerado e a considerar-se como fim ltimo, as instituies sociais perdem o seu halo de sagrado; tudo o que 
procede de uma transcendncia inviolvel e se d numa heteronomia de natureza v-se a mais breve ou a mais longo prazo minado por uma ordem social e ideolgica cujo 
ncleo j no  o alm, mas o indivduo autnomo em si prprio
A sociedade homognea de seres iguais e livres  indissocivel, na sua era triunfante, de um conflito aberto e violento relativo  organizao da socie dade. Governada 
pelo papel decisivo da ideologia, que doravante se substitui  instncia religiosa, conservando o mesmo carcter absoluto e passional, a primeira fase individualista 
 uma era de revolues e de lutas sociais san grentas. Emancipando-se do sagrado, a sociedade individualista s restitui aos homens o pleno domnio do seu estar-em-conjunto 
ao faz-los defronta rem-se em conflitos,  certo que por vezes baseados no interesse, mas cujo maniquesmo se prende sobretudo aos novos valores associados aos 
direitos do indivduo. Nesta perspectiva, a fase herica do individualismo pode ser comparada mais acertadamente a uma mobilizao-politizao de massa em torno 
de valores do que a um recuo prudente para o campo de preocupaes estritamente privadas. Hipertrofia e antagonismo ideolgicos so insepar veis da era individualista-democrtica.
 Por comparao com os nossos dias, esta fase continua de algum modo ligada s sociedades holistas, ao primado do todo social, passando-se tudo como se o elemento 
de desorganizao so cial encerrado no princpio individualista tivesse sido prontamente contraria do por um tipo de enquadramento omnipresente e inflexvel, paralelo 
nesse ponto ao das disciplinas, e destinado a neutralizar a dinmica das singulari dades pessoais, a prender os indivduos  coisa pblica, ainda que atravs da 
mediao dos confrontos de classe e dos valores.
Ver M. Gauchet, art. citado, pp. 111-114, e introduo a De la libert chez les moder
nes, Laffont, col. "Pluriel", 1980, pp. 30-38.        e
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Com a era individualista abre-se a possibilidade de uma era de violncia total da sociedade contra o Estado, sendo uma das suas consequncias uma violncia no menos 
ilimitada do Estado sobre a sociedade, ou seja o Terror como modo moderno de governo pela violncia exercida em massa, no s contra os opositores, mas tambm contra 
os partidrios do regime. As mes mas razes que permitem  violncia civil subverter a ordem social e poltica tornam possvel um desafio sem precedentes do poder 
em relao  socieda de, nascendo o Terror na nova configurao ideolgica resultante da supre macia do indivduo: quer os massacres, as deportaes, os processos 
se reali zem em nome da vontade do povo quer da emancipao do proletariado, o Terror s  possvel em funo de uma representao democrtica e, portan to, individualista, 
do corpo social, embora, sem dvida, para denunciar a sua perverso e para restabelecer pela violncia a prioridade do todo colecti vo. Do mesmo modo que a vontade 
revolucionria no pode explicar-se por contradies objectivas de classe, tambm  vo querer dar conta do Terror a partir de simples necessidades circunstanciaiS 
 porque o Estado, de acor do com o ideal democrtico, se proclama idntico e homogneo  sociedade que, com efeito, pode chegar a desafiar toda a legalidade, a 
desenvolver uma represso sem limites, sistemtica, indiferente s noes de inocncia e de culpabilidade Se, por conseguinte, a evoluo individualista-de mocrtica 
implica correlativamente, na longa durao, uma reduo dos sig nos ostentatriOs do poder estatal e o advento de um poder benevolente, sua ve, protector nem por 
isso deixou de permitir a emergncia de uma forma particularmente sangrenta de poder, que podemos interpretar como uma l tima revivescncia do brilho do soberano 
condenado pela ordem moderna, uma formao de compromisso entre os sistemas da crueldade simblica tra dicional e a impessoalidade gestionria do poder democrtico 
A grande fase do individualismo revolucionrio termina ante os nossos
olhos: depois de ter sido um agente de guerra social, o individualismo con tribui actualmente para abolir a ideologia da luta de classes. Nos pases oci dentais 
desenvolvidos, a era revolucionria encerrou-se, a luta de classes ins titucionalizou-5e, j no  portadora de descontinuidade histrica, os parti dos revolucionrios 
encontram-se num estado de deliquescncia total, a ne gociao leva por todo o lado a melhor sobre os confrontos violentos. A se 1 Ver C Lefort, Un homme en trop, 
d. du Seuji, 1976, pp. 50-54, e Bernard Manin,
"Saint-Just, la logique de la Terreur", iii Libre, 1979, n. 6.
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gunda "revoluo" individualista, veiculada pelo processo de personalizao, tem como consequncia uma desafeco de massa da res publica e em parti cular das ideologias 
polticas: depois da hipertrofia ideolgica, a desenvoltu ra perante os sistemas de sentido. Com a emergncia do narcisismo, a or dem ideolgica e o seu maniquesmo 
cedem o lugar  indiferena, tudo o que  dotado ainda de uma certa densidade de universalismo e de oposies exclusivas deixa de ter preenso sobre uma forma de 
individualidade muito amplamente tolerante e mvel. A ordem rgida, disciplinar, da ideologia tor nou-se incompatvel com a desestabilizao e com a humanizao 
coo/. O processo de pacificao conquistou o todo colectivo, a civilizao do conflito social prolonga hoje a das relaes inter-pessoais.
Mesmo os ltimos sobressaltos da Revoluo do testemunho deste apa ziguamento do conflito social. Foi o caso de Maio 68. As discusses que se travaram em torno 
do teor do movimento so a este respeito significativas:
revoluo ou happening? Luta de classes ou festa urbana? Crise da civiliza o ou charivari? A revoluo torna-se indecidvel, perde os seus referen de identidade. 
Por um lado, Maio 68 continua a inscrever-se na vaga do processo revolucionrio e insurreccional: barricadas, confrontos violentos com as foras da ordem, greve 
geral. Por outro lado, o movimento j no  animado por qualquer meta global, poltica e social. Revoluo sem projecto histrico, Maio 68  uma sublevao cool 
e sem mortes, uma "revoluo" sem revoluo, um movimento de comunicao tanto como um confronto so cial. As jornadas de Maio, para alm da violncia das noites 
quentes, repro duzem menos o esquema das revolues modernas fortemente articuladas em torno de paradas ideolgicas do que prefiguram a revoluo ps-moderna das 
comunicaes. A originalidade de Maio foi a sua civilidade espantosa: a discusso instaura-se por todo o lado, os graffiti florescem nas paredes, os jornais, os 
cartazes, os comunicados multiplicam-se, a comunicao estabe lece-se nas ruas, nos anfiteatros, nos bairros e nas fbricas, nos lugares de onde habitualmente estava 
ausente. Sem dvida, todas as revolues suscita ram uma inflao de discursos, mas, em 68, estes soltaram o lastro dos seus contedos ideolgicos pesados; j no 
se tratava, com efeito, de tomar o po der, de designar traidores, de traar linhas divisrias entre os bons e os maus; tratava-se, por intermdio da expresso livre, 
da comunicao, da contestao, de "mudar a vida", de libertar o indivduo das mil alienaes que quotidianamente pesam sobre ele, do trabalho ao supermercado, da 
te leviso  universidade. Libertao da palavra, Maio 68 foi animado por uma
ideologia flexvel, simultaneamente poltica e convivia!, patchwork de luta de classes e de lbido, de marxismo e de espontanesmo, de crtica poltica e de utopia 
potica; uma descrispao, uma desestandardiZao terica e prtica habita o movimento, isomorfo nese ponto do processo coo de personaliza o. Maio 68  j uma 
revoluo persona!izada a revolta faz-se contra a au toridade repressiva do Estado, contra as separaes e imposies burocrti cas incompatveis com a livre afirmao 
e desenvolvimento do indivduo. A ordem da revoluo humaniza-se, levando em conta as aspiraes subjecti vas, a existencla e a vida:  revoluo sangrenta substituiu-se 
a revoluo estilhaada", multidimensiOnal, transio quente entre a era das revolues sociais e polticas em que o interesse colectivo prima sobre o dos particulares 
e a era narcsica, aptica, desideologizada.
Desligada do maniquesmo ideolgico, a violncia das jornadas de Maio pde mesmo surgir como uma manifestao ldica, exactamente ao invs do terrorismo actual que, 
no seu fundo, continua a ser tributrio do modelo re volucionrio estrito, organizado em torno da guerra de classe, em torno de dispositivos vanguardistas e ideolgicos, 
o que explica o seu corte radical com as massas indiferentes e descrispadas. Dito isto, apesar do seu enqua dramento ideolgico, o terrorismo rene-se, por um estranho 
paradoxo,  l gica do nosso tempo, j que os discursos duros de legitimao de que proce dem os atentados, os "processos" e os raptos se tornaram totalmente vazios, 
desconectados de toda a relao com o real  fora de intumescncia revolu cionria e de autismo grupuscUlar. Processo extremista que apenas a si prprio tem em 
vista, o terrorismo  uma pornografia da violncia: a mquina ideolgica ganha velocidade por si prpria, perde todo o enraizamento; a dessubstanCializao conquista 
a esfera do sentido histrico, afirmando-se como violncia hard exasperao maximalista e vazia, espectro lvido, car caa ideolgica liofilizada.
Maio 68, j o dissemos, tem uma dupla face: moderno pelo seu imagin rio da Revoluo, ps-moderno pelo seu imaginrio do desejo e da comuni cao, mas tambm pelo 
seu carcter imprevisvel ou selvagem, modelo pro vvel das violncias sociais vindouras.  medid.t que o antagonismo de das s se normaliza, surgem exploses aqui 
e ali, sem passado nem futuro, desa parecendo com a mesma rapidez que caracterizou a sua emergncia. Actual mente, as violncias sociais tm muitas vezes em comum 
o facto de j no caberem no esquema dialctico da luta de classes articulada em torno de um proletariado organizado: os estudantes nos anos 60, hoje os jovens desemPre
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gados, squatters, Negros ou Jamaicanos - a violncia marginalizou-se. Os motins que se desenrolaram recentemente em Londres, Bristol, Liverpool, Brixton ilustram 
o novo perfil da violncia, seja qual for o carcter racial de alguns destes confrontos. Se a revolta libertria dos anos sessenta era ainda "utpica", portadora 
de valores, nos nossos dias, as violncias que incen deiam os ghettos surgem desligadas de qualquer projecto histrico, fiis nes se ponto ao processo narcsico. 
Revolta pura da desocupao, do desempre go, do vazio social. Dissolvendo a esfera ideolgica e a personalidade, o pro cesso de personalizao libertou uma violncia 
tanto mais dura quanto me nos esperana tem, no future,  imagem da nova criminalidade e da droga. A evoluo dos conflitos sociais violentos  a mesma que a da 
droga: depois da viagem psicadlica dos anos sessenta, marca de contra-cultura e de revol ta, a era da toxicomania banalizada, da depresso sem sonho, da descarga 
lumpen com medicamentos, verniz das unhas, querosene, colas, dissolventes e lacas, para uma populao cada vez mais jovem. Tudo o que resta  ata car um bobby ou 
um Paquistans, incendiar as ruas e os prdios, pilhar os armazns, numa aco a meio caminho entre a descarga e a revolta. A vio lncia de classe deu lugar a uma 
violncia de jovens desclassificados, que destroem os seus prprios bairros; os ghettos incendeiam-se como se se tra tasse de acelerar o vazio ps-moderno e de completar 
na raiva o deserto que, por outros meios, o processo coo! de personalizao realiza. Numa derradei ra desqualificao, a violncia entra no ciclo em que absorve 
os seus pr prios contedos; de acordo com a era narcsica, a violncia dessubstanciali za-se num culminar hiperrealista sem programa nem iluso, violncia hard, 
desencantada.
